Guilty Gear Strive é um jogo de luta electrizante, mas difícil

As nossas impressões da beta na PS5.

A Arc System Works não tem no seu catálogo nomes tão sonantes como Street Fighter, Mortal Kombat ou Tekken, mas este estúdio japonês é um mestre dos jogos de luta. Mais recentemente, a Arc System Works tornou-se célebre pela produção de Dragon Ball FighterZ, facilmente o melhor jogo de luta do anime já alguma vez lançado, contudo, tem vindo a desenvolver jogos de luta há décadas. Começou com Guilty Gear na era da PS One, depois criou a saga Blazblue na era da PlayStation 3 e Xbox 360, até que em 2014 recuperou a chama perdida de Guilty Gear com Guilty Gear Xrd Sign. Entre estes jogos, o estúdio japonês concebeu vários outros jogos como a adaptação do anime Kill la Kill e participou em Under Night, Slice, Dice & Rice, entre outros. O seu currículo é vasto.

Guilty Gear Strive é o terceiro jogo que será lançado após a grande recuperação que a Arc System Works fez em 2014 com Sign. Mantendo o charme dos jogos 2D, conseguiu trazer para a modernidade o ADN da série e integrar belíssimos gráficos 3D através do Unreal Engine. É impossível falar em Guilty Gear Strive sem mencionar o título de 2014, continuando a ser a pedra basilar que serviu para a edificação deste novo capítulo que será lançado para PC, PlayStation 5 e PlayStation 4. Um problema que Sign não conseguiu resolver completamente foi o apelo excessivamente hardcore da série, afastando novos jogadores devido à dificuldade de penetrar num jogo que é altamente complexo e energético. Se o objectivo da beta aberta é convidar novos jogadores a experimentar, não começa com o pé direito.

"Dificuldade de penetrar num jogo que é altamente complexo"

Se há um problema a apontar nesta beta, é falta de um tutorial maior. O tutorial incluído apenas te ensina as acções mais básicas do jogo, mas num jogo tão complexo como este, é essencial conhecer e perceber as mecânicas mais avançadas para conseguires ser mais competitivo e também para extrair o potencial da jogabilidade. Depois de algum tempo no modo treino a estudar as diferentes personagens, mecânicas e como cada uma consegue encadear combos, a magia de Guilty Gear Strive começou a surgir. Não me entendam mal; apesar disto, é um jogo de luta fantástico que reacendeu a minha paixão pelo género, mas sem um tutorial mais alongado esta beta é o equivalente a atirar alguém que não sabe nadar para o mar: há valentes que vão sobreviver e aprender a nadar, há outros que se vão afogar.

Um jogo que emana carisma

Se os jogos de luta fossem géneros musicais, Guilty Gear Strive seria o equivalente a Hard Rock / Heavy Metal. Desde o seu leque de personagens únicos e visualmente marcantes à jogabilidade ofegante, assim que os combates começam sentes o teu espírito a ser contagiando pela energia do jogo. Tanto Sign (2014) como Revelator (2016) já tinham sido elogiados pela sua direcção estética, mas Guilty Gear Strive consegue ir mais longe no espectáculo visual. Os contra-ataques, para além de causarem dano maior, provocam um aproximar da câmera aos lutadores para criar mais drama e simbolizar o momento.

"Assim que os combates começam sentes o teu espírito a ser contagiando pela energia do jogo"

Strive também introduz transições de cenário. Quando um lutador está encostado à parede, pode ser esmagado, aparecendo uma animação parecida com vidro partido. O próximo ataque vai provocar uma transição de cenário, um dos momentos em que o jogo sai do plano 2D para o 3D, exibindo os incríveis visuais atingidos com o Unreal Engine 4. Como todos os jogos da Arc System Works, os efeitos visuais provenientes do embate entre lutadores são constantes e puxados. É um espectáculo incrível, ainda que queira um olho bem treinado para perceber o que está a acontecer e, mais importante, para conseguir reagir correctamente entre o "fogo de artifício".

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Um jogo visualmente belo, com um leque de personagens bizarras.

Devido a uma mudança no sistema, as opções de combos não são tão fáceis de perceber. Noutros jogos de luta, os chamados "ataques fracos" facilmente encadeiam com ataques mais fortes, mas em Guilty Gear Strive isso não acontece. A beta permite-te consultar a lista de ataques de cada personagem, o que ajuda um pouco, mas não há qualquer ajuda no que toca a perceber como os diferentes golpes podem ser ligados para formar combos punitivos. Alia isto a duas barras existentes no ecrã - Gauge e Tension - e rapidamente percebes que Guilty Gear Strive é um carro muito difícil de guiar, ainda que possa ser muito satisfatório se lhe dedicares o devido tempo para aprender.

Adeus à latência no online?

O netcode de Guilty Gear Strive já foi elogiado por dezenas de jogadores profissionais de jogos de luta. Os fãs do género sabem perfeitamente que um netcode mal optimizado aliado a más ligações à Internet podem dar origem a partidas agoniantes, em que o jogo responde com um atraso enorme e soluços. Guilty Gear Strive está num bom caminho. A maioria das nossas partidas contra outros jogadores decorreram lindamente. A nossa personagem - fiquei fã do Faust - respondeu sempre aos comandos introduzidos e não nos sentimos prejudicados por interferências de ligação. Ainda assim, parece que a experiência ainda é dependente da Internet do outro utilizador. Houve uma partida com um jogador dos Estados Unidos onde presenciamos soluços. O jogo não ficou injogável, mas perdeu alguma fluidez.

Ainda assim, uma vantagem das partidas online de Guilty Gear Strive é que indica sempre os Rollback Frames e os milissegundos de latência. Deste modo, tens sempre uma ideia do que esperar em relação à qualidade da partida. Antes de puderes participar numa partida online, há que fazer um teste contra a inteligência artificial, que depois de atribuiu um rank. Cada rank equivale a um piso de uma torre no modo online. Para proteger os piores jogadores, nunca podes entrar num piso inferior ao que te foi atribuído, mas podes evoluir e alcançar pisos mais elevados à medida que ganhas partidas. Por exemplo, comecei no segundo piso, mas rapidamente alcancei o quarto piso. O jogo também te deixa escolher a região, por isso é muito fácil jogar contra pessoas do Japão e Estados Unidos se desejares.

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Há momentos, inclusive nos ataques especiais, em que o jogo troca para a perspectiva 3D para mais espectáculo.

O modo online ainda envolve a criação de um avatar que usas para navegar manualmente nestes pisos. Podes começar uma luta contra outro jogador se este estiver com a espada para cima. Outra alternativa é optar no menu por uma partida rápida, que te permite estar no modo treino enquanto buscas uma partida (o que o jogo faz é colocar a tua personagem no respectivo piso com a espada para cima). É um sistema caricato, mas um tanto bizarro. Ainda por cima, quando estás a navegar nos pisos da torre, metade do ecrã está ocupado com uma secção para notícias e promoção do jogo.

Uma grande promessa

Sendo uma beta, a experiência de Guilty Gear Strive é naturalmente limitada, mas com base em jogos anteriores da Arc System Works, a principal falha apontada - um tutorial mais longo - será provavelmente invalidada na versão final. Tanto os Guilty Gear anteriores como os jogos da saga Blazblue tinham tutoriais muito completos, por isso não existe razão para acreditar que Guilty Gear Strive vai retroceder neste aspecto. Quanto ao resto, o ADN da Arc System Works continua a produzir resultados divinais. Não estou seguro se este vai ser finalmente o jogo que vai conseguir apelar a uma audiência mais casual - um dos desejos do estúdio - mas se isto serve de alguma coisa, a minha experiência com a série era praticamente nula e ainda assim fiquei rapidamente vidrado no jogo. Guilty Gear Strive será lançado a 9 de Abril para PC, PlayStation 5 e PlayStation 4.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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