Uncharted 4 - O jogo que não consigo apagar da consola

Passados 3 anos, ainda lá está.

Uncharted 4: O Fim de Um Ladrão comemorou 3 anos de vida a 10 de Maio de 2019 e isso deixou-me a pensar em como ainda o tenho instalado na consola, sem qualquer vontade de o apagar. Poderia facilmente desinstalar o jogo e mais tarde instalar quando quisesse voltar a jogar, mas o encanto que tenho por este jogo da Naughty Dog não me deixa imaginar o menu da PlayStation 4 sem o seu ícone ali. É uma espécie de recordação do meu percurso ao lado do sensacional Nathan Drake e agrada-me a ideia de a qualquer momento simplesmente voltar a jogá-lo.

Numa série tão prestigiada e aclamada, é compreensível que existam jogos controversos que não conseguem gerar consenso entre os fãs. Uncharted 4 é um exemplo disso, um jogo amado por muitos e que para outros tantos fica uns furos abaixo. Quando se fala de séries do calibre de Uncharted, são esperadas divisões entre qual o melhor. Pessoalmente, Uncharted 4 é um dos meus favoritos, especial por diversos motivos e por se apresentar como um fascinante exercício da Naughty Dog sobre si mesma, sobre as expectativas dos fãs e do peso da fama.

Desde o primeiro Uncharted que a Naughty Dog se esforçou para engrandecer a indústria dos videojogos com experiências de grande envergadura cinematográfica, nas quais vibras com a entusiasmante acção, te apaixonas pelos carismáticos personagens, ficas deslumbrado com os gráficos e, talvez mais importante, sentes existir profundidade argumentativa para vislumbrar diferentes camadas nos personagens. Uncharted 4 mostra um estúdio a tentar homenagear os seus fãs através de uma despedida a um adorado personagem, enquanto tenta equilibrar a essência que a caracteriza com novidades suficientes para mostrar avanços dignos de uma nova geração, numa consola que a sua patroa quer vender.

Este Uncharted 4 é provavelmente o mais cinematográfico de todos, não apenas porque recorre ao poder da PlayStation 4 para lhe dar vida, mas também porque mostra que os criativos da Naughty Dog já dominavam as lições que passaram anos a aprender. Poderás criticar que na hora da despedida a Naughty Dog preferiu manter-se na zona de conforto e não aproveitou o salto de gerações para dar um equivalente salto no design da série, mas na sua glorificação a tudo o que constitui a essência de Uncharted, a Naughty Dog conseguiu em pleno.

A série Uncharted destacou-se pelo carisma do protagonista, pelo entusiasmo e sensação de aventura que te transmitem, por se ter tornado numa espécie de Indiana Jones em formato de videojogo, e por ter ido mais longe do que qualquer outro jogo de acção e aventura na terceira pessoa ousou ir. Actualmente poderá ser fácil desmerecer os méritos desta série, olhar para eles como dados adquiridos, mas Uncharted 1 e Uncharted 2 alcançaram importantes triunfos para este género - humanização de personagens virtuais, com acções e intenções questionáveis, interesse pelo enredo, constante entusiasmo e vontade por descobrir mais, inesperadas cenas que o erguem acima da experiência de seguir num corredor alternando entre cobertura e tiros.

Não falo unicamente das majestosas set-pieces que se tornaram numa das suas imagens de marca, mas sim dos pequenos grandes momentos que deram um inesperado e emocional toque à série. A inesperada cena na pacata aldeia Nepalesa em Uncharted 2 é um momento marcante e fácil de referir, que evidencia de forma clara a alma da Naughty Dog e a sua sede por ir além do que a indústria tinha estabelecido como convencional. No entanto, a cena inicial desse jogo, que surpreendeu os fãs na sua revelação, mostra Drake ferido e preso num comboio prestes a cair de um desfiladeiro. Essa aposta em épicas set-pieces cresceram ao longo do tempo e variaram entre acção e intensidade cinematográfica (como visto na cena da queda do avião e consequente caminhada no deserto em Uncharted 3).

Ao saltar para a PS4, a Naughty Dog conseguiu elevar a qualidade gráfica, importante veículo que estabelece uma ligação entre as intenções cinematográficas da série com o jogador. Depois de passar dois jogos a experimentar com cenas tranquilas e completamente diferentes do que esperas num jogo do género - uma característica desta série, Uncharted 4 foi o expoente máximo alcançado pelo estúdio. Existem imensas cenas onde os personagens se tornam altamente humanos, relacionáveis e apelativos. O seu carisma é usado para te envolver em tarefas mundanas e a despedida a Drake é feita através da exploração do seu outro lado. Já conheces o bandido, o homem sedento por exploração que coloca em causa tudo para conseguir o tesouro, mas agora tiveste a oportunidade de descobrir o outro lado, aquele que se questiona se conseguirá viver o banal quotidiano como homem de família.

Uncharted 4 é um título controverso devido ao seu desenvolvimento, envolto em adiamentos, crunch e afectado pela saída de Amy Hennig - uma das principais responsáveis por transformar a série Uncharted num épico que se ergueu acima das suas aspirações Hollywoodescas. A visão de Hennig era mais sombria do que a que viste, com uma relação muito conflituosa entre os irmãos Drake, Sam seria o vilão. No entanto, o resultado final é um jogo com muita aventura, diversos locais exóticos, gráficos deslumbrantes e uma homenagem a tudo o que viste nos três anteriores - na hora da despedida, a aposta não foi para a novidade, foi uma espécie de volta de agradecimento após a vitória.

A introdução de Nadina fortalece o jogo e a narrativa, algo que o vilão final não consegue (por mais cruel ou mesquinho que a Naughty Dog se tenha esforçado para o fazer), deu-nos uma personagem capaz de se tornar referência na série (como comprovado por Uncharted: O Legado Perdido), enquanto a relação de Nathan Drake e Helena é afectada de forma altamente humanizada pelo regresso de Sam Drake. A Naughty Dog vai ao passado para mostrar mais de Drake, recorre a momentos dramáticos na sua juventude para afectar o presente e, mais importante, tornar incerto o seu futuro.

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Uncharted 4 ficou marcado pela incerteza sobre o futuro de Nathan Drake e apesar de toda a emoção sentida ao viver a aventura, o suspense em torno do seu desfecho foi uma constante.

Quem não se lembra do suspense que sentiu enquanto jogava Uncharted 4 e ainda não sabia o que aconteceria com o seu adorado protagonista? Isso é uma amostra da bela execução na sua homenagem a Nathan Drake - um personagem que cresceu com uma geração e se tornou numa inspiração para toda a indústria. Se actualmente os videojogos recebem personagens mais profundos, carismáticos e com desenvolvimentos mais satisfatórios, separando esta geração das anteriores, a Naughty Dog merece muito do mérito por isso.

É certo que a Naughty Dog retira-te um pouco de controlo e liberdade em algumas cenas em nome da sua ambição cinematográfica e para que a lógica no seu design de níveis permaneça intacta, mas és recompensado com momentos fantásticos. Basta pensar em toda a cena em Madagáscar, a chegada à ilha dos piratas onde Drake desperta sozinho no meio da praia, numa experiência pautada por constantes saltos temporais - Uncharted 4 é uma espécie de poesia escrita por um autor que tenta demonstrar o apelo da sua essência.

Uncharted 4 deu-te magníficas set-pieces, cenas intensas de acção, belos locais para fotografar, gráficos de espantar, puzzles que mal justificam esse nome, personagens altamente humanas e tudo pelo qual te tornaste fã desta série - acção cinematográfica glorificada com cenas épicas, intercaladas com momentos terra-a-terra surpreendentes num jogo deste estilo. É por isso que não consigo remover Uncharted 4 da minha consola, para o revisitar um dia destes e relembrar o porquê de me ter apaixonado por estes personagens.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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