NiOh - Análise

A Team Ninja no seu melhor.

A chegada de Nioh é um dos momentos mais fantásticos deste início de ano por várias razões. Por um lado temos um projecto de Kou Shibusawa da Koei Tecmo que começou em 2005 e sofreu várias alterações ao longo dos anos, e que já poucos acreditavam que iria ser lançado. Para grande surpresa da maioria, foi apresentado com a sua face actual em Dezembro de 2015, como um dos pontos altos da PlayStation Experience e como um título da Team Ninja, liderada por Yosuke Hayashi. Após essa reintrodução, a Koei Tecmo apresentou três demos que nos deram uma sensação do que estava a ser preparado. Desde logo ficou aparente que a Team Ninja estava à procura de criar algo especial, apresentando a sua ideia da experiência introduzida pela From Software com a série Souls. Se pensares que Nioh é uma espécie de conceito Souls combinado com a estética de Onimusha e apimentado com a jogabilidade de Ninja Gaiden, talvez comeces a ter uma ideia do porquê deste jogo ter um incrível potencial.

Numa era da indústria em que elementos de diferentes géneros começam a ser misturados, de tal forma que parecem criar subgéneros ou simplesmente romper os moldes que dificulta a vida a quem adora colocar rótulos, a Team Ninja é um espelho dessa refrescante nova postura, e parece combinar dois mundos como nenhuma outra casa podia. Posso dizer desde já que Nioh é dos jogos mais divertidos, intensos e envolventes que joguei nos últimos anos. É fácil perceber o porquê. O foco na acção brutal e violenta, na jogabilidade e no desempenho, e acima de tudo o conhecimento e arte para entregar controlos coesos que exigem a dedicação do jogador, é tudo pelo qual nos apaixonámos pela Team Ninja. Combinar a forma de pensar dos responsáveis por Ninja Gaiden com o conceito temível, mas apaixonante, da série Souls, é um prazer que jamais teríamos capacidade de imaginar.

Perante isto, seria fácil rotular Nioh como mais uma cópia da fórmula Souls, mas tal é tremendamente injusto. É inegável que a experiência da From Software exerce claras influências aqui, mas a Team Ninja tem um historial no que diz respeito a jogos de acção. É essa identidade que faz toda a diferença em Nioh. É precisamente o combinar destes dois mundo que torna Nioh particularmente especial, como se tivesses uma evolução do hack and slash de Ninja Gaiden a funcionar em sintonia com a pressão incrível da série Souls, que transforma qualquer inimigo num boss e as mais frenéticas batalhas numa experiência tão intensa e repleta de adrenalina que temos de pular e gritar de felicidade para expulsar toda a energia e tensão acumuladas.

Nioh transporta-te para o violento Japão no ano de 1600, no papel de um Inglês que terá de enfrentar ameaças de outro mundo para as quais nenhum outro mortal está preparado. William é o protagonista de uma fantasia sombria no período Sengoku, que culminaria com uma unificação governada por Tokugawa Ieyasu após imensas violentas batalhas. O aproveitamento de figuras e acontecimentos históricos por parte da Koei Tecmo é verdadeiramente engenhosa, e para os amantes da cultura Japonesa, um toque genial. O uso do folclore, história e mitologia Japonesa dá imensa personalidade a Nioh, personagens interessantes, e nomes que irás reconhecer, apesar de surgirem num mundo onde os demónios habitam terras assoladas pela guerra. O desespero e raiva dos seres humanos envoltos em guerras sem fim, a sede de poder e a falta de escrúpulos mergulharam o Japão no terror de Yo-Kai, no geral espíritos maléficos, mas existem alguns que se dedicam ao bem e coexistem com os humanos.

Este é o ponto de partida para a jornada de William no Japão. Através de várias missões, escolhidas a partir de um menu e que podem ser repetidas quando quiseres. Dentro de cada missão, a experiência adopta a fórmula Souls, o que significa que este é um RPG de acção no qual perdes toda a Amrita ganha (o equivalente à EXP habitual nos RPGs e o combustível de toda esta guerra que varre o Japão) quando morres. Para remediar isso, terás de rezar nos altares para trocar Amrita por um novo nível em diferentes categorias, sendo ainda um jogo no qual cada inimigo tem o potencial para te fazer sentir miseravelmente incompetente. O céu e o inferno andam lado a lado em Nioh e um só segundo pode ditar o fluir da experiência.

"Terás de dominar uma jogabilidade que mostra a excelência de um estúdio que vibra com acção rápida e fluída"

Apesar de trocar a estrutura unificada e interligada de um cenário de jogo como na série Souls por níveis separados, Nioh mantém a mesma filosofia. Cada local é uma espécie de quebra-cabeças que teremos de desvendar passo a passo e com cada combate travado. Sabes aquela sensação de incerteza perante o que fazer a seguir com medo de perder o progresso feito? Está aqui em Nioh, em todo o seu esplendor, apesar do design de níveis ser mais simples e directo. Existem locais que exigem exploração e outros que até te podem confundir, especialmente se não quiseres cometer demasiados erros no incerto, mas esse é o prazer desta fórmula, e no geral, excepto alguma ocasional verticalidade, os níveis são menos elaborados.

Para não perderes a Amrita e não acabares como mais uma espada sangrenta espetada no chão, terás de despachar os inimigos, e entre humanos mesquinhos que se aproveitam das aldeias indefesas e os terríveis Yo-kai, terás de dominar uma jogabilidade que mostra a excelência de um estúdio que vibra com acção rápida e fluída. A Team Ninja pegou no conceito da From Software e aplicou-lhe o tratamento Ninja Gaiden, o que significa que frequentemente ficarás a pensar se não estarás perante um autêntico hack and slash. Tudo graças ao magnífico sistema de combate que faz da barra de Chi, o equivalente à Stamina na série Souls, o seu grande trunfo. Sempre que atacas ou te esquivas dos ataques, consomes chi, e quando estás numa zona cinzenta controlada por um Yo-Kai, ela vai-se desgastando. Para compensar, e continuares a atacar quase sem limite, terás de reestabelecer manualmente o chi consumido, pressionando o botão específico no momento necessário, para que o chi não se esgote e possas potencialmente atacar infinitamente.

Claro que é fácil falar. O mais difícil é fazer. Nioh mostra a poderosa essência da Team Ninja quando se revela tão furioso quanto concentrado e estratégico. Se quiseres, caso te sintas confiante, podes atacar sem parar, esquivando dos ataques ou recuperando chi, e transformar Nioh numa espécie de hack n slash que relembra Ninja Gaiden, com um estilo violento e avassalador, mas depois terás de acalmar e pensar melhor perante outros inimigos. Terás de alternar para um ritmo mais lento, em que o tom Souls se sente com mais vigor. Este equilíbrio entre duas posturas resulta numa proposta singular, com o potencial para apelar a diferentes tipos de jogadores. Seja aos que gostam de sentir o cruel peso da dificuldade ao pontos de gritar de raiva, como também para os que adoram jogos de acção rápidos e frenéticos. A respeito da dificuldade, Nioh poderá desapontar é na dificuldade dos bosses, que não se compara de forma alguma aos que a From Software utiliza para te massacrar.

Onde Nioh mostra algumas debilidades, e o peso de dez anos de desenvolvimento com várias mudanças, é no departamento visual. A Team Ninja esforçou-se ao máximo para agradar a diferentes tipos de jogadores, e a prova disso é o feedback reunido nas demos que permitiu aos fãs ajudar a melhorar a versão final. Nioh apresenta três modos de qualidade diferentes, um focado na acção, outro na qualidade de imagem, e ainda um terceiro que procura um meio termo. Em todos eles, o aspecto visual não vai espantar ninguém, e apesar da simplicidade de alguns locais, Nioh apresenta cenários inspiradores que nos transportam para belos locais. O foco na acção e na fluidez da jogabilidade deverá ser encarado como uma aposta ganha por parte dos jogadores adeptos destas experiências. O modo acção é o melhor modo para jogar Nioh pois é o que verdadeiramente honra a filosofia da Team Ninja, com uma jogabilidade a 60fps que torna os combates ainda melhores.

Existe imenso para tornar Nioh num título cativante, e apesar dos gráficos não serem o seu ponto mais forte, o foco na jogabilidade mais do que compensa isso. O design de níveis não desfruta da complexidade a que os fãs da série Souls estão habituados, mas ainda assim, tornam-se quebra-cabeças que terás de resolver,ao explorar cautelosamente cada percurso, enquanto na tua mente pensas as possíveis consequências dos teus actos e o caminho que terás de repetir para recuperar a preciosa Amrita, caso o desconhecido represente um perigo além das tuas capacidades. Os visuais estilo Koei Tecmo e todo o aproveitamento do Japão Feudal atribuem imenso carisma e personalidade a um jogo implacável, mas altamente divertido.

NiOh é tudo aquilo que podias esperar de uma Team Ninja em forma. Éum jogo de acção rápida e implacável, com uma incrível profundidade. Numa era em que a fórmula Souls se tornou incrivelmente popular, entre os jogadores e os estúdios, é compreensível que a Team Ninja tenha decidido apresentar a sua perspectiva sobre desse tipo jogabilidade, mas em nenhum momento ousa prescindir do seu ADN. É precisamente esta combinação e a sua forma harmoniosa que causam um efeito supreendente. NiOh relembra a Team Ninja nos seus tempos áureos. É provavelmente o seu melhor trabalho desde a saída de Tomunobu Itagaki. Agora só tens de perguntar a ti mesmo se estás disposto a caminhar aquela fina linha, impiedosa mas tão sensacional, que separa a euforia da raiva.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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