Spider-Man: Miles Morales tem algo a ensinar aos jogos em mundo aberto

Insomniac Games ressuscitou uma sensação que pensava perdida.

Em outrora, já fui um grande adepto de jogos em mundo aberto, quando o expoente máximo do género eram os Grand Theft Auto da Rockstar Games. Muitas horas passei a percorrer Liberty City, Vice City e San Andreas, chegando ao ponto em que conhecia as estradas de cor, sem sequer ter de abrir o mapa para me guiar. Navegar por estas cidades virtuais era simplesmente relaxante e divertido, uma forma de "viajar" para outro sítio no final do dia. Acho que esta essência dos jogos em mundo aberto foi-se perdendo e actualmente a maioria deles não são nada mais do que meros espaços gigantescos com um uma quantidade astronómica de coisas para fazer, com o factor de diversão a ficar em segundo plano. A arte de desenhar um jogo em mundo aberto em que a simples navegação é apelativa tornou-se numa raridade.

Parece inacreditável fazer uma afirmação destas quando nunca houve tantos jogos em mundo aberto, mas a realidade é que a minha vontade de jogá-los nunca foi tão reduzida. Cheguei a pensar que fui eu que mudei. Pensava que os jogos em mundo aberto, devido à sua geral enormidade, requeriam tempo e paciência, mas a verdade é que recentemente voltei a reencontrar aquela sensação de relaxamento e diversão que, francamente, pensei que estava perdida para sempre. O jogo onde voltei a encontrar essa sensação foi em Spider-Man: Miles Morales. Está longe de ser o jogo em mundo aberto com o maior mapa ou com a maior longevidade, mas a sensação de liberdade atinge picos estratosféricos - um claro sinal que o mais importante está na sensação transmitida ao jogador e não na grandeza e quantidade de conteúdos.

Baloiçar de teia-em-teia entre os arranha-céus de Manhattan é uma sensação da qual não me tenho cansado. Subir ao topo de um arranha-céus para depois mergulhar e lançar a teia no último minuto ainda me causa arrepios. É uma pura satisfação. A Insomniac Games criou uma jogabilidade de fórmula dourada em 2018 com a chegada de Spider-Man à PS4. Com Miles Morales, graças à possibilidade de jogar a 60 fotogramas por segundo e pequenos ajustes que tornam tudo ainda mais fluído, chegou ainda mais longe. Há muito tempo que não me divertia tanto com um jogo em mundo aberto. É certo que o também tem a sua dose de coleccionáveis e tarefas um tanto mundanas e repetitivas, mas a navegação pela cidade é tão, mas tão boa que eventualmente acabas por apanhar ou fazer tudo sem que surja a sensação de que estás a preencher uma checklist.

"Subir ao topo de um arranha-céus para depois mergulhar e lançar a teia no último minuto ainda me causa arrepios"

Ainda há pouco tempo, num artigo de Returnal, falava de importância da jogabilidade para agarrar o jogador. Spider-Man: Miles Morales é outro excelente exemplar dessa filosofia. Compras o jogo porque queres jogar na pele do Spider-Man (neste caso, do Miles), mas a vontade de regressar a Manhattan não se dissipa porque a Insomniac Games executou o conceito com extrema eficácia. Outros estúdios parecem acreditar que os mundos abertos já têm um factor de diversão inerente. Acho que isso está errado. O género do jogo é apenas um potenciador da diversão presente na ideia. A diversão está nas acrobacias, na rapidez e fluidez com que a personagem na se move, na agradável resposta dos controlos. A liberdade do mundo aberto só torna isto ainda melhor.

O que é ainda mais curioso, é que estruturalmente, Spider-Man: Miles Morales não é um jogo inovador. O jogo divide-se em missões principais e missões secundárias opcionais que te oferecem recursos para desbloquear novos fatos, habilidades e engenhocas. Existem tantos outros jogos no papel oferecem a mesma coisa. Todavia, quando jogado, o entretenimento do jogo da Insomniac Games parece inesgotável. Facilmente consigo passar uma hora a navegar pela cidade, a vestir bem a pele da personagem, vigiando do topo dos arranha-céus os crimes que estão a acontecer. A Insomniac Games já tinha mostrado uma grande aptidão para criar jogos em mundo aberto divertidos com Sunset Overdrive, mas esta combinação do seu talento com o universo de Spider-Man é uma das melhores coisas que podia ter acontecido.

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A jogabilidade de Miles Morales foi altamente baseada em Spider-Man de 2018, mas a adição de poderes eléctricos e invisibilidade dão a este capítulo um sabor próprio.

Numa actualidade em que os videojogos estão cada vez mais tecnologicamente evoluídos e em que as possibilidades parecem ter cada vez menos limites, é lamentável que o factor de diversão nos jogos em mundo aberto esteja a ficar escasso. Ultimamente, o tamanho do mapa, a quantidade de actividades secundárias e a longevidade pouco importam se não estás a ter diversão. Os videojogos são entretenimento e deviam servir para relaxar, mas há casos em que se converteram quase em trabalhos, com grandes listas de tarefas aborrecidas para fazer em que o único propósito é queimar tempo. A sensação que Spider-Man: Miles Morales dá enquanto estás a jogar é completamente oposta. O tempo passa a voar e isso é sempre bom sinal.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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