Assim como qualquer outro jogo que chegue às lojas neste início de geração, Watch Dogs carrega um fardo ao qual não consegue escapar, o de provar o que estas novas consolas valem, tarefa essa que não tem sido fácil. Desde novembro até agora que surgiram bons jogos, mas ainda são muitos os que estão à espera de um verdadeiro system-seller que justifique o investimento em novas consolas ou num novo PC. Não estamos esquecidos de que há versões de Watch Dogs para a PlayStation 3 e Xbox 360 (e mais tarde para a Wii U), mas os olhares estão fixados nas versões PC, PlayStation 4 e Xbox One porque afinal, este foi um dos primeiros jogos apresentados para a nova geração.

Foi na E3 2012, para quem não se lembra, quando vimos Watch Dogs pela primeira vez. A Ubisoft ainda não podia dizer oficialmente que estava a ser produzido para as novas consolas da Sony e Microsoft, mas no fundo todos sabíamos que o que estava a ser mostrado não era possível na PlayStation 3 e Xbox 360 e que as novas consolas estavam próximas. Quase dois anos depois, e após um adiamento inesperado em novembro, Watch Dogs está finalmente pronto para ser lançado. Não restam dúvidas que é um dos jogos mais aguardados de 2014, as expectativas estão lá em cima e os jogadores têm mostrado um enorme interesse nos últimos meses. Com tanta ansiedade à mistura juntamente com tantas discussões à mistura sobre o desempenho do jogo na atual geração, resta perguntar: Será que corresponde às expectativas?

Para responder, é necessário compreender qual foi a origem das expectativas. Foram os gráficos? Não completamente, mas em parte ajudaram, sobretudo porque em 2012 nunca tínhamos visto um jogo em mundo aberto com tanta qualidade visual e ambientes riquíssimos, dinâmicos e bem retratados. No entanto, o que a Ubisoft mostrou naquela apresentação era mais impressionante do que temos hoje, isto é, parece-me evidente desde que comecei a jogar que o jogo perdeu parte do seu brio no período que separa o primeiro vislumbre até ao lançamento. A cidade de Chicago na versão final é diferente da cidade que vimos há dois anos. Esta última parecia uma cidade real cheia de movimento e pessoas nas ruas. A Chicago que encontrei tem as ruas quase desertas, não parece uma cidade com milhões de habitantes.

Também é lamentável descobrir que depois do adiamento em novembro, que supostamente serviria para que o jogo chegasse até nós no melhor estado possível, há arestas por limar. A física do carros deixa a desejar bem como a condução, que dá pouca liberdade de movimento aos veículos (sentimos os movimentos presos). O sistema de danos nos carros nas colisões a velocidades reduzidas é outro aspecto que poderia estar melhor. Todavia, depois temos pormenores deliciosos como o casaco de Aiden Pearce a ondular com o vento quanto viaja de mota, as árvores a abanar e a cidade fica incrível quando está a chover e quando há efeitos de luz à mistura (principalmente de noite ou em ambientes fechados). A juntar a isto temos o facto de termos uma cidade enorme para explorar e vários dos seus pontos são interactivos através do smartphone de Pearce. A cidade não serve apenas de cenário, faz parte do jogo e pode ser usada de formas criativas nas missões mas principalmente em perseguições ou fugas.

É este conceito de interactividade, da possibilidade de hackear os sistemas que controla a cidade, que torna Watch Dogs numa proposta interessante. A Ubisoft brindou-nos com um jogo que decorre num futuro próximo em Chicago, cidade agora controlada por um único sistema operativo, o ctOS (Central Operating System), que secretamente vigia o quotidiano de cada habitante. Na pele de um hacker habilidoso, Aiden Pearce, ganhamos acesso/controlo dos semáforos, pontes levadiças, smartphones das outras pessoas, sistemas eléctricos, bases de dados e tudo o resto que possa ser controlado atualmente por um computador.

Os seus temas centrais, as guerras cibernéticas, hacking e companhias sem escrúpulos, tornam-no num jogo atual facilmente identificável com a atualidade. Isto não quer dizer que Watch Dogs seja realista, as bases que os produtores usaram para criá-lo existem de facto, mas aqui os hackers, principalmente Aiden Pearce, adquire habilidades equiparáveis às de um super-herói. É por isso que Watch Dogs consegue oferecer uma sensação de satisfação tão grande, como outros jogos, possibilita-nos realizar as nossas fantasias. Quem nunca sonhou em visitar o multibanco levantar todo o dinheiro que lá está? Em Watch Dogs isso é tão fácil quanto carregar num botão.

Watch Dogs traz algo de novo para a mesa. Não é a primeira vez que o hacking marca presença num jogo (Deus Ex: Human Revolution tinha hacking, mas era apenas um mini-jogo), mas nunca antes assumiu um destaque tão grande, ao ponto em que se traduz em mecânicas que alteram a forma como jogamos. Este é um jogo em mundo aberto com mecânicas de um third-person shooter. À primeira vista até é muito parecido com o supra-sumo dos jogos em mundo aberto (Grand Theft Auto é claro), contudo, basta começar a jogar e a aprender a usar positivamente as mecânicas para perceber que estamos perante algo diferente. De um modo cru poderia descrever Watch Dogs como "GTA com hacking", mas a verdade é que a Ubisoft criou um jogo único e com potencialidade para se tornar maior e melhor no futuro.

O prazer de jogar torna-se maior se pensarmos como um hacker. Em vez armar uma confusão e ter que andar a escapar de balas a voar em todas as direções, porque não tentar ser discreto e analisar a situação? Há várias câmeras situadas pela cidade a que podemos aceder para ganhar uma perspectiva mais abrangente da área onde estamos inseridos. Utilizando estas câmeras, podemos detectar se os inimigos têm vulnerabilidades. Apontando a câmera para eles podem descobrir que alguns transportam explosivos que podem ser activados no nosso smartphone. Se estiverem perto de uma caixa de eléctrica, podemos sobrecarregá-la e explodi-la. Até podem interromper as comunicações para impedirem que sejam chamados reforços.

Como hacker, Aiden Pearce tem ainda a habilidade de criar itens para o ajudar a fugir de situações indesejadas ou para atrair os inimigos para as suas armadilhas. Um dos itens permite mandar temporariamente a luz abaixo no quarteirão da cidade onde nos encontramos, extremamente útil se quiserem fugir. O meu preferido são os iscos, pequenos dispositivos que emitem sons e que os inimigos, inocentemente, tentam localizar até que caiem presas das nossas armadilhas. Com todas estas habilidades, Pearce é capaz de fazer frente a uma dúzia de homens armados e treinados militarmente. A polícia também pouco consegue fazer nos níveis de perseguição mais baixos, mas se magoarem cidadãos suficientes, eventualmente terão que enfrentar um helicóptero e a fúria de vários SUVs a esmagarem o vosso veículo.

Watch Dogs não é apenas um jogo de stealth, também funciona como um shooter tradicional na terceira pessoa. Por vezes torna-se uma necessidade enveredar por esta faceta, quando somos detectados e temos que abandonar o stealth. O jogo é competente de qualquer uma das formas de jogar, mas Pearce só aguenta sobreviver alguns segundos exposto aos tiros. É um modo subtil dos produtores dizerem que devem, sempre que possível, evitar confrontos diretos. Como último recurso para estas ocasiões, há uma habilidade desbloqueável para abrandar o tempo, ao estilo de Max Payne.

"É este conceito de interactividade, da possibilidade de hackear os sistemas que controla a cidade, que torna Watch Dogs numa proposta interessante."

Não é um exagero dizer que a cidade está à nossa mercê, não apenas porque controlamos vários dos seus sistemas, mas também devido à completa inexistência de privacidade. Basta aceder ao detetor de perfis e Aiden Pearce consegue aceder aos dados armazenados no ctOS de qualquer pessoa ao seu redor. Numa questão de segundos descobrimos quanto uma pessoa ganha anualmente, a sua idade e outras informações curiosas, que podem variar entre algo inofensivo e algo extremamente privado. Em alguns casos em particular, podemos ir mais longe e aceder à conta bancária dessa pessoa e roubar o dinheiro. Ações como esta colocam Aiden Pearce no limbo. Afinal é um justiceiro ou apenas alguém que se preocupa consigo e com os seus, sendo capaz de más ações para os proteger?

Creio que a resposta mais acertada será esta última, embora por vezes Aiden Pearce também se comporte como um justiceiro. Além das missões principais, em Watch Dogs há missões secundárias em que temos de apanhar criminosos e derrubar os esconderijos de gangs. Por isso, o jogo quer que Aiden Pearce seja um justiceiro, embora seja possível contrariar este desejo. Há uma espécie de barra de Karma semelhante à que encontramos em inFamous e que funciona da mesma forma. Boas ações dão-nos pontos positivos e levam os cidadãos a gostar de nós, as más ações têm o efeito contrário. Não há muitas oportunidades para más ações, o máximo que podem fazer é atropelar pessoas. Parece que roubar carros e fugir à polícia em nada afeta o karma.

Embora por vezes justiceiro, Aiden Pearce está na realidade à procura de vingança. Do início ao fim está obcecado em encontrar o responsável pela morte da sua sobrinha, que viajava consigo de carro quando foi atacado pelos seus inimigos, resultado dos seus ataques informáticos a pessoas perigosas, poderosas e influentes de Chicago. É partir daqui que o jogo começa e posteriormente se desenvolve. Para encontrar a informação que procura, Pearce terá que magoar outras pessoas e invadir várias das estruturas da cidade. Pelo meio, ficamos a conhecer o sub-mundo de Chicago, envolvido em tráfico humano, de armas e outras actividades ilegais que ficam para as missões secundárias.

"Não é um exagero dizer que a cidade está à nossa mercê, não apenas porque controlamos vários dos seus sistemas, mas também devido à completa inexistência de privacidade."

Se no início o hacking torna o jogo mais apelativo e encoraja a pensar em formas alternativas de escapar às situações, a meio já predomina a sensação de que todas as possibilidades da jogabilidade já foram esgotadas e dificilmente voltarão a ficar surpreendidos. Para contornar ligeiramente este efeito, a Ubisoft apostou na subida de níveis e na progressão de habilidades. Ao subirem de nível vão ganhar pontos para gastar na árvore de habilidades, que abrange a parte do hacking mas também as capacidades de Aiden na condução, combate e criação de itens. Destas habilidades desbloqueáveis, as do hacking são essenciais e revelam-se úteis, as outras estão mais perto de ser um capricho do que uma necessidade.

Como um jogo de mundo aberto, Watch Dogs cumpre o esperado. Pelo menos, o que espero de um jogo deste género é uma enorme quantidade de coisas para fazer depois de terminar a história ou para intercalar com as missões principais. Não sei ao certo quando tempo demorei a terminar as missões principais (o jogo não dá essa informação), mas posso assegurar que o não falta depois são objectivos adicionais. Para chegar aos 100 porcento terão que completar as missões secundárias, em maior quantidade do que as missões da história, terminar todas as investigações, participar em mini-jogos malucos (um deles coloca-nos num carro infernal a recolher almas) e apanhar todos os colecionáveis. O mapa de Watch Dogs está recheado de distrações.

E depois há o online. Do que experimentei (confesso que muito pouco) pareceu-me muito divertido e diferente das propostas a que estamos habituados. Como joguei no período pré-lançamento, em que o jogo nem está disponível nas lojas e a Ubisoft ainda está a optimizar determinados aspectos, a experiência online não foi a ideal e não estou apto para abordá-la profundamente. Portanto, pretendemos acrescentar informações adicionais à análise nos próximos dias, quando online ficar povoado com mais jogadores e a funcionar devidamente.

"Como um jogo de mundo aberto, Watch Dogs cumpre o esperado"

Por enquanto, a minha experiência online resume-se a ser invadido algumas vezes enquanto passeava por Chicago. Nestas situações, um tanto semelhantes ao sistema online de Dark Souls, um outro jogador entra sem autorização no nosso mundo. Porém, em vez de entrar num confronto direto, o adversário tem que se esconder (dentro de uma área limitada) e começar a roubar os nossos dados. A nós cabe a tarefa de encontrar o jogador usando detetor de perfis antes que o hack atinja os 100 porcento. No fundo, é um jogo das escondidas. Quanto melhor for o esconderijo, maior será a chance de ter sucesso. Há mais modos para além deste, como as corridas online e o free roaming, mas não experimentei nenhum deles.

Voltando à questão inicial, será que Watch Dogs corresponde às expectativas? Como um jogo apresentando e prometido para a nova geração de consolas, fica uns centímetros abaixo do que estávamos à espera, particularmente quando nos lembramos do que a Rockstar conseguiu alcançar com GTA V. Mas a comparação é injusta. Watch Dogs é um jogo de início de geração e seria impensável que tão cedo teríamos um jogo a roçar a perfeição. As suas falhas são menores, não passam despercebidas mas não também não incomodam muito. E quando digo que Watch Dogs não corresponde às expectativas, não me refiro apenas à parte tecnológica, novos conceitos e ideias são a parte fundamental. Neste aspecto, está encaminhado num bom caminho, alias, é importante sublinhar que temos aqui um jogo que na maioria das vezes é muito bom, mas ainda há potencial para explorar no futuro.

8 /10

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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