Uncharted: the Nathan Drake Collection - Análise

Lenda viva.

Fundada por Jason Rubin e Andy Gavin, a Naughty Dog é uma das produtoras que nas duas últimas décadas mais construiu uma identidade dentro da marca PlayStation, formando o que poderíamos definir como uma unidade. Desde o inesquecível e brilhante Crash Bandicoot, lançado em 1996 e um dos primeiros grandes sucessos da primeira consola da Sony, a Naughty Dog continuou a promover um espírito aventureiro, original e refrescante nos seus jogos, através de personagens icónicas e eivadas de um imenso fulgor, como Jak and Daxter, já numa nova plataforma, a PlayStation 2. Sempre numa linha da frente em termos de produções destacadas e singulares, o aparecimento de Uncharted na PS3, com Uncharted: Drake's Fortune, permitiu à produtora notabilizar-se definitivamente num padrão de excelência, forjando uma das personagens centrais e triunfantes numa nova geração de plataformas.

Seguiram-se dois episódios que cimentaram definitivamente essa posição: Uncharted 2: Among Thieves (2009) e Uncharted 3: Drake's Deception (2011). A trilogia de sucesso permitiu à produtora reposicionar-se e encontrar um espaço que a deixa entre as melhores de sempre, quando lançou The Last of Us, em 2013, já na fase derradeira da PS3, surpreendendo a indústria com uma aventura em tudo inesquecível. Tanto Uncharted como The Last of Us, demonstram uma capacidade invulgar e um talento nato da equipa Naughty Dog em encontrar a articulação necessária entre conceitos e mecânicas que outras produtoras levam mais tempo a sedimentar.

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Combate de guerrilha nos telhados e uma deliciosa vista sobre o horizonte.

Em 2007, a nova geração de consolas consolidava-se à medida que novos jogos operavam uma evolução por completo. Se a Microsoft, ou melhor, a Epic Games, penetrou no campo dos "third person shooters", com Gears of War, depois do claro sinal dado por Resident Evil 4, a Naughty Dog respondeu com o fulgurante Uncharted: Drake's Fortune, mais orientado para as aventuras, locais misteriosos e um exotismo que rapidamente contagiou a aventura pelos poros. No meio emergiu Nathan Drake como o notável explorador, espírito aventureiro e com uma abissal curiosidade por artefactos, pistas deixadas pelos exploradores antepassados, como se em pleno século XXI, fosse ele mesmo um explorador, disposto a unir essas pontas e a chegar onde mais ninguém tinha conseguido, mesmo que para isso tivesse de pôr a sua pele em risco.

No fundo, Nathan Drake representou a chave do cofre e com ele os jogadores puderam abrir um fascinante périplo mundo fora, enfrentando ameaças, traições, perigos naturais, largos confrontos, sempre no encalço de uma nova pista e de mais uma paragem. O substracto narrativo ganhava pujança. Por momentos, era como se as aventuras de um Indiana Jones e mesmo as façanhas de Lara Croft, fossem coisa de um passado distante, como um mapa calcorreado. A clareza de Uncharted e a extensão das aventuras protagonizadas por Nathan abriram as coordenadas para o tesouro e com elas a Naughty Dog depressa se apercebeu do potencial em mãos e não tardou em responder com dois jogos que levaram ainda mais longe a personagem, aprofundando diversos conceitos como exploração, combate na terceira pessoa, plataformas e puzzles.

Hoje, os fãs e todos os que puderam percorrer as aventuras, expedições e desafios do intrépido Nathan, estão sobretudo com os olhos postos em Uncharted 4: A Thief's End, presumivelmente a derradeira aventura que o tem como protagonista. Mas neste tempo de transição e de expectativa pela nova aventura, é-nos dada a possibilidade de recuperar e quiçá descobrir (se falharam a geração passada) a trilogia, a cargo da equipa Bluepoint. De resto a Bluepoint é bem conhecida dos utilizadores de consolas PlayStation, tendo sido responsável pela God of War Collection, Metal Gear Solid HD Collection, entre outros jogos, maioritariamente da Sony. Com a Naughty Dog concentrada em Uncharted 4, não houve tempo para remasterizar a colecção como fizeram com a versão Last of Us para a PS4.

"revela-se um padrão e fio condutor nas três aventuras, não só na dimensão narrativa mas dentro das mecânicas que a Naughty Dog soube construir meticulosamente"

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Imensos puzzles para resolver em locais misteriosos. A banda sonora ajusta-se perfeitamente.

Dos ambientes extremamente ricos, detalhados, fotorealistas e exóticos da misteriosa ilha perdida no Oceano Pacífico, até ao Nepal, os Himalaias e o deserto Rub'al Khali, revela-se um padrão e fio condutor nas três aventuras, não só na dimensão narrativa mas dentro das mecânicas que a Naughty Dog soube construir meticulosamente, cruzando muito bem a exploração, combate, puzzles e plataformas, de forma altamente fluída, num ritmo verdadeiramente cinematográfico e encorajador do ponto de vista do desafio. Porventura linear e sem prescindir dos tão famosos "quick time events", a Naughty Dog não quis outra coisa que não fosse fazer de cada aventura uma expedição até diferentes territórios e de cada porção de território descoberto e percorrido, uma conquista do jogador, um desafio a vários níveis mas também mais uma revelação em termos narrativos.

Não é por acaso que as personagens ao redor de Nathan e seus parceiros de campanha crescem e ganham importância, como Sully (Victor Sullivan) - uma figura sempre presente - e Elena Fisher, ainda que com menor incidência em Uncharted 3. A sensual Chloe Frazer, também uma exploradora e caçadora de tesouros entra no segundo capítulo da trilogia revelando a sua experiência ainda que com recurso a métodos um pouco menos usuais que os de Nathan. À sua maneira consegue projectar-se neste quadro e reaparece no último episódio. As emoções concentram-se em eventos específicos, particularmente as reviravoltas, revelações e nisso reside grande parte do interesse pela vertente cinematográfica que a Naughty Dog tão bem soube cumprir em Uncharted, servindo quase de preparação para o trabalho verdadeiramente exemplar em The Last of Us.

Ao mesmo tempo verifica-se uma evolução gradual na produção da trilogia. Drake's Fortune é uma fantástica entrada na série e poucos serão os que não conhecem os primeiros passos de Nathan na PS3. Sendo o mais curto dos três jogos em termos de território (a partir de um velho manuscrito de Sir Francis Drake, Nathan parte em busca do tesouro El Dorado numa misteriosa ilha no pacífico), o título original conseguiu surpreender pela qualidade dos conceitos, pondo ênfase nos combates na terceira pessoa e no sistema de cobertura. Escalar paredes, encontrar saliências por onde encontrar uma saída e usar lianas para lançar o corpo até uma plataforma, são alguns dos movimentos disponíveis desde o primeiro instante e que logo contribuíram para uma identidade e autonomia do jogo.

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Quando parecia afastado da caça ao tesouro, Nathan Drake regressa às encruzilhadas.

Em Uncharted 2: Among Thieves, a Naughty Dog fez um desenvolvimento muito substancial do jogo anterior, tendo como resultado uma aventura inesquecível, com bom ritmo e novos momentos e desafios dentro da carga cinematográfica que mereceu toda uma revisão, com destaque para os primeiros momentos do jogo, quando Nathan recupera os sentidos depois de um acidente fatal de comboio, em suspenso numa escarpa montanhosa gelada. A primeira parte do jogo cruza a novidade do ambiente citadino, luminoso e especial de Istambul com a primeira parte de Drake's Fortune, quando Nathan, Sullivan e Chloe Frazer, no encalço de uma pista deixada por Marco Polo, chegam ao Bornéu. À frente, Nathan terá o Nepal pela frente e os Himalaias como uma espécie de desafio superior, antes do périplo final culminar numa batalha marcante.

Novamente com Amy Henning à frente da direcção do jogo, Uncharted 2 supera por completo o original, tanto pela cadência cinematográfica, como pela extensão das áreas sujeitas a exploração, não só diversificadas mas com novas implicações ao nível da jogabilidade. É difícil encontrar um momento menos apetecível ou menos enquadrado nesta nova jornada e, para lá da narrativa, Among Thieves trouxe uma revisão das mecânicas, melhoria substancial da física, mais de puzzles e ligação às personagens. A nível gráfico e fruto de um orçamento maior, a equipa foi capaz de ir ainda mais longe na parte técnica, projectando o jogo na sua componente gráfica.

"Em Uncharted 2: Among Thieves, a Naughty Dog fez um desenvolvimento muito substancial do jogo anterior"

O terceiro e último capítulo da trilogia prossegue o desafio de Among Thieves, atirando o jogador para novos territórios, depois de uma fase inicial que inclui passagens por Londres e Cartagena, desta vez em direcção às temperaturas escaldantes do médio oriente, começando na Síria, seguindo-se o Yémen e a famosa sequência no deserto Rub' al Kahli, em direcção à cidade perdida. Drake's Deception replica igualmente a intensidade de Among Thieves, mostrando Nathan sob novos desafios e com uma componente cinematográfica por vezes mais ousada, com isso expondo mais facilmente a linearidade dos eventos, mas ao mesmo tempo de uma completa imersão quando chamados a premir o gatilho, encontrar uma saída ou resolver mais um puzzle.

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Em pleno deserto Rub'al Khali.

Uma proeza em termos gráficos, Drake's Deception torna-se numa referência da trilogia e uma aventura que muitos poderão querer passar em primeiro lugar, ainda que seja a mais recente (2011). O jogo oferece mais variedade em termos de animações, movimentos e abundam contextos de especial grandiosidade, como a infiltração no aeroporto, posterior descolagem a bordo de um avião e queda forçada do mesmo, em pleno deserto. O jogo consegue oferecer momentos de irrecusável apelo e não faltam os riscos proveniente do deserto e de como o ambiente hostil e adverso influencia o desempenho de Nathan, deixando-o mais vulnerável e à beira da exaustão. A personagem recebeu uma melhoria em termos de design, sem esquecer a indumentária. Em quatro anos, a Naughty Dog conseguiu desenvolver Uncharted e transformá-la numa das séries com melhor aproveitamento na PS3 bem como da sua geração. Em termos gráficos, ainda hoje é um jogo fortíssimo, e à resolução de 1080p e 60 frames imprimida pela Bluepoint, confirma-se a sua qualidade.

Neste arranjo e tratamento gráfico levado a cabo pela Bluepoint, Drake's Fortune é, por ser o primeiro e mais antigo, o jogo que nos faz sentir a passagem do tempo (leva quase oito anos). Ainda que tenha recebido uma melhoria da iluminação, texturas, detalhes e um aperfeiçoamento do design das personagens, quanto à jogabilidade não é tão preciso ou fluído. Não existem tantas animações da personagem e isso reflecte-se um pouco no esquema de controlo, ligeiramente "escorregadio". Já em Uncharted 2 e 3 estas melhorias, especialmente ao nível das partículas, distância do horizonte e melhoria de sombras, são um pouco mais perceptíveis. A resolução a 1080p e os 60 fotogramas por segundo trazem sempre mais fluidez, ainda que o desempenho das versões originais não seja inferior, mas de um modo geral parece existir mais estabilidade.

Uma das preocupações da Bluepoint nesta remasterização passou pela unificação da experiência, de modo a que a jogabilidade seja o mais similar possível entre as três aventuras. Por exemplo, a granada de baseball de Uncharted 2 e 3 passou para Drake's Fortune, o sistema de pontaria e reposta das armas passou a ser o mesmo para os três jogos. Por outro lado, a dificuldade em modo "crushing" passou a estar disponível desde o início do jogo. Neste caso isso deve-se à introdução de um novo nível de dificuldade, apontado para os jogadores mais exigentes e que dará origem a uma experiência algo diferente. A dificuldade brutal só fica disponível depois de concluírem o jogo na dificuldade "crushing" no respectivo jogo, ou seja, não desbloqueia a mesma dificuldade para os outros jogos.

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Movimentos arriscados. A componente cinematográfica é crucial e muitos dos quick time events acontecem justamente em momentos como este.

"interessante é a opção "speed run", que nos deixa jogar qualquer uma das três aventuras em modo contra relógio"

O modo explorador é indicado para os mais novos e para quem não quer ter qualquer desafio pela frente. Os inimigos são quase manteiga e não há dificuldade em prosseguir, sempre com uma dica por perto caso haja algum puzzle para resolver. O modo fotografia permite captar qualquer instante protagonizado por Nathan. Não é uma novidade nestas remasterizações e o editor é bastante similar ao da versão The Last of Us remasterizada. De resto não é possível tirar fotografias durante as cinematográficas.

Mais interessante é a opção "speed run", que nos deixa jogar qualquer uma das três aventuras em modo contra relógio, através de um contador que marca o tempo total gasto e o tempo gasto no capítulo. É curiosa a opção que nos fornece indicações sobre o progresso realizado pelos nossos amigos, fornecendo constantemente dados como tiros na cabeça, mortes por explosão, etc. Quanto aos troféus, foram adicionados novos assim como foram ajustados os troféus existentes. Dentro das recompensas o modo render deixa-nos desbloquear mais de 80 skins, como bónus, podendo jogar na pele de alguma personagem que tenhamos visto ou interagido como Elena e Sully. A banda sonora foi melhorada, agora com som surround 7.1.

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Neutralizada a tentativa de fuga num museu em Istambul.

Infelizmente, toda a componente multiplayer e cooperativa ficou de fora da trilogia. Trata-se de uma opção que deixa de fora um conteúdo relativamente extenso e que juntou muitos fãs da trilogia em acesos combates na PS3. É verdade que Uncharted sempre se notabilizou diante dos fãs pelas campanhas, e toda a história à volta de Nathan é a grande empreitada da série, podendo haver quem não tenha perdido muito tempo com o online. E com uma trilogia completa, haverá muito mesmo para explorar.

Uncharted: the Nathan Drake Collection constitui um esforço especial da Sony e da Bluepoint ao proporcionar aos utilizadores de uma PS4 uma colecção que lhes permitirá explorar ou revisitar momentos marcantes e únicos de uma série singular, quando Uncharted 4: a Thief's End vai ficando mais próximo. Um dos aliciantes desta colecção é o acesso à beta multijogador de Uncharted 4, mas o selo de recomendado deve-se mesmo à quantidade e qualidade dos conteúdos, especialmente se falharam alguma das anteriores aventuras. Três jogos marcantes e três inesquecíveis périplos mundiais e, sobretudo, a história quase completa de um intrépido e fulgurante explorador.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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