Mega Man: Legacy Collection - Análise

Para sempre 8-bit.

Outrora uma das personagens mais famosas da Capcom, uma das mais queridas mascotes e símbolo de desafios tão árduos como hardcore, vive nesta década alguma indefinição, não se sabendo muito bem que planos tem a editora para o seu futuro. A sensação que transparece desta colecção, lançada o ano passado em formato digital para plataformas como a PS4 e Xbox One, e que agora chega à 3DS, é que o futuro é retro. Mega Man 9 (2008) e Mega Man 10 (2010) estão já um pouco distantes, mas ambos ainda se enquadram na estética puramente 2D, contribuindo para um prolongamento em mais de 20 anos das bases da série.

Pese embora o lançamento digital de alguns jogos noutras plataformas, nunca a Capcom lançou uma colecção tão completa, a pensar nos fãs do "blue bomber". Claro que teria sido melhor juntar os 10 jogos clássicos, para não mencionar os spin-offs e versões remasterizadas. Isso seria pedir muito para o que sabemos da editora japonesa. No entanto, a Capcom optou por focar-se nos seis primeiros jogos, correspondentes a versões fiéis das versões para a Nintendo Entertainment System (NES), lançadas entre 1987 e 1993. São na verdade os primeiros anos dourados da série. Muitos fãs de Mega Man, recordando com nostalgia a época, metem a personagem à frente de Super Mario ou Sonic. Há todo um apartado gráfico, sonoro e mecânico altamente contagiante. São jogos severos, punitivos e com picos de dificuldade elevados, mas não de todo inultrapassáveis com dose significativa de tempo e paciência.

"nunca a Capcom lançou uma colecção tão completa, a pensar nos fãs do "blue bomber""

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Todos os Mega Man lançados na NES.

A emulação destes seis jogos e demais conteúdos ficou a cargo da Digital Eclipse, que não se limitou a repor os códigos originais, optando por apresentar um grafismo brilhante, nítido e contrastante, assentando bem na tela da 3DS. Teria sido melhor afastar alguns "glitches" originais, e embora não sejam muito persistentes a remoção destas pequenas impurezas, apesar de se afastar da matriz original, daria mais relevo ao produto. Talvez por isso não estejamos perante uma colecção que remasteriza, mas perante uma colecção que recupera os clássicos.

Teria sido bem menos interessante se a Digital Eclipse se limitasse a juntar apenas os originais, como são. O "twist" desta colecção é a quantidade de modos e opções de jogo que podemos aceder muito facilmente. A produtora foi ao fundo do baú e passou a pente fino as músicas, os manuais, os cartuchos, a arte, a publicidade e juntou tudo isso numa secção denominada de museu. Cada jogo tem o seu museu e lá podem consultar um autêntico mar de dados relevantes, sem esquecer as personagens, inimigos e bosses. Está lá tudo o que é preciso saber para se ficar por dentro de cada um dos seis episódios. E também as músicas, numa outra secção que nos deixa recuperar saudosas trilhas 8 bit.

"se tiverem um Mega Man Amiibo poderão desbloquear mais 11 desafios adicionais"

A isso acresce um modo de jogo novo criado especialmente para a colecção e que será do agrado tanto de fãs como de principiantes. Os Challenges, assim se chama, são vários desafios específicos criados para cada um dos jogos, constituídos por segmentos remix e ligados entre si. O jogador terá que os concluir dentro de um tempo específico e variável em função da natureza do desafio. Uma boss fight pode ter menor duração, enquanto que uma primeira fase pode atingir os 6 ou 7 minutos. A dificuldade vai sendo cada vez maior e não temos que recomeçar desde o começo do nível quando perdemos a vida, mas dentro do segmento, o que nos deixa com grandes hipóteses de acabar dentro do tempo limite. Muitos destes desafios estão bloqueados e só depois de percorrida uma boa base é que prosseguimos. Além disso, se tiverem um Mega Man Amiibo poderão desbloquear mais 11 desafios adicionais. Como instrumento de adaptação e conhecimento do ADN da série não há nada melhor. Os principiantes vão adorar o desafio, até porque a dificuldade dos jogos é significativa e começar por aí pode ser uma dor de cabeça, especialmente o primeiro jogo. A partir do segundo Mega Man existe um melhor equilíbrio.

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Pondo à prova os reflexos.

Outro extra interessante é a base de dados. Através dela podemos consultar uma série de detalhes sobre as principais personagens e inimigos, abrindo caminho para um melhor conhecimento em termos narrativos. Depois, temos os parâmetros personalizáveis, como a opção que nos deixa alternar de Mega Man para Rockman (chama-se assim no Japão), jogar com desenhos das personagens nas barras laterais, usar um slot de gravação por jogo (se quisermos sair por um longo período), carregar um jogo, aceder a um ponto de gravação, etc. Tudo através de um toque no gatilho R, quando nos encontramos dentro de um jogo.

Em termos visuais e como já dissemos, a produtora usou o seu próprio motor para emular os seis jogos, garantindo "sprites" genuínos e também a jogabilidade que sempre conhecemos. Controlar Mega Man pode ser por vezes espinhoso, até porque o salto é limitado e não é tão ajustável como sucede com salto operado com Super Mario, o que pode resultar em situações de autêntica chuva de danos. De resto, bastará efectuar o périplo certo pelos bosses e usar as armas específicas para os derrotar. Tirar a arma a um boss para derrotar outro é um elemento que define a série. Depois só temos que encontrar o percurso certo e prosseguir até à derradeira batalha.

Sendo Mega Man uma porta de entrada algo exigente, encontramos em Mega Man 2 um jogo mais equilibrado e estimulante em quase todas as dimensões. Desde a produção dos níveis, passando pelos bosses, é um dos melhores da colecção, embora até Mega Man 6 tenhamos um padrão de qualidade permanente. Vale a pena pegar nuns auscultadores e receber todo aquele ritmo 8 bit, não apenas nostálgico como bem conseguido.

Fosse apenas pelos jogos em si, sem mais, e esta colecção ficaria um grau abaixo da classificação que atribuímos. No entanto, somando os conteúdos adicionais e toda uma parafernália de arte, música, opções, manuais digitalizados, capas, cartuchos, não há como fugir a uma produção que dá mais e nos deixa agarrados. Pena a permanência de alguns "glitches", que no entanto não prejudicam a jogabilidade e não invalidam esta colecção como recomendada para os fãs de Mega Man e novatos dispostos a conhecerem e deixarem-se levar por um dos melhores universos 2D dos anos oitenta e noventa. Para o futuro, gostaríamos de ver a Capcom arriscar mais sobre esta personagem, porque sobre o passado esta colecção como que dá por assente todo um tempo.

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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