Mundos de grande escala e uma narrativa envolvente, solidificados com um sistema de combate divertido. A Monolith glorifica o género.

O espectacular e inesperado primeiro ano de sucesso da Nintendo Switch está prestes a terminar com a mesma pompa com que começou. A nova consola híbrida da Nintendo chegou às lojas no meio de muitas incertezas e receios após o desaire Wii U, mas rapidamente os consumidores abraçaram o seu potencial. A ideia de explorar mundos épicos como o de Zelda: Breath of the Wild em modo portátil deslumbraram os jogadores que não se importaram em sacrificar algum poder em prol do conceito híbrido. Fruto de uma companhia que trabalha a simplicidade como uma engenhosa arma a seu favor, a Nintendo entregou aos jogadores um sonho que nem os próprios fãs se haviam atrevido sonhar: "jogos ditos de consola caseira capazes de correr na TV ou em modo portátil no espaço de segundos". Nesta autêntica epopeia em que se tornou o primeiro ano da Switch, a festa de encerramento será feita com Xenoblade Chronicles 2 que, curiosamente, promete algo similar ao que Breath of the Wild prometeu: desafiar os conceitos de todo um género (mais especificamente, na forma como é encarado pelos criadores japoneses), expandindo sobre as suas próprias ideologias e quem sabe traçar o caminho para o futuro.

Xenoblade Chronicles 2 é o novo ambicioso JRPG da Monolith Soft, um estúdio liderado por Tetsuya Takahashi, que desde o seu inspirador Xenogears para a Square Enix na PSone, consequentemente na série Xenosaga com a Bandai Namco, se tornou num dos muitos criativos Japoneses capazes de serem reconhecidos com trabalhos de autor. Takahashi conquistou esse direito e Xenoblade Chronicles 2 vem mais uma vez atestar porque o merece. Para esta sequela, Takahashi imaginou um enorme mundo que na verdade não é assim tão grande. Sempre com um tom apocalíptico no horizonte, Xenoblade Chronicles 2 decorre num mundo onde a humanidade é forçada a habitar em cima de colossais Titans, imponentes criaturas que permitem à humanidade sobreviver no meio do mar de nuvens. No entanto, existe a promessa de um local, Elysium, que poderá salvar a humanidade da iminente aniquilação, mas para isso, será preciso que um jovem rapaz viva uma épica jornada ao lado de uma misteriosa e poderosa jovem mulher.

Rex é o nome desse rapaz, o protagonista, que será introduzido ao conceito de Blades, criaturas mágicas e poderosas que lutam ao lado de um Driver, o camarada ao qual está ligado até à morte e que enverga a arma que resulta dessa ligação. Quando encontra Pyra, uma criatura mítica conhecida por destruir o mundo há 500 anos atrás, a vida de Rex não mais será a mesma. Este é o ponto de partida para uma jornada que desde logo aborda temáticas pôs-apocalípticas e flutua num mar de temas que tão caracteristicamente surgem nas produções Japonesas. É aqui que Takahashi brilha, ao abordar temáticas sensíveis de uma forma tão Japonesa, equilibrando o optimismo e esperança perante a sombra da iminente destruição.

"O apelo à exploração dos Titans de Xenoblade enverga muita da essência que consagrou Zelda: Breath of the Wild".

Uma prova do quão Japonês é esta obra e do quão fiel se mantém a si mesma, é a presença do lado divertido e sensual (aquele fetiche por seios e por criadas) que coexiste com temas tão diversos e adultos como política, religião, mortalidade, amizade, sobrevivência, pré-destinação e até existencialidade são abordados. Takahashi poderá não ter a excentricidade de Yoko Taro, mas parecem vir da mesma escola. Esta premissa transforma-se numa experiência épica em mundos abertos (cada Titan é um mundo aberto de larga escala) onde os animais, locais e flora vão apelar à tua curiosidade. Não é à toa que a Monolith ajudou no desenvolvimento de Zelda: Breath of the Wild e tal como nesse jogo, também vais explorar locais de grande escala, perdendo o sentido das horas que passam enquanto investigas mais um ponto com materiais ou tentas chegar mais perto daquele ponto que estava tão distante de ti.

É precisamente por essa vontade em apresentar mundos de incrível tamanho, que incentivam a exploração horizontal e vertical, que a Monolith tem pautado pela diferença para com os outros estúdios que trabalham no género. Agora, o estúdio pega em tudo o que aprendeu no desenvolvimento de Breath of the Wild e consegue incutir no seu jogo muita da sua essência. No entanto, este é claramente um JRPG de acção imaginado por Takahashi, ostentando todos os traços que o caracterizam. É especialmente louvável o equilíbrio conseguido entre a profundidade da narrativa e o foco nas personagens com o gameplay que te leva a percorrer locais apenas para conhecer o que até então era um mistério.

É isto que torna Xenoblade Chronicles 2 num jogo tão especial e que te fará acumular horas a um ritmo inacreditável. Poderás investir na história envolvente com a sede de descobrir mais dos personagens e do que se passa realmente em Alrest, sem esquecer os eventos do passado, como também poderás passar o teu tempo simplesmente a percorrer os Titans. Seja o que for que te motiva, encontrarás um gameplay intuitivo que volta a colocar a série Xenoblade como uma referência no género. Xenoblade Chronicles 2 é um RPG de acção onde os teus principais adversários são criaturas de diversos tamanhos. Todas elas partilham os mesmos locais e os seus níveis são variados, o que significa que terás de escolher bem a tua caça para não te tornares na presa. Os ataques são feitos de forma automática e terás recurso a habilidades especiais da tua Blade (podes equipar e alternar entre três), sempre que usas uma habilidade, recarregas o especial.

A forma como a Monolith trabalhou o seu sistema para não se tornar num button-smasher é louvável. O nível dos personagens é o elemento mais importante nas lutas deste sistema relativamente simples, mas os confrontos contra bosses e alguns monstros exigem um pouco de estratégia, especialmente se quiseres aceder aos ataques especiais de maior envergadura (que exigem uma sequência específica de ataques de elemento). Xenoblade Chronicles 2 não procura complicar e poderá surpreender que apesar da existência de imensos parâmetros, tudo se mantém relativamente simples.

Desde a barra de afinidade entre Blade e Driver (que permite o acesso às habilidades e especiais) que sobe com cada golpe automático, o desbloqueio de novas habilidades quanto mais usas uma Blade, os chain party attacks, a necessidade de encher uma parte da barra da party (com habilidades) para ressuscitar um camarada, tudo permanece surpreendentemente simples. Existem bónus temporários que podes equipar, existem acessórios, melhorias nos ataques e habilidades, e existem melhorias para a Blade, sem esquecer o subir de nível. Apesar de tudo, Xenoblade Chronicles 2 nunca se torna complicado e isto resulta a seu favor. Os tutoriais são apresentados em diferentes momentos ao longo das primeiras 10 horas (contextualizados com os eventos narrativos) e funciona de forma fresca.

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Cada ataque preenche aquele contorno rosa em torno da habilidade, permitindo o seu uso. Este é o factor que dita o ritmo dos combates e responsável pela estratégia no sistema. Inimigos como este duram imenso a tombar.

Em termos de XP, apenas ocasionalmente fui forçado a parar para o grind, mas com a experiência ganha nas missões secundárias e nas missões de mercenários (uma actividade opcional que geres no menu e envias Blades adicionais para as cumprir), reduziram o grind que se podia tornar extremamente aborrecido. Alguns monstros "normais" são autênticas esponjas e na maioria das vezes demoras imenso tempo a matar os inimigos, sendo este um dos pontos mais sensíveis da experiência. Pelo outro lado, a forma como é gerido o quick travel é um exemplo da simplicidade funcional que a Monolith implementou. Isto é o que torna Xenoblade Chronicles 2 tão especial é interessante (mesmo que contrarie constantemente a narrativa). As coisas funcionam de uma maneira que torna a experiência gratificante e divertida, existindo profundidade onde é necessário, como na narrativa e alguns sistemas, de mãos dadas com uma simplicidade que favorece a grande maioria dos sistemas de jogo.

É fascinante olhar para Xenoblade Chronicles 2 e ver que Takahashi mantêm muito do seu ADN (especialmente na narrativa e design de personagens), apresenta-nos os mundos vastos dos quais tanto gosta, mas começa a posicionar-se para liderar o género em direcção à sua próxima era. Uma era dominada por mundos abertos que incentivam e premeiam a exploração, motivando o jogador a perder-se apenas pela simples diversão de o poder fazer. Com uma personalidade interessante, história envolvente que não tem problemas em combinar temáticas adultas com a expectável tontice, sustentado por mecânicas de jogo que exploram novos caminhos nos Action RPGs com argumentos suficientes para levar o género a jogadores que nem são fãs do mesmo.

Poucas críticas ficam para um jogo que te consegue prender por mais de 70 horas sem sentires cansaço. O sistema de combate poderá ser demasiado simples para alguns e a constante fuga de criaturas muito mais fortes poderá tornar-se frustrante. Os fãs estão habituados a reiniciar num ponto após isto acontecer, mas a frequência inicial poderá tornar-se frustrante. As vozes em Inglês deixam um sabor agridoce. A aposta em actores britânicos consegue alguns bons resultados, mas também existem outros tantos que metem medo. A qualidade gráfica é altamente inconsistente em modo portátil para favorecer a performance, e perante a necessidade de albergar mundos desta escala numa plataforma que não é conhecida pelo seu poder, dita compromissos gráficos (por vezes nos locais mais inesperados). No que diz respeito ao gameplay em si, Xenoblade Chronicles 2 consegue assumir-se como um jogo simples o suficiente para que os poucos elementos mais profundos não incomodem.

Ao chegar perto das 97 horas, é essa a sensação que fica, de um jogo desenvolvido com extremo cuidado e que representa um ponto de partida para o futuro. Xenoblade Chronicles 2 é de várias formas um exemplo para o caminho a seguir pelo género JRPG. A Monolith consegue apresentar mundos de grande tamanho que vais adorar explorar, onde a ausência de barreiras e a sensação de escala te vão apaixonar. É um jogo sem problemas em se assumir como um produto japones, excêntrico e com temáticas surpreendentes, capaz de te prender com as suas personagens e os seus acontecimentos. Será capaz de te surpreender e apaixonar como poucos jogos no género conseguiram nesta geração e, como fã do género, isso foi o mais encantador. Xenoblade Chronicles 2 é um jogo que glorifica os JRPGs.

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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