Back 4 Blood review - Não alertes as Hordas

Divertido com os amigos, mas frustrante em partidas online.

A espera foi longa e penosa, uma eternidade prolongada no tempo sustentada por uma ânsia de um digno sucessor do clássico Left 4 Dead. Finalmente soubemos no final de 2020 que existiria uma nova abordagem por via de uma nova franquia, produzida pelos criadores do original, a Turtle Rock Studios. Para os menos atentos, esta não é primeira tentativa de grande envergadura por parte da produtora após Left 4 Dead, alguém se recorda de Evolve? Nasce desta forma o sucessor espiritual, Back 4 Blood, para júbilo de todos os fãs, carregando às costas o peso do significado do original. É uma nova abordagem que se avizinhava inquietante, no sentido de se perceber como iriam adaptar o tema e principalmente todas as mecânicas de jogo que fazem parte do ADN tão específico de Left 4 Dead.

As preocupações com lançamentos que trazem até nós estes clássicos nunca é tarefa fácil, seja pela jogabilidade que necessita de adaptação às exigências e parâmetros atuais, passando pelos conteúdos outrora apelativos e que hoje poderão ser curtos para padrões e exigências dos jogadores atuais. Muita coisa mudou desde 2008, Back 4 Blood tinha necessariamente a obrigatoriedade de se adaptar. Tivemos uma oportunidade de o experimentar durante a beta em agosto passado, que teve impactos diferenciados. Temos agora a versão final, depois de lhe dedicar muitas horas, mesmo muitas, estou aqui para determinar se a Turtle Rock Studios conseguiu deixar definitivamente o fracassado Evolve no baú das más recordações, sobretudo, se abordou da melhor forma a ressuscitação de um clássico.

A abordagem por parte da produtora para Back 4 Blood é destemida de preocupações com enredos e objetivamente inclinada para as mecânicas e jogabilidade. Quero com isto dizer, a componente dedicada a uma narrativa empolgante com fantásticas cinemáticas, uma linha condutora de um trabalho que nos proporcionaria uma ligação à temática de forma profunda, é completamente afastada. Temos sim uma abordagem superficial aos acontecimentos, é tudo demasiado rápido e sintético, principalmente e especialmente em relação aos intervenientes. De certa forma, é uma linha mantida do original, mas na minha perspetiva deveria ter sido mais cuidada e obviamente adaptada aos padrões atuais, principalmente por se tratar de um jogo classificado como de alto calibre (AAA).

"abordagem por parte da produtora para Back 4 Blood é destemida de preocupações com enredos e objetivamente inclinada para as mecânicas e jogabilidade"

Não é criada uma ligação ou vínculo com os personagens, somos atirados para apresentações de qualidade mediana que retiram aquele polimento que tantos outros possuem. As personagens ao nosso dispor, que são inicialmente 4 e passam a 8 no decorrer do primeiro Ato, são introduzidas sem chama e sem grandes tentativas de nos fazer querer saber mais sobre elas. Esta é uma abordagem obviamente propositada e que mantém a energia do original, mas penso que aqui poderia ter sido dedicado mais tempo, tornando esta componente adaptada à atualidade. Penso que houve demasiada displicência aqui.

Está criada desta forma uma abordagem tremendamente sintética a tudo o que Back 4 Blood tem para oferecer. Somos um Cleaner que se une a outros sobreviventes da catástrofe para combater zombies, denominados aqui por Ridden. A Campanha está dividida por Atos, que são 4, uns mais longos que outros. Temos também a possibilidade de jogar em modo Solo, que serve de treino, pois aqui não somos recompensados com quer que seja. Por último temos o modo Swarm, que consiste em partidas PVP de Cleaners contra Ridden.

Na Campanha Online, começamos por escolher um dos Cleaners, cada um com características específicas que influenciam tanto a equipa como em termos individuais. Escolhemos os nossos Baralhos de Cartas, que podem ser personalizados, e somos colocados numa divisão, um clássico em Left 4 Dead. Aqui, é altura de nos apetrechar com armamento, que é vasto e multifacetado. Temos caçadeiras, submacinhe guns, assault rifles, snipers, granadas, medicamentos, e muito mais. São permitidas uma enorme variedade de escolhas, que combinadas com os nossos companheiros podem fazer toda a diferença. Um entrave estranho que detetei já na beta, é a impossibilidade de se retirar os attachments das armas, algo muito arcaico e que não consigo entender. A única forma de os retirar é substituir por outro, caindo ao chão o que estava na arma.

"impossibilidade de se retirar os attachments das armas, algo muito arcaico e que não consigo entender"

decks

A escolha dos Cleaners, das cartas e do arsenal bélico ditará o sucesso das nossas Runs. Esta simbiose entre armamento e trabalho de equipa é muito bela no papel, mas em termos práticos existem problemáticas que considero graves. Mas vamos por fases, primeiro em relação aos Atos, que são divididos por Runs. É aqui que existe desde logo inconsistências, pois temos dentro do mesmo nível de dificuldade Runs que são demasiado fáceis e outras que estranhamente se tornam completamente desfasadas do contexto do nível de dificuldade escolhido. Notei isso particularmente no nível Recruta. Como exemplo posso dar o último Ato que o terminei sem grande dificuldade, que me fez questionar se não estava a presenciar algum tipo de erro no jogo.

Mas as inconsistências, melhor dizendo, problemáticas, estão mais viradas para os restantes níveis de dificuldade, o Veterano e Pesadelo. Nestes modos é introduzido o Fogo Amigo, e logo aqui começa um novo desafio. Não é que seja uma inconsistência, mas sim a problemática de jogarmos online com jogadores que não sabem o que estão a fazer no campo de batalha, disparam para todos os lados sem qualquer preocupação com os companheiros. Este é o maior entrave que detetei no modo Campanha de Back 4 Blood, os companheiros que literalmente não sabem o que estão a fazer nestes modos de dificuldade mais avançados. Estes modos deveriam ser bloqueados a todos os jogadores que ainda não tenham terminado a campanha no nível Recruta. As Runs tornam-se desesperantes e a vontade de partir o comando está sempre na minha cabeça.

Obviamente que não acontece o mesmo se jogarmos com amigos, a comunicação é muito mais eficaz e sobretudo crucial para o sucesso das Runs nos níveis Veterano e Pesadelo. É aqui que Back 4 Blood brilha, na cooperação com os nossos amigos. A diversão é levada a níveis elevadíssimos, com enormes gargalhadas e um sentimento de recompensa quando se consegue terminar uma Run. Algo terá de ser feito, alterado, para que o título sobreviva no seu modo online. Caso contrário, teremos uma morte rápida e o afastamento dos jogadores, como em Evolve.

"com amigos a diversão é levada a níveis elevadíssimos, com enormes gargalhadas e um sentimento de recompensa quando se consegue terminar uma Run"

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A outra vertente a que nos podemos dedicar é o modo Swarm. As partidas são interessantes, é onde podemos vestir a pele dos Ridden. Aqui as partidas possuem um tempo limitado, que é controlado por um círculo que se vai fechando, agrupando os jogadores cada vez mais num espaço mais restrito. A função das equipas é distinta. Os Ridden tentar matar o mais rápido possível os Cleaners. Estes por sua vez tentam sobreviver o maior tempo possível. É um modo interessante que se desgasta rapidamente pela falta de originalidade. É de saturação fácil e as exigências e desafios não são muito apelativos e até de pouco interesse. Considero uma adesão ao jogo para que o pacote esteja mais completo. De referir que já existia em Left 4 Dead.

Todas as ações são apoiadas pelos nossos Baralhos de Cartas, que podem ser personalizados para cada tipo de modo. Podemos dessa formar adaptar os baralhos para as suas finalidades. Esta componente é deveras fantástica, é um modificador impressionante que permite criar adaptações vitais para os objetivos pretendidos e que influenciam de forma real o desenrolar das atividades. Temos cartas iniciais, mas outras vão sendo desbloqueadas através das Linha de Abastecimento. Aqui tanto se pode adquirir cartas como cosméticos para o arsenal e vestimentas. Todas elas com um custo em Copper, que é a moeda utilizada e obtida ao terminar eventos nos modos online com sucesso. De enaltecer que aqui tudo gratuito, não temos de gastar dinheiro real. Parabéns Turtle Rock Studios.

As ideias idealizadas para este sucessor espiritual estão no sítio certo, mas existem questões que não foram abordadas atempadamente e evidenciam um lançamento apressado e que deveria estar bem mais polido em termos de equilíbrio. Temos Runs inconsistentes, níveis de dificuldade demasiado dispares uns dos outros e um problema grave com os jogadores que neste momento ingressam nas Runs mais difíceis. É preferível jogar nestas com a IA, pelo menos não cometem tantas asneiras e, sobretudo, não te matam e estão sempre a curar-nos e a fornecer munição. Mas temos momentos em que a IA é completamente caricata, estão sempre colados aos jogadores e sistematicamente a ficarem presos nos cenários. Mais uma prova de falta de polimento.

"Runs inconsistentes, níveis de dificuldade demasiado dispares uns dos outros e um problema grave com os jogadores que neste momento ingressam nas Runs mais difíceis"

Obviamente que Back 4 Blood foi construído para diversão cooperativa e as questões referidas deitam por terra toda essa premissa. O desespero invade mesmo quem não possui amigos para jogar, nem toda a gente tem amigos a toda a hora disposto a jogar, e nem todos possuem o título. Volto a referir que os níveis de dificuldade necessitam de revisão, não que sejam problemáticos pelo grau de dificuldade, mas sim pelos outros jogadores que nos acompanham.

Em termos técnicos, temos um jogo belo, com grafismo bem conseguido que assenta que nem uma luva à temática. Existem momentos fantásticos no ambiente, uma arte que adoro particularmente. Para esta análise joguei na PlayStation 5, Xbox Series X, e no PC. Nas consolas temos momentos com quedas de fotogramas que são percetíveis, e no PC as coisas estão como deveriam estar, sólidas. É um lançamento robusto neste campo.

Temos então uma aposta que me conseguiu cativar, mas com misturas diversificadas de sabores que não consigo distinguir. Se por um lado a diversão é garantida, através de um formato de jogo e mecânicas que são elaboradas com excelente perícia. Na outra face da moeda temos evidentes problemáticas que devem ser abordadas com urgência e denotam a falta de polimento geral. É deveras evidente que necessitava de mais tempo de desenvolvimento e principalmente que escutassem o feedback dos jogadores após a beta. Não Consigo recomendar Back 4 Blood neste momento, com muita pena minha. Turtle Rock Studios, é urgente corrigir e especialmente ouvir todas as sugestões da comunidade.

Prós: Contras:
  • Muito divertido com os amigos
  • Fantástica arte visual
  • Excelente sonoridade, principalmente com áudio 3D
  • Jogabilidade recompensadora
  • Personalizações são todas gratuitas
  • Desequilíbrio na dificuldade dentro dos mesmos Atos
  • IA chega a ser cómica
  • Jogar online é uma frustração
  • Narrativa sem profundidade
  • Longevidade duvidosa

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Sobre o Autor

Adolfo Soares

Adolfo Soares

Director

É o nosso homem do PC, por isso qualquer coisa é com ele. É também responsável pelo Eurogamer, bem como dá uma perna nas notícias.

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