Tandem: a Tale of Shadows review - Sombria mansão das bonecas

Misterioso caso do desaparecimento de um ilusionista famoso.

A mecânica dual produz uma jogabilidade gratificante e singular a espaços, embora ensaiada noutras produções. De menor fulgor narrativo.

Para um jogo produzido por um estúdio composto por cinco pessoas especializadas em design 3D, o Monochrome Paris, não se pode dizer que fique aquém das expectativas. Tandem: A Tale of Shadows integra aqueles jogos de puzzles e acção, laboriosos, conjugando perspectivas bi e tridimensionais. É uma produção cuidada, algo esmerada na definição visual, sobretudo no cruzamento das perspectivas como forma de resolução, ora através de uma perspectiva 3D "top down", ora em formato "side scroll". É também a conjugação da actuação de dois dos protagonistas: a pequena Emma, de dez anos de idade, e o urso de peluche Fenton, que ganha ênfase ao longo da jornada.

Este inusitado personagem cruza-se num dado momento com a infanta Emma, numa perseguição a uma carruagem em fuga, lançando-se ambos no caso do desaparecimento misterioso do ilusionista Thomas Kane. A acção decorre em plena época vitoriana, numa Londres recheada de rencantos misteriosos, máquinas a vapor e carruagens. Porém, esta é uma versão sombria, deveras explorada, embora aqui com alguns toques interessantes, especialmente do ponto de vista da arte, traduzindo não só amplos espaços e mundos bem diversos, como objectos cruciais, revelador de uma atenção ao detalhe.

Enquanto jogamos, é impossível não pensarmos em atmosferas cinemáticas inauguradas pela lente de um Tim Burton, ou da pena de um Júlio Verne, um dos pais do género literário ficção científica. Entrelaçando as zonas sombrias e escuras, percorridas por Fenton, com as zonas mais iluminadas por onde avança Emma, a dada altura ambos vêem-se perante uma espécie de dependência mútua na resolução dos puzzles e dos obstáculos a remover no caminho de ambos. No entanto, há mais aqui do que uma trama sombria. O mistério do desaparecimento do ilusionista Thomas Kane há muito que não tem resolução, e nunca estes protagonistas estiveram tão perto de o conseguir, à medida que se embrenham a fundo.

2
Ambos os protagonistas terão de conjugar esforços nesta aventura sombria.

Jogar com as sombras é mais perigoso

O efeito da ilusão de óptica pode ser tramado. Quando controlamos Emma, a partir da perspectiva 3D "top down", deixamos Fenton algures e só quando nos abeiramos de uma sombra ou plataforma escurecida é que nos sujeitamos a uma eventual mudança de perspectiva, o toque que opera a tal transição imediata, sem quebras ou loadings, cabendo a Fenton prosseguir. Mas enquanto que ela avança normalmente em chão sólido, o peluche sujeita-se aos saltos entre as plataformas. Um salto mal calculado pode atirá-lo para o abismo, perdendo a vida e forçando o recomeço. As suas secções são as mais das vezes complexas e mais passíveis de erro tendo em conta que as sombras podem mudar de posição.

É inteligente a forma como os puzzles estão preparados tendo em conta que o posicionamento de Emma é fundamental. E aqui entramos nas tais situações de tentativa e erro, já que muitos puzzles só descobrimos depois de experimentarmos diferentes colocações. Mas o avanço de Emma também depende de até onde pode ir o peluche. E muitas vezes, por dificuldade ou só porque a perspectiva não nos dá uma ideia clara da plataforma, vêmo-nos a claudicar sucessivamente. A diversidade de mundos a explorar, num total de cinco, chega para testar os nossos limites ao longo de um punhado de horas, embora não se possa dizer que seja um jogo muito grande. Tirando algumas situações que poderão criar embaraço, a dificuldade dominante é moderada, pelo que não terão problemas em terminar o jogo nas calmas ao fim de alguns dias.

Os bosses podem ser problemáticos, especialmente pelos seus ataques com alguma dose de imprevisibilidade, embora depois de detectado o seu modus operandi sejam neutralizáveis com aquela sensação de remoção do efeito pedra no sapato. Estas figuras são algo hediondas, como as aranhas gigantes ou as abelhas de igual dimensão que têm uma grande atracção por verdes flurescentes, integrando perfeitamente a atmosfera sombria que invade cada espaço ou secção desde o primeiro instante.

1
As secções nas quais controlamos Fanton apresentam-se em duas cores, como a perspectiva é também em 2D.

Uma narrativa pouco articulada

Como referi atrás, a narrativa assenta na resolução do desaparecimento de um conhecido ilusionista, um caso há bastante tempo por resolver. Mas à medida que os protagonistas se abeiram das tão desejadas respostas, é pena que as personagens não sejam tão aproveitadas nessa finalidade. Muita acção é muda, predominando a atmosfera e o ambiente, isolando e esbatendo qualquer elemento narrativo. Claro que estas funcionam como secções autónomas, focadas nos puzzles, mas os espaços reservados à trama poderiam acrescentar consistência e maior solidez em termos de respostas às dúvidas e inquirições lançadas no início.

Pese embora a qualidade do "port" na Switch, nalguns momentos, de maior movimento e objectos em presença, a cadência de fotogramas por segundo ressente-se um pouco, o que penaliza o fulgor artístico e visual, embora sem que isso perturbe a jogabilidade. Não é de todo o caso.

O mundo de Tandem sem dúvida que nos desperta pela curiosidade e pelo tom misterioso que há nos múltiplos mundos, nas criaturas que por lá habitam, e nesse jogo constante entre a luz e as sombras, como que ao dar sequência a uma perspectiva secreta e obscura, uma imaginada representação mental de Emma, encarnada pelo peluche Fanton. É um duo que ressalta a cada instante. Ambos dependem reciprocamente e fluem para um mesmo desfecho. É verdade que outros jogos de puzzle conseguem fazer o mesmo e outros superar até esta dimensão dual da jogabilidade com recurso a mecânicas diferenciadoras. Não deixa no entanto de ser uma inscrição interessante, um daqueles jogos a marcar para jogar mais adiante.

Prós: Contras:
  • Atmosfera e ambiente
  • Arte
  • Mecânica dual
  • Boss fights
  • Cinco universos
  • Curta longevidade
  • Menor aproveitamento das personagens em termos narrativos
  • Algumas quebras ao nível gráfico
  • Não é muito diferente de outras aventuras com puzzles.

Lê o nosso Sistema de Pontuação

Salta para os comentários (0)

Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

Conteúdos relacionados

Também no site...

Comentários (0)

Ignora piores comentários
Ordenar
Comentários