NieR: Replicant - review - clássico de culto

Requintada obra recebe uma merecida dose de polimento e melhorias.

Apesar de NieR: Automata ter popularizado o excêntrico génio de Yoko Taro, em grande parte devido ao pedigree da PlatinumGames para apresentar um sistema de combate com ação eletrizante e viciante, o primeiro NieR jamais desapareceu da memória de quem o jogou. É um jogo de elevado requinte, totalmente inesperado e capaz de te apaixonar de forma surpreendente. Acarinhado como um clássico de culto que persistiu ao longo da década pelo passa a palavra (obrigado Sandro por me teres emprestado o jogo, jamais te poderei pagar por isso), NieR não tinha de forma alguma o direito a alcançar este estatuto, tais são as suas fraquezas e debilidades. No entanto, o bom e o irreverente, sem esquecer a força da sua narrativa e os socos com os quais te agride, triunfam perante a humilde produção da Cavia, na qual Taro teve total liberdade para expressar os seus devaneios filosóficos e existenciais.

Automata é um jogo brutal, apaixonante, que desperta em nós emoções que jamais esperaríamos sentir a jogar um jogo, os diversos finais, a forma como trata os personagens, o desolador teor existencial da narrativa e os constantes devaneios sobre o significado do que é ser humano são temáticas adultas e até inesperadas num videojogo. Em conjunto com um sistema de ação de grande qualidade, é fácil perceber o porquê de Automata ser tão elogiado, mas ao mesmo tempo os fãs do original sabem que muito do ADN da sequela foi herdado do original. As inesperadas e arrojadas transições de câmara em momentos de grande impacto na adrenalina que sentes ao jogar, a banda sonora maravilhosa, as temáticas narrativas capazes de te deixar a questionar a tua existência e se até queres continuar a jogar, os momentos em que Taro transforma o jogo com mecânicas que mais parecem de outros géneros de jogo e até a sensação de constante desespero estavam todas presentes no original de 2010. Automata elevou a fórmula NieR, mas o original já evidenciava esses desejos.

Graças a Automata, a Square Enix sentiu-se motivada a dar uma nova oportunidade ao original e a resposta aos pedidos dos fãs por um remaster HD é NieR Replicant ver.1.22474487139..., descrito como uma coisa qualquer, não fosse este um projeto de Yoko Taro. Com elementos que parecem dignos de um remake (sistema de combate e visuais, por exemplo) com outros que mais parecem enquadrados com um remaster (design e estrutura, por exemplo), NieR Replicant é simplesmente uma bênção dos céus e o reconhecimento merecido de um dos jogos de maior impacto na minha vida. NieR é um daqueles jogos que dignifica a indústria dos videojogos e serve constantes alfinetadas à tua curiosidade e ego.

"O sistema de combate foi totalmente renovado e juntamente com os 60fps, torna a experiência muito mais eletrizante."

A inquietante consciencialização da brevidade do existir

Com a ajuda da PlatinumGames, a humilde Toylogic foi recrutada pela Square Enix para ajudar Yoko Taro e Yosuke Saito a darem nova vida a NieR Replicant e o objetivo foi cumprido quase em pleno. Esta nova versão, que substitui o pai pelo irmão de Yonah, a jovem no centro de toda esta desesperante trama que é uma espécie de corrida contra o tempo, mas que curiosamente está repleta de momentos escusados que prolongam o tempo que a demoras a terminar, inclui gráficos atualizados, performance a 60fps e o melhor de tudo, um novo sistema de combate que o aproxima do sensacional Automata e totalmente enquadrado com a atualidade, em termos de jogos de ação. NieR Replicant é um combinar quase perfeito entre o legado e a atualidade.

Taro decidiu abordar temáticas como a mortalidade e o propósito da existência de cada indivíduo em simultâneo com a realização que alguns nascem com um propósito superior enquanto outros vivem como uma mera nota de rodapé. Para aproximar ainda mais o jogo do limiar do desespero, Taro parece ainda brincar com o conceito da inevitabilidade, que a humanidade está condenada à autodestruição, transportando-te para um futuro pós-apocalíptico em que a tecnologia e a humidade regrediu para a era medieval. No entanto, existe magia neste mundo e criaturas que aterrorizam os humanos. Mas o pior é mesmo a doença Black Scrawl, incurável e envolta em diversos mitos. Yonah, a irmã do protagonista em Replicant (filha no NieR original), sofre com esta doença e a tua jornada começa passo a passo a direcionar-se para a tentativa de encontrar uma cura.

NieR é absolutamente visceral narrativamente e trata de forma horrível a grande maioria das personagens. Rico em momentos que facilmente entristecem o mais rijo dos corações e com a capacidade para alternar entre o mundano (levar uma carta à idosa no farol) com o surreal e mágico (Weiss é um livro flutuante e falante que poderá ser a chave para salvar Yonah e o mundo se recuperarmos todo o seu poder). O protagonista vai percorrer os diversos locais à volta da sua aldeia e enquanto ajuda outros em apuros, também enfrentará bosses surreais. Em diversos momentos, quase parece que Taro tinha uma novela escrita para apresentar e optou por explanar a sua profunda análise ao ser humano através do mais inesperado dos jogos.

Refinamentos Automata

Na atualização de um jogo humilde no seu aspeto técnico, sem esquecer os problemas de performance, câmara e estrutura repleta de loadings, a Square Enix e a Toylogic contaram com o apoio de Takahisa Taura, game designer em Automata, pelo lado da PlatinumGames, para refinar o sistema de combates de uma forma que eleva o prazer que sentes ao jogar este Replicant. A performance a 60fps e o sistema de combate muito mais fluído, dinâmico, rápido a reagir ao pressionar dos botões (apesar de sentir um ligeiro delay em ações como saltos), elevam para um novo patamar de qualidade um dos aspetos mais importantes de NieR Replicant. Se no original o sistema de combate era tolerável, aqui é frenético e divertido. Tens diversos combos a executar, velozes e acrobáticos, podes efetuar um rápido cancel a meio do combo para te posicionar nas costas dos adversários e até podes desviar-te com maior agilidade. O prazer que retiras do renovado sistema de combate é muito superior ao que encontras no original e isso faz um mundo de diferença.

Apesar de não ser totalmente satisfatória, o sistema de câmara foi melhorado, apesar de ainda estar repleto de falhas e ocasionalmente dar uma sensação estranha ao movimentá-la, enquanto lutar e escutar os diálogos de Kaine ou Weiss continuam a patrocinar momentos sensacionais. Os visuais também foram muito melhorados e por vezes tens quase a sensação de um remake, apesar de ainda permanecer um jogo de aspeto humilde para os padrões atuais. No entanto, combinar a experiência nuclear de Nier com os visuais atualizados, 60fps e novo sistema de combate é de levar qualquer um ao êxtase.

"A narrativa, banda sonora e personagens fazem de NieR um jogo verdadeiramente especial."

Pena mesmo que a estrutura não tenha sido ajustada para permitir menos loadings. Apesar da Xbox Series X efetuar a grande maioria dos loadings em 3 segundos, a constante presença de loadings é um doloroso relembrar que estás perante um jogo com mais de 10 anos. Teria sido sensacional remodelar o design para reduzir alguns loadings, mas isso não acontece. Em alguns momentos, como o personagem agora é tão veloz a correr pelos cenários (o que ajuda imenso no ritmo do gameplay), completarás sidequest ou fetch quests que se intrometem nas de narrativa com tanta velocidade que enfrentarás sucessivos loadings que se vão acumulando e cada um corta o ritmo de jogo.

O original é alimento para a alma, este Replicant acrescenta-lhe estilo e substância

Após o memorável NieR original, a oportunidade de revistar o clássico de culto numa versão imensamente superior e atualizada com NieR Replicant ver.1.22474487139... foi simplesmente espetacular. Ainda existem alguns problemas herdados do original, como a câmara e o pacing inicial, mas a narrativa desafia-te, os personagens apaixonam-te, enquanto o mundo é melancólica poesia em estado que merece ser preservado e emoldurado. Sim, o gameplay ainda tem momentos irritantes e há qualquer coisa com o movimento da câmara que não me agrada por completo, mas poder mergulhar mais uma vez na insana mente de Yoko Taro foi um incrível prazer. Humilde, mas incrivelmente arrojado.

Prós: Contras:
  • Melhorias visuais e performance a 60fps
  • O novo sistema de combate torna-o infindavelmente mais gratificante e divertido
  • Novas remisturas de incrível qualidade de uma banda sonora inesquecível
  • Personagens excêntricas e uma narrativa adulta
  • Secções gameplay variadas e inesperadas que te surpreendem constantemente
  • Constante sensação que estás a ser surpreendido pela narrativa e locais
  • Loadings extremamente rápidos (jogámos numa Xbox Series X)
  • O design e estrutura poderá causar alguns aborrecimentos
  • Aqueles momentos sem aparente propósito continuam a aborrecer
  • A câmara continua irritante em algumas secções
  • Visualmente fica a sensação que podia ter sido feito mais (pop-in na Xbox Series X?)

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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