The Order: 1886 é um dos mais aguardados lançamentos PlayStation 4 de 2015 e está mesmo a chegar, dia 20 de Fevereiro. Sendo um dos exclusivos para a mais recente consola da Sony, é perfeitamente compreensível que esteja a despertar imensa curiosidade entre os adeptos desta indústria, mas e quanto a toda esta nova controvérsia? Porque será que de um momento para o outro, quase de uma forma furtiva se gerou pela internet fora uma imensa atenção e discussão sobre a longevidade do novo produto do Ready at Dawn? Raramente se ouviu prestar tanta atenção e insistência à longevidade de um produto e de uma forma quase cruel, The Order 1886 está já a ser alvo de intenso escrutínio, ainda antes de ter sequer chegado às mãos dos jogadores.

A verdade é que tudo o que é exclusivo, independente da sua qualidade, é levado a uma atenção extrema e analisado até à exaustão. É perfeitamente normal, afinal de contas são os argumentos de defesa que um advogado poderia usar na barra de tribunal para mostrar que uma máquina tem mais interesse que a outra. No entanto, The Order 1886 é um produto muito particular que rompe com muitas tradições mas ainda assim cumpre com outras. Por um lado é um jogo que aposta muito na sua componente visual, algo que deixa os mais interessados com receios que seja "mais um Crysis" (jogo com forte grafismo mas com gameplay e estrutura que não acompanham) mas por outro é um jogo que não acompanha a moda e deixa de lado modos multi-jogador. O que temos em perspectiva, é um jogo de acção na terceira pessoa com forte tom cinematográfico que combina elementos de ficção científica num ambiente histórico.

Enquanto ia pensando se seria normal da minha parte estar a focar-me tanto nesta temática, deparei com este artigo de Matt Martin do VG247 que debate sobre esse mesmo conceito que: The Order: 1886 contraria a evolução do valor dos videojogos. A ideia de pagar 69,99€ por um produto que pode, potencialmente, ser terminado em menos de 6 horas e que não terá mais nada para me dar deixa qualquer um a pensar, acredito eu. Se olharmos para o passado recente, Metal Gear Solid V: Ground Zeroes, a controvérsia não se focou na qualidade do produto em si mas antes na longevidade que temos do mesmo: o conceito que quanto mais tempo o jogo faz para passarmos com ele, mais valorizado fica o nosso investimento. Ainda assim, Ground Zeroes partiu com um preço de 39,99€, considerado elevado para a longevidade.

"A qualidade tornou-se relativa pois o tempo que passamos em torno do jogo parece ser mais importante que o resto."

A qualidade tornou-se relativa pois o tempo que passamos em torno do jogo parece ser mais importante que o resto. Enquanto muitos discutem que outros meios de entretenimento custam mais e duram menos (uma ida a um jogo de futebol, por exemplo) estamos perante uma tendência que há muito foi praticamente abandonada. "A era em que era cobrado preço completo por algo polido e bonito já passou há muito," diz Martin no seu artigo. Enquanto acredito que o que interessa é a jornada em si e não o final, sou cada vez mais defensor que um jogo deve premiar quem o compra com conteúdo válido e de qualidade, quanto mais tempo passar a, por mérito próprio, convidar e aliciar o jogador a manter-se nesse mundo, melhor é o seu valor.

No entanto, quase num misto de previsível e inacreditável, muitos jogadores parecem estar a esquecer-se de se respeitarem a si próprios e defendem que são os próprios que devem respeitar o jogo e encontrar motivos para prolongarem a longevidade e aumentar a sua qualidade. Pessoalmente não acredito que um jogador deva fazer um esforço para encontrar motivos para se manter a jogar um produto, ou a ser mais lento ou a explorar mais, um jogo deve ser jogado tal como foi concebido para ser (sem ser deturpado para não quebrar a imersão mas também não sendo tratado como uma peça frágil que pode quebrar a qualquer momento). Se estamos a criar desculpas para respeitar o jogo é porque este não merece o nosso respeito. Tem que se fazer respeitar.

A ideia do valor de um videojogo mudou, uma campanha poderá ser pequena e até menos bem concebida se tiver outras componentes que o possam sustentar. Um equilíbrio estabelecido pela soma das partes. Assim se explica como Call of Duty tem mantido a sua popularidade ao longo dos anos apesar das suas campanhas curtas. Os jogadores sabem que vão ter muito jogo pela frente. Michael Pachter declara mesmo que o jogo poderá chegar aos 12 milhões, sendo até oferecido em pacotes com a consola e vendido a 40€ no final do ano. Isto vai ao encontro de uma tendência cada vez mais forte: ao contrário dos exclusivos Nintendo e AAA de companhias como Ubisoft ou Activision, alguns exemplos, os exclusivos Sony estão a baixa de preço cada vez mais rápido e isso em si já é uma desvalorização perigosa ao qual as potenciais fragilidades de The Order vão acrescentar.

O estúdio declara que a longevidade depende da nossa habilidade, remetendo para diversos tipos de experiências. Enquanto exclusivo AAA da Sony, acredito que seja a plataforma de lançamento para uma nova série nas consolas PlayStation mas The Order 1886 poderá ter-se tornado em algo muito maior do que ele próprio, algo que nem sequer estava à espera. Isto porque oferece um modelo que há muito se acreditava ter desaparecido.

Por outro lado, esta controvérsia toda parece indicar que estamos perante consumidores mais conscientes que se preocupam com algo além da componente visual. A percepção do valor estabelecido na hora em que o consumidor troca os seus preciosos € por um videojogo é agora diferente, mais sério e mais ponderado. Será que é válido continuar a recorrer a um preço pré-estabelecido para todos os produtos? Será que é assim tão justo usar a desculpa que um acerto no preço é denegrir antecipadamente a qualidade do mesmo? Será que não está na hora de haver mais claridade com os consumidores?

É normal que um AAA exclusivo numa consola que chegou às 20 milhões de unidades vendidas em todo o mundo dê que falar, agora tudo depende dos motivos. Temos muitos jogos que oferecem imensa qualidade artística e não só, Okami será sempre um eterno exemplo ao lado de outros como Shenmue, mas que não tiveram a digna representação nas vendas. The Order 1886 tem toda a máquina de marketing da Sony a trabalhar atrás de si e assim se justifica esta atenção mediática, mas poderá ser um bom indicador para perceber como o mercado mudou.

Como referi, acredito que a resposta dos consumidores a produtos como Ground Zeroes mostrou que a longevidade é agora um dos maiores valores na apreciação da qualidade de um videojogo. Mesmo que faça o mesmo vezes sem conta, a forma como o jogo nos pede para o fazer sem nos aborrecer ou o simples facto de ter algo para repetir é cada vez mais importante. Será que a longevidade de The Order 1886 é algo que está a ser exageradamente escrutinado ou será que existe toda a validade em questionar incessantemente, pedindo transparência, quanto ao porque é que terei que dar 69,99€ e andar com paninhos quentes para que não termine em 7 horas?

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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