The Order: 1886 - Análise

Ao serviço de sua Majestade.

Visualmente sumptuoso e deslumbrante, no entanto oco. Não oferece nada de novo sendo até pior que alguns jogos do género da geração passada.

Eurogamer.pt deixou de ter notas nas suas análises em virtude de uma nova política de avaliação. Podes ler aqui sobre esta alteração editorial.

Foi em plena E3 2013 que a SCEA apresentou ao mundo The Order: 1886, a primeira propriedade intelectual do Ready at Dawn, e relembro ter ficado completamente rendido à proposta deste exclusivo PlayStation 4. A ideia de um talentoso estúdio interno da Sony estar a trabalhar num jogo em específico para a mais recente consola caseira da companhia, que era ao mesmo tempo um novo universo e uma clara ambição de elevar mecânicas de jogo pré-estabelecidas a novos padrões cinematográficos deixou-me ansioso. Chegados a 2015, depois de alguns adiamentos, finalmente estamos perante o seu lançamento, mas de um dia para o outro The Order: 1886 tornou-se numa espécie de assunto quente dentro da indústria. Estava mais do que previsto que o jogo seria altamente debatido, a palavra exclusivo assim o dita, mas toda esta controvérsia sobre a qualidade/longevidade do produto podem afastar-nos do que realmente interessa: aquilo que os seus criadores conseguiram através do seu esforço que ele se tornasse.

Qualquer pessoa que goste de videojogos é porque gosta de fantasia, seja qual for o género, isso é mais do que certo. Assim sendo, não é de espantar que se fique facilmente intrigado com The Order: 1886. O Ready at Dawn escolheu uma Londres Vitoriana na qual as criaturas Lycans são enfrentados com armas altamente evoluídas para a sua altura com todo um sentido estético que impressiona, mas o mais curioso é que, independente das ideias pré-concebidas, o estúdio afirmou desde logo as suas intenções: "The Order é um jogo na terceira pessoa de ação/aventura com mecânicas de um shooter. É muito baseado na História - é um jogo linear baseado na história. Estamos a tentar contar uma história. É aquilo a que chamamos uma 'experiência filmica'." The Order: 1886 é isto, agora o que vamos descobrir é se tal foi feito de uma forma a que o produto agrade e se estamos perante algo que se sente como um videojogo, algo que supostamente é. O maior trunfo de muitos dos clássicos é quando conseguem criar um videojogo que mais parece um filme sem jamais se esquecer do que é verdadeiramente.

"Esta é uma jornada intensa por um mundo que existe nas sombras de Londres."

Nesta Londres Vitoriana de uma realidade alternativa, o encanto do tom sci-fi histórico não tem igual. Sir Galahad, Igraine e Laffaiete são três Cavaleiros de uma ordem antiga, os Cavaleiros da Távola Redonda fundada pelo Rei Artur, ao serviço de Sir Percival. Este mentor de Galahad enverga o papel de "rebelde" na ordem pois exige que seja tomada mais acção contra a postura mais cautelosa do presidente do conselho. Em 1886, a luta contra os Lycans (são humanos híbridos, um tipo de lobisomens), que juraram enfrentar a todo o custo, está no seu expoente máximo pois não só existe grande mistério nas suas actividades como existe muito por descobrir sobre os seus futuros planos. É normal que o estúdio tenha sentido uma enorme vontade de se centrar no contar de uma história, afinal de contas conseguiram um pano de fundo excepcional.

Esta é uma jornada intensa por um mundo que existe nas sombras de Londres. Uma jornada que se torna ainda mais envolvente quando temos Rebeldes que procuram criar anarquia. Ao longo de The Order: 1886, vamos descobrir segredos, desvendar mistérios e percorrer os bairros mais ameaçadores de Londres para cumprir o nosso dever enquanto Cavaleiro de Ordem. Tudo envergando armas tecnologicamente avançadas para a altura. No papel tudo resulta em grande mas na concepção a falta de currículo do estúdio faz-se sentir. Apesar de uma história singular e envolvente, torna-se demasiado previsível para ter qualquer impacto, excepto um ou outro momento, e todo o avanço tecnológico impressiona visualmente porque em termos de gameplay, falha redondamente.

The Order: 1886 é verdadeiramente uma experiência cinematográfica elevada a níveis nunca vistos anteriormente. A tal ponto que quase mais parece uma coreografia cuidadosamente orquestrada que faz tudo para conduzir o jogador pela mão. Por um lado para permitir que a imersão não seja quebrada pelo jogador, amarrando-o com um forte aperto para que este não tenha espaço de manobra para fugir ao estipulado, mas por outro lado também para permitir que se foque nos seus pontos mais importantes e para que o ritmo seja tal e qual como desenhado pelo estúdio. Isto faz com que o jogo seja exactamente como visionado mas também faz com que assuma um tom muito rígido, algo que vai em completo oposto à evolução da indústria.

A tal ponto que quando damos por ela estamos a saltar entre "arenas" de tiroteios através de corredores numa experiência completamente linear cujos visuais nos distraem levando-nos a entrar em pleno no mundo de jogo: apenas o consegue com os visuais e não com o seu gameplay. Isto causa uma clara divisão entre os diversos parâmetros qualitativos do jogo. Isto é o que mais me deixa incrédulo, como é possível que a mesma equipa que conseguiu criar uma nova propriedade intelectual repleta de personagens interessantes, conceitos e ideias com imenso potencial, consegue depois afundar tudo com um gameplay arcaico que além de falhar em implementar seja o que for de novo, ainda consegue uma prestação pior que a de jogos com mais de seis anos?

Se considerarmos que estamos perante um jogo de acção na terceira pessoa (TPS), aquilo que vamos pedir é um jogo dinâmico e fluído no qual a velocidade de execução dos nossos movimentos seja do mais suave e imediato possível. Isto existe quando estamos envolvidos nos tiroteios de The Order: 1886 mas tal como em tudo no jogo, são demasiado rígidos e orquestrados. Rapidamente perdem a piada e como passamos tanto tempo com o comando pousado a olhar para o ecrã, não se instala a devida naturalidade da comunicação com o jogo. Além da falta de talento na concepção dos tiroteios e da estrutura de jogo completamente linear e rígida, as constantes oscilações de ritmo fazem mais danos do que méritos.

Muito trapalhão e desajeitado, assim descreveria as secções de tiroteios em The Order: 1886. Apesar do que muitos podem dizer, pessoalmente senti que juntamente com os 30fps, que raramente oscilam, a forma desajeitada com que o personagem interagem com o mundo, mais frequente do que desejaria, impedem que o jogo envergue uma fluidez e agilidade que teriam assentado na perfeição num mundo tão belo visualmente. Talvez seja pedir muito mas uma maior naturalidade e mecânicas de jogo mais precisas teriam feito muito bem a este jogo.

"The Order: 1886 é verdadeiramente uma experiência cinematográfica elevada a níveis nunca vistos anteriormente."

Se a isto juntarmos que em The Order: 1886 podemos passar 70% do tempo com o comando pousado, ou a jogar só com uma mão, e que nos restantes 30% estamos em tiroteios sem inspiração que em 2009 teriam sido humilhados, a coisa fica um pouco estranha. Isto porque apesar do setting fascinante e único, os personagens não são explorados em todo o seu potencial e a história nem sempre é contada da melhor forma. Vemos momentos que ostentam em plena pujança a visão do estúdio para depois sermos presenteados com quebras de imersão ou desfechos que qualquer jogador teria imaginado bem melhor. Logo se The Order: 1886 quer ser um filme, precisava de melhor director, se quer ser um jogo precisava de uma melhor execução no seu gameplay. Falta um pouco de carisma a tudo o que compõe este jogo e isso é a maior pena que tenho pois a sua personalidade está ali, a uns pequenos toques de ser algo fascinante. E dói mais perceber que ficou tão perto de ser algo mais e descambou.

Que poderei eu dizer do nível de dificuldade? Esqueçam, nem sequer pensem no modo Normal. É para rir e para passear. Joguem logo no modo mais difícil e não é para aumentar a longevidade, é para disfarçar ao menos e acreditar que a experiência é mais exigente e coesa. A inteligência artificial é quase inexistente e não representa qualquer desafio, excepto nos momentos em que falha e apresenta erros claros. Nas secções furtivas os QTEs até podem levar ao aborrecimento mas lá repetimos e até perdoamos. Uma má inteligência artificial já é mau o suficiente mas quando temos combates mal planeados e executados em conjunto então tudo fica ainda pior. Mais desanimador é perceber que seja qual for a facção que enfrentem, e sem querer revelar muito, os comportamentos, frases e armas são iguais. Mais parece que querem que o jogador passeie.

No que diz respeito ao seu gameplay, The Order: 1886 roça o banal, um claro contraste com a sua apresentação. O posicionamento e comportamento dos inimigos é banal, o constante repetir das mesmas acções juntamente com a intransigente linearidade em sintonia com o tom altamente scriptado de tudo o que vemos e fazemos aqui, traçam um perfil de gameplay tenebroso. Reconheço que existe algum exagero nesta afirmação, mas sente-se em alguns momentos que The Order: 1886 está demasiado preocupado em manter um véu, como se fosse essa tal coreografia cuidadosamente planeada que não quer de forma alguma comprometer ser quebrada. Ocasionalmente lá temos momentos mais interessantes com algum suspense mas são raros e apesar de ser espantoso visualmente, não vamos ficar com nenhum momento em especial na nossa mente. O que é preocupante num jogo com esta responsabilidade.

"Muito trapalhão e desajeitado, assim descreveria as secções de tiroteios em The Order: 1886."

Para os que estavam preocupados com os QTEs podem descansar. Foi conseguido um equilíbrio e uma sensação de espectacularidade na sua gestão, existem bons momentos ligados a esta mecânica, não se sente intrusiva. Pensar que não é nem de longe o pior dos problemas do jogo, nem sequer da sua identidade, pode ser bem revelador dos erros que o Ready at Dawn cometeu. Bastante linear, frequentemente aborrecido são problemas maiores. Diria que fiquei chocado quando me apercebi que estava a pensar: "Como é que um jogo tão bonito consegue ser tão aborrecido?" The Order: 1886 precisa de algum tempo para crescer pois rapidamente o impacto visual pode deixar de ser uma arma tão eficaz.

Agora que falamos em visuais, The Order: 1886 é o jogo que vão querer ter em casa para gabar o talento gráfico da PlayStation 4. É o único elemento nesta produção para o qual não existem possibilidades de críticas. É lindo de morrer e apesar dos momentos de verdadeiro arraso não serem abundantes, a incrível atenção ao detalhe, os fantásticos modelos dos personagens, a iluminação e a forma como a dança entre luz e sombra é apresentada, fazem com que este seja um dos concorrentes a bater por jogos como Uncharted 4. Podemos desde já retirar isto do caminho, The Order: 1886 é provavelmente o jogo com melhores visuais para a vossa PlayStation 4 e se adoram uns bons visuais, preparem-se para ficarem de queixos caídos. Diria até que este é o principal impulsionador de toda a experiência, o elemento coeso que une todo o jogo e que nos mantém com vontade de mais.

Curiosamente, a temática mais controversa e debatida não me causou mossa nenhuma, a sua longevidade. Nada que impeça o jogo de ser relativamente pequeno e aqui temos um dos seus maiores "pecados", uma lamentável mas real inexistência de vontade de o querer jogar novamente. O que tem de bom saboreamos em pleno mas depois de terminar, os seus problemas terão maior peso na balança. Para os que gostam de números, na primeira campanha, jogado em Normal por isso seria melhor saltarem logo para Difícil, terminei o jogo com 6 horas e 1 minuto, perdendo algum tempo para procurar jornais e fotos, tendo repetido alguns tiroteios por ter sido abatido. The Order: 1886 é uma experiência ingrata pois assim que o terminamos percebemos que é curto e que na grande maioria dos casos somos amarrados para o ritmo ser gerido com rigor pelo próprio.

Já quiseste alguma vez jogar um jogo no qual passas mais de metade do seu tempo útil a olhar para o ecrã sem tocar no comando? Imaginas um jogo com visuais simplesmente deslumbrantes e um cenário altamente original mas cujo gameplay é do mais restritivo e linear que já viste? Imaginas-te a conhecer personagens que deveriam fazer mais para te afeiçoares a eles pois esta é a sua estreia e o seu carisma poderia ser muito maior apesar de pertencerem a um leque geral bem interessante? Consegues imaginar um jogo em 2015 com tiroteios piores que os de jogos de 2009 no qual as armas são banais apesar de um incrível avanço tecnológico? Acreditas que o singleplayer é o valor máximo mesmo que não fiques com motivos para voltar a pegar no jogo após uma campanha curta? Então este jogo pode ser para ti.

Ainda assim, no final do dia The Order: 1886 não é o desastre que muitos queriam fazer crer mas nem de perto é o blockbuster que tinha todo o direito de ser. Vale pelo seu inacreditável poderio visual, pela propriedade intelectual altamente fascinante que o Ready at Dawn conseguiu criar e vale pela ideia que pode nascer mais produtos deste conceito. No entanto, as suas falhas e fraquezas são demasiado gritantes e dá um novo significado à expressão "não julgues um livro pela sua capa". Existem muitos jogos de acção na terceira pessoa para a anterior geração mais divertidos que The Order: 1886 mas no entanto não existe nenhum jogo tão belo como ele. Se conseguirem aceitar os compromissos e contra-partidas vão conseguir uma jornada interessante mas, de qualquer forma, consegue estimular muito mais a imaginação com o seu universo do que satisfazer enquanto jogo.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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