O que é que GTA tem de especial?

As pequenas coisas que fazem uma grande série.  

Esta semana assistimos aquele que, ao que tudo indica, foi o maior lançamento de sempre da indústria do entretenimento. Não da indústria dos video jogos; de todo o entretenimento. Falo de Grand Theft Auto V que, a julgar pelos números, parece tocar mais corações do que pesos pesados como Harry Potter, Call of Duty, Os Vingadores ou Piratas das Caraíbas.

GTA teve uma das origens mais humildes que um video jogo pode ter e em pouco mais de 15 anos deixou de ser apenas um video jogo para passar a ser um evento comemorado por todo o mundo.

A série foi pioneira em muitas áreas do design dos video jogos e muitos, com maior ou menor sucesso, tentaram emular a sua fórmula vencedora mas nunca ninguém conseguiu chegar aos calcanhares do rei do sandbox.

Afinal de contas, o que faz com que gostemos assim tanto de Grand Theft Auto?

As personagens

Por muito diferente que seja a personalidade das personagens principais de GTA, têm sempre uma coisa que as une: sede de poder. Por norma são renegados sociais, com um background de pobreza e pequena criminalidade, que tentam lutar para subir na vida da única forma que lhes é familiar. Niko e Tommy Vercetti são recém chegados a uma cidade e precisam de se impor para sobreviver. CJ é um jovem de um bairro pobre que cresceu num mundo de gangs.

A vontade de querer subir na vida, de querer ser alguém importante, é familiar a praticamente toda a gente. Isto faz com que a esmagadora maioria dos jogadores se identifique com os personagens principais dos jogos, ultrapassando os meios sociais de onde são originárias. Todos nós queremos ser mais e chegar longe, está na nossa natureza e os personagens principais de GTA são escritos para se moldarem a essa facto.

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As personagens principais acabam por ser carapaças mais ou menos vazias cuja personalidade será preenchida pela do próprio jogador.

Criativamente, a atenção fica virada para os personagens secundários. Simplesmente, brilhantes.

Destaco o DJ Lazlow e a banda britânica Love Fist de GTA Vice City, o “relaxado” The Truth de GTA San Andreas, o verbalmente incompreensível Little Jacob e o bombado Brucie de GTA IV.

Todos eles personagens brilhantes e altamente diversos que raramente encontramos em qualquer outro meio ou descritos com tanto detalhe.

A qualidade da escrita nos video jogos ainda não está a par de outras formas de arte como o cinema ou a literatura mas a Rockstar é, sem dúvida, das que mais se esforçam para alterar essa percepção e, de todas as suas IPs, GTA é aquela cuja escrita mais tem evoluído ao longo dos tempos.

O segredo passa por tratar o jogador como um adulto e de misturar vários géneros num só jogo. Há acção, drama, comédia e até um pouco de romance(eheh). GTA consegue fazê-lo graças ao seu ritmo variado e a um tom que nunca permite que o levemos nem demasiado a sério, como a série True Crime um dia tentou, nem demasiado a brincar, como Saints Row se decidiu posicionar.

A música

A banda sonora de sempre foi um dos meus aspetos favoritos de GTA. Desde o primeiro jogo que a série conta com uma selecção musical invejável colocada no jogo de forma brilhante: a rádio.

Até ao mais recente GTA V, a música só pode ser escutada quando estamos dento de um veículo com o rádio ligado. Cada estação tem o seu estilo e DJ próprios e a música que passa é adequada à época em que o jogo se insere. A selecção é sempre bastante eclética e conta com os grandes êxitos da música Pop, Rock, Hip Hop, Electrónica ou Heavy Metal da altura. GTA IV até música do leste europeu tem, uma vez que Niko é de lá originário.

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Esta paródia a bandas dos anos 80 é responsável por muitas gargalhadas e alguns dos anúncios de rádio mais incorrectos de sempre.

"Ainda considero GTA Vice City como o jogo com a melhor banda sonora de sempre, com uma grande selecção de êxitos dos anos 80."

Ainda considero GTA Vice City como o jogo com a melhor banda sonora de sempre, com uma grande selecção de êxitos dos anos 80. Em que outro jogo podemos ouvir “Broken Wings” de Mr. Mister enquanto cruzamos os céus de Miami e em seguida mudar para “2 Minutes to Midnight” dos Iron Maiden para fugirmos à polícia?

A selecção de GTA San Andreas fica pouco atrás e também encaixa na perfeição no ambiente que se vivia no início dos anos 90 quando o Gangster Rap e o Grunge estavam a explodir. N.W.A., Alice in Chains e Soundgarden foram presença obrigatória.

A atenção ao pormenor

É neste aspecto que GTA é rei dos video jogos.

Nenhuma outra IP presta tanta atenção aos pormenores e é esta atenção quase clínica que faz com que o jogo crie em nós uma sensação de imersão tão grande. Além de cidades vivas, com restaurantes, stands automóveis, lojas de armas, garagens e tantas outras coisas, os pequenos pormenores extravasam o próprio jogo. O manual é um guia turístico, são criados falsos programas de rádio e tv para promover o jogo e GTA V até tem um jogo para iOS chamado iFruit.

São gravadas dezenas de horas de talk shows sobre coisas absurdas, feitos espectáculos de stand-up de propósito para o jogo e quase tudo é uma marca própria, com direito a publicidade na rádio e televisão no próprio jogo(sim, até televisão dentro do jogo tem). Não vão encontrar outro jogo com uma selecção de marcas satíricas tão grande quanto esta série. O programa de tv America's Next Top Hooker, a loja de mobiliário sueca KRAPEA e a Weazel News são as minhas favoritas.

A violência

Tínhamos que mencionar o elefante na sala.

  • GTA é violência gratuita.
  • GTA é violência desmiolada.
  • GTA é violência absurda.

Precisamente aquilo que nós queremos.

A violência é um aspecto tão presente na série que já se tornou irrelevante. Há dez anos atrás, a TVI cobria o lançamento de GTA "City Vice"(como lhe chamaram) com uma(mais uma) das suas ridículas e infundadas reportagens sobre violência nos video jogos e quanto isso afecta "o desenvolvimento das pobrezinhas das nossas crianças".

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Se viveram neste país nos últimos 10 anos, desde que o tal “City Vice” saiu e a TVI alarmou os pais deste país, assistiram, certamente, à enorme onda de violência que o tem assolado, tudo por causa de Vice City...certo?

Hoje em dia GTA é um evento à escala global, com milhões de pessoas à espera para o jogarem e nele serem violentos. Tornou-se um fenómeno tão grande que a sua natureza violenta se tornou completamente irrelevante. "Jogo violento" é o que as mentes mais conservadoras da Fox News e da TVI lhe irão provavelmente chamar nos próximos dias.

"Who cares?" é a resposta de milhões de pessoas em todo o mundo que esta semana fizeram com que GTA V se tornasse o maior evento de cultura pop da história da humanidade no dia de lançamento.

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Sobre o Autor

Joel Monteiro

Joel Monteiro

Colaborador

Amante de design de videojogos nos poucos tempos livres. Escreve quinzenalmente na Eurogamer Portugal sobre a indústria e criatividade.

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