Quando comprei a minha PlayStation original

Alguém se lembra do furor do Natal de 1997?

Apesar de ter sido lançada originalmente na Europa a 29 de Setembro de 1995, data que pretendemos comemorar com outros artigos, a primeira PlayStation, o tal fruto do génio de Ken Kutaragi, apenas me chegou às mãos em finais de 1997, passados três anos do lançamento. Para um puto de 14 anos, a entrada de rompante da Sony na indústria dos videojogos causou muito impacto. Aquela sensação de estilo e irreverência não existia em qualquer uma outra marca rival e o primeiro passo para tornar os videojogos em algo maior do que até então era começava a ser dado. Até essa altura os videojogos eram algo extra-terrestre, algo abusivo para a mente das crianças que deviam pensar em andar de bicicleta, jogar à bola na rua ou simplesmente jogar às escondidas ali ao lado de casa. Ao contrário de hoje, não existia nada desta socialização virtual, os amigos eram reais e a rede social era de carne e osso, o "like" era um aperto de mão. Em certa forma até era mais avançada aquela rede social pois tinha botão de "dislike", na forma de um''tás maluco pá?'.

Habituado a jogar nas consolas da Sega, assistir em casa de amigos durante 3 anos a jogos como Tekken, Crash Bandicoot, Real Bout Fatal Fury ou WipEout 2097 deixava mesmo aquela sensação que a vida não poderia continuar sem termos uma PlayStation. Na altura este tipo de produtos eram ainda mais caros é coisa de loucos, mesmo sem estarmos em aparente crise financeira, simplesmente era coisa na qual nem qualquer mãe ou pai estava muito agradada em gastar dinheiro. Depois de esperar, depois de muitas sessões de Porsche Challenge ou Samurai Warriors com amigos, eis que finalmente chegava esse mágico Novembro de 1997. Mágico porque foi nessa altura em que um adolescente não mais poderia negar a chamada de jogos como Tekken 2, Tomb Raider II e claro, esse mágico portento que dá pelo nome de Final Fantasy VII.

Agora existe o YouTube, temos o Facebook e toda a facilidade de comunicações ou imediatismo da Internet. Em 2015 já todos sabemos quem é Lunafreya, em 1997 ninguém sabia quem era aquela estranha Aerith Gainsborough, muito menos quem era aquela misteriosa, mas cativante, figura no meio das chamas que virando as costas à câmara deixava um olhar mais hipnotizante que as bruxuleantes labaredas do fogo. Sim, tínhamos que esperar meses para descobrir que se chamava Sephiroth, seria preciso esperar pela chegada do jogo para saber o nome da maioria dos personagens, conhecer a história e quem saberia que podiam perder Vincent, sem falar em Yuffie mas já me estou a adiantar.

"Descobrir Midgard, até o nome, a Shinra, os membros da Avalanche e tudo o mais foi ponto de viragem."

Aqui para os lados de Vila Nova de Gaia, a ideia para um adolescente de 14 anos era a de que não havia nada, um deserto de locais para visitar. O Porto era o destino, o centro de tudo e na zona da Boavista parecia estar uma espécie de zona encantada onde as coisas pareciam mais avançadas, onde os videojogos eram mais do que um sussurro. Portugal ainda é um pouco aquele país que de uma forma generalizada nos pode dar um 'estás a jogar Gameboy?' a quem vai com uma Vita na mão ou então de um 'só queres PlayStation!' a quem está com um comando Xbox One na mão, mas na altura esse fenómeno ainda não tinha acontecido. A palavra PlayStation ainda não estava enraizada na cultura popular.

Depois de vários meses a ler a MegaScore, lá fui eu decidido a ser fixe, a deixar de ser um parolo dos tempos antigos para me tornar num convertido ao factor cool que a PlayStation trouxe para a indústria dos videojogos. Em Novembro de 1997 a primeira consola PlayStation estava a conquistar um catálogo muito agradável, enquanto máquina de exclusivos 3D (ai se eu vos falasse de como o 3D espantou o mundo em 1997) e como casa de sucessos arcada. Parecia o melhor dos dois mundos e acreditem que ter em casa a consola que me permitia jogar X-Men vs. Street Fighter parecia coisa de sonho. No entanto, eram as novidades que davam a volta à cabeça do mundo. A segunda aventura da menina Croft era exclusiva PS nas consolas e o misterioso Final Fantasy VII ainda estava quentinho.

Passei semanas a fio a delinear estratégias sobre como abordar o tema, 'qual é o jogo que realmente queres e que vá durar mais tempo para poupares a carteira à tua querida mãe?' Também temos outros elementos a ter em conta como o emprestar para depois me emprestarem outros, se o jogo seria do interesse dos amigos, coisas assim que podem até ainda existir nos dias de hoje enquanto factor de compra. Quem se arriscaria a pensar no conceito de um Xbox Live ou de uma PlayStation Network? Como referi, aqui nestes lados o paraíso estava ali pelos lados do Porto, mais pela zona da rotunda da Boavista onde até começavam a existir casas de venda de usados. Mas não era com duas tretas que se ia para lá ou se vendiam jogos. Nada como agora para o bem e para o mal.

Isto para dizer que chegada à hora de comprar um jogo até a capa podia ser um factor decisivo. Para meu espanto, depois de todos aqueles momentos fantásticos do Templo Dos Jogos, deparo-me com aquela capa nada fascinante para um adolescente, nada daquele 'uau' como Hollywood sabe fazer e que vende o mais rasca dos filmes só pela capa ou pelo trailer! Lara Croft ali ao lado a olhar para mim, Heihachi ali a provocar-me como quem dizia 'já sabes o que levas daqui' e eu a teimar em arriscar com um jogo num estilo desconhecido amedrontado pela capa. Sem capacidade para reconhecer o insulto que gravemente tecia a Yoshitaka Amano, mestre que bem conhecemos, lá me decidi a respeitar o instinto de seguir com Final Fantasy VII.

Jamais esqueço aquele momento, aquela jornada e apesar de já ter jogado muita coisa na minha vida, jamais consegui encontrar momento que rivalize com aquele deslumbrante encanto de chegar a casa e colocar Final Fantasy VII a correr na PlayStation. Cada jogador tem o seu momento em que surge aquele sentimento, aquele impacto, que o deixa agarrado a esta indústria e para mim foi este, foi quando acreditei que isto iria crescer de tal forma que simplesmente não poderia deixar de acompanhar. Afinal de contas se este era assim como seria o VIII? Talvez por isso sinta este imenso respeito à casa PlayStation, este fascínio pela sua maneira de estar e sentir que sou um filho da geração PlayStation.

A primeira vez que encontrei Aerith, ver a sua morte, conhecer Cloud, ver aquele vaivém a partir numa gloriosa FMV, conhecer aquele sistema de combate e ficar agarrado de tal forma que parecia quase obsessão. Não posso esquecer de forma alguma a cruel lição de chegar a casa e mais tarde descobrir que pela primeira vez teria que comprar um acessório bem caro para gravar os jogos. Quantas vezes vi Cloud a descer daquele comboio e armar-se em importante com Barreth até conseguir finalmente escapar de Midgard. Está tudo aqui ainda presente, gravado na minha mente com toda a ternura e conforto de uma chávena de chocolate quente que aquece a alma a quem olha a chuva pela janela numa fria tarde de Inverno.

"Algum do humor apresentado, Cloud travesti e outros momentos, pode não ser recriado da mesma forma no remake mas na altura foi qualquer coisa...estranha"

Agora que a primeira consola PlayStation assinala 20 anos desde que chegou a Portugal, quando começamos a ver o que era Ridge Racer e que apenas existiam um ou dois meios de comunicação para os videojogos, relembro com incrível gosto como foram construídos os meus alicerces enquanto jogador. A PlayStation era diferente, a PlayStation era fixe, era futurista e altamente poderosa, era assim que íamos dizendo uns aos outros na escola. Especialmente espectacular quando meses depois fui correr comprar a Director's Cut de Resident Evil para jogar a gloriosa demonstração de Resident Evil 2. Aí o falatório que não era no recreio! Sim, já na altura se pagava para jogar demonstrações, pelo menos nos jogos Japoneses.

É inevitável e inegável a marca que a PlayStation deixou nesta indústria e apesar de agora ser muito mais difícil qual consola escolher, na altura parecia certo e absoluto: só a consola da Sony te poderia oferecer o poder capaz de alcançar o futuro. Pelo menos foi o que disse a mim mesmo quando fui comprar uma, numa altura em que a Nintendo ia espantando o mundo com as suas produções mas que exclusivos de peso garantiam lugar singular a esta consola cinzenta que nos espantava com uma sensação de estilo. Poderia falar de muitos bons momentos mas prefiro focar-me nessa combinação para a qual jamais viria a encontrar rival, a compra de uma consola PlayStation com o jogo Final Fantasy VII na semana do seu lançamento.

São daqueles momentos que ficam para a nossa história pessoal e vendo como me diverti e instrui tanto naquela máquina na arte dos combos e estratégias, acredito que seja natural o fascínio e respeito que sinto por esta marca. Mesmo com tanta burrice e estupidez pelo caminho, ainda hoje enverga a essência capaz de apaixonar e mover as pessoas. A companhia que de consola para consola deita fora propriedades intelectuais que venderam milhões, é uma companhia que aposta em manter estilo e irreverência nos videojogos com novas propriedades intelectuais e jogos de grande qualidade.

Não foi bem há 20 anos mas agora que comemoramos essa data, não paro de pensar nesse momento em que aquele "P" e aquele "S" invadiram a minha vida para me mostrar um outro lado dos videojogos. Com Final Fantasy VII as coisas ficaram mais sérias, foi quando me dediquei verdadeiramente a um videojogo e este foi mais além do que um mero produto de entretenimento. A pesquisa por mais informações sobre os criadores, sobre a Squaresoft (na altura ainda longe de pensar numa parceria com a rival Enix), sobre produtos similares, até a procura por mais conforto na cruel resolução final (Aerith foi a primeira experiência em bruto de como a mortalidade pode causar impacto nos videojogos além do óbvio) fez despertar em mim toda esta fome por videojogos.

A celebração deste marco nesta indústria é ao mesmo tempo uma celebração para todos nós e aqui neste artigo, celebro aquele dia que jamais esquecerei convosco para que, se em algum momento vacilar nesta minha paixão, me lembrar de como um jogo e uma consola mudaram a minha vida.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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