Déraciné é um título confuso, muito confuso. Mas não da forma que estás a pensar. É que apesar de ser um jogo da From Software, em pouco se parece com aquilo que a companhia lançou nos últimos anos, nomeadamente Dark Souls e Bloodborne.

Ainda assim, é inegável o toque do estúdio em todos os outros aspectos do jogo. Sim, é verdade que não existem bosses assustadores e difíceis de derrotar, nem vais morrer 760 vezes durante todo o jogo; mas desde a música, à atmosfera do jogo, às personagens, à narrativa, o misticismo, é claro que o ADN que fez com que este fosse um dos estúdio mais aclamados da actualidade está bem presente em Déraciné, mesmo tratando-se de um título para a realidade virtual.

É impossível não ficares encantado com este jogo, algo que acontecerá a partir do momento em que entrares nos corredores e salas do colégio interno onde decorre a maior parte do jogo. Ao contrário de Dark Souls e Bloodborne - uma comparação difícil de não fazer - Déraciné possui um ênfase maior na narrativa e terás uma série de personagens e itens com os quais poderás interagir.

Ao contrário de Dark Souls e Bloodborne, Déraciné possui um ênfase maior na narrativa

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Até porque há um pequeno detalhe que me falta revelar com uma importância crucial: neste título, jogas como um espírito. Exactamente. Deambulas pelas diversas áreas do jogo a realizar pequenas tarefas para as diversas personagens que, a pouco e pouco, se vão apercebendo da tua presença, acolhendo-te de uma forma estranhamente enternecedora.

Estas tarefas vão ficando progressivamente mais complexas e, seguindo novamente a tradição dos jogos prévios da produtora, serás obrigado a coscuvilhar cada recanto deste mundo para descobrires todos os tipos de informações e objectos, incluindo as próprias personagens: estas podem estar a transportar algum item importante - como um bilhete, uma bengala ou uma chave - que poderá ser essencial para um momento posterior. Numa instância específica do jogo, demorei uma ETERNIDADE a descobrir uma chave que estava bem escondida na mão de uma das personagens e senti-me verdadeiro estúpido quando, por fim, a detectei.

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Como não podia deixar de ser, existe um componente sobrenatural em Déraciné que torna evidente a mão da From Software no jogo. Para além de seres um espírito - que, já por si, é extremamente perturbante - tens ainda a possibilidade de viajar no tempo usando um relógio na tua mão esquerda e de retirar/conferir vida usando um anel da tua mão direita. São duas mecânicas que vais usar por toda a duração do jogo, com especial ênfase para as viagens no tempo, que tornam a história verdadeiramente complexa. Quase como se a mesma tivesse saído do cérebro do Christopher Nolan.

Sem querer revelar os maiores momentos da narrativa, irás passar uma grande parte do teu tempo em Déraciné a tirar horas de vida às personagens para conseguires regressar ao passado e, deste modo, alterar o presente. Felizmente, existe sempre algo interessante a acontecer para te manter investido e à medida que fores progredindo em Déraciné, vais ver a narrativa a tornar-se cada vez mais negra - envolvendo inclusive espíritos malignos - e com reviravoltas que poderão surpreender-te.

Claro está, o jogo é mais linear do que a minha citação anterior pode dar a entender. Não existem propriamente caminhos alternativos, sendo apenas questão de prestares atenção às dicas que te são dadas e tudo aquilo que as personagens vão dizendo.

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Graficamente, o jogo deixou-me altamente dividido

Graficamente, o jogo deixou-me altamente dividido: por um lado, tens as áreas interiores da mansão, ricamente decoradas e cheias de pequenos detalhes que dão vida ao jogo e uma áurea ligeiramente assustadora. Mas os locais exteriores, nomeadamente as áreas exteriores do colégio que contêm árvores, jardins e recursos de água, encontram-se na outra ponta do espectro, parecendo quase como que pixelizadas. Será limitação do hardware na renderização de certos objectos? Até porque, em fases posteriores da história, poderás sair do colégio e explorar uma área montanhosa coberta de neve e, aí, a beleza do jogo continua intacta. Esses são os únicos pontos negativos numa apresentação verdadeiramente espectacular - provavelmente uma das melhores que já vi num jogo VR.

Para além disso, vale também a pena salientar os modelos extraordinariamente bem detalhados das personagens mas também a banda sonora do jogo, um campo onde a From Software raramente desilude.

Uma outra falha que posso apontar ao jogo é o seu final. Quando pensava que a narrativa ia dar uma valente reviravolta, o jogo termina abruptamente e sou enviado imediatamente para a secção do tutorial. Inicialmente, pensei que era alguma brincadeira da produtora, com o intuito de quebrar a quarta barreira: no entanto, rapidamente apercebi-me que estava de regresso ao início do jogo, sem sequer ter assistido aos créditos finais. Foi algo que me deixou particularmente confuso - partindo do princípio que fiz tudo bem e que não se tratava de nenhum bug.

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Déraciné não é um jogo assustador - e ainda menos difícil

Como já podes deduzir, Déraciné não é um jogo assustador - e ainda menos difícil. Tem uma atmosfera ligeiramente surreal, é verdade, mas até mesmo Dark Souls e Bloodborne conseguem ser mais aterrorizantes e desafiantes. E uma vez que é impossível morreres em Déraciné, podes contar em acabar com o jogo dentro de algumas horas. Como tenho vindo a dizer ao longo desta análise, a narrativa é relativamente linear e os "puzzles" não são propriamente difíceis, apesar de poder ser um pouco cansativo descobrir a solução.

Dito isto, Déraciné é um título para VR muito diferente de qualquer outro jogo que experimentei na tecnologia. Vou ainda mais além e afirmo categoricamente que é um dos melhores jogos para a realidade virtual neste preciso momento. Apesar de ser um jogo maioritariamente estático, o mesmo aproveita em grande a tecnologia e é verdadeiramente perturbante veres as personagens à tua frente, a olharem e a falarem para ti. Houve um momento específico no jogo em que fui "atravessado" pelo espírito maligno que referi anteriormente e senti um valente arrepio nas costas e pele de galinha nos braços. E, felizmente, a técnica de locomoção aplicada a Déraciné ajudou a minimizar os meus enjoos: para te deslocares, só tens de te teletransportar para lugares já pré-determinados pelo jogo, mais ou menos como funciona em Dishonored com a habilidade Blink. Pode ser um pouco estranho percorrer um corredor inteiro assim, aos "saltinhos" mas, pela diminuição dos enjoos do VR, qualquer mecânica é bem-vinda!

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Déraciné é um dos melhores jogos para a realidade virtual neste preciso momento

Portanto, se gostas de jogos conduzidos pela narrativa e com pouca - ou quase nenhuma - acção, Deráciné será uma boa opção. É bom que saibas que o jogo está completamente localizado em português, o que pode ser uma vantagem para quem tem dificuldades com outras línguas. No entanto, é obrigatório o uso de dois Playstation Move, o que pode tornar Déraciné inacessível para muita gente que tem apenas o Dualshock normal. De qualquer das formas, se queres uma experiência calma e ligeiramente assustadora, este título poderá ser uma boa opção; se procuras um jogo como Dark Souls ou Bloodborne, estás mesmo no sítio errado.

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Sobre o Autor

Jorge Salgado

Jorge Salgado

Redactor

Fã de cultura pop, séries jogos animes. É o nosso noobie.

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