Um FPS que perde mais do que beneficia na realidade virtual. Esperava-se melhor de um estúdio interno da Sony.

A realidade virtual permanece uma das tecnologias mais promissoras para o futuro dos videojogos, mas a proeza da tecnologia por si só nunca será suficiente para convencer os consumidores. A tecnologia precisa de um efeito prático, e no caso da realidade virtual, são precisos videojogos que utilizem as vantagens deste novo formato para criar novas experiências. Um dos maiores erros a que tenho assistido em inúmeros jogos para a realidade virtual é a tentativa de converter experiências tradicionais para a realidade virtual, o que raramente resulta. A realidade virtual é uma tecnologia com capacidade disruptiva que obriga a repensar nos videojogos desde o zero, mas não é isso que tem acontecido.

Blood & Truth, dos London Studios da Sony, era uma das maiores promessas de 2019 para o PlayStation VR, mas descobrimos que é mais um jogo que comete o comum erro de enfiar uma experiência tradicional na realidade virtual. O resultado é um FPS em que a única coisa a seu favor é ser um exclusivo para o PlayStation VR, onda a oferta do género ainda não é tão vasta como nas plataformas tradicionais. Se lhe despirmos isto, é mais um jogo entre muitos sem nada de especial a ser destacado. Esperava-se mais de um estúdio interno da Sony, que acima de todos os outros são os que estão melhor posicionados para tirarem partido do hardware da marca.

Blood & Truth quer celebrar os filmes de acção

O jogo da London Studios foi criado com base na experiência London Heist do PlayStation VR Worlds. A ideia do estúdio foi criar um jogo que celebra os filmes de acção clássicos, transformando-se num jogo blockbuster. A intenção é boa, mas as limitações da realidade virtual impedem que esta homenagem alcance o seu pleno potencial. Devido ao potencial da realidade virtual para causar enjoo de movimento, toda a acção é muito mais lenta do que num FPS tradicional. Estaria disposto a aceitar a natureza on-rails de Blood & Truth se isso compensasse as limitações da experiência com ganhos noutras áreas, mas isso não se verifica.

Podes jogar de duas formas: com o Dualshock 4 ou com os PlayStation Move (os controlos recomendados). Experimentamos das duas formas e, embora a Sony diga que é possível com o Dualshock 4, não o recomendamos de todo. Nos primeiros minutos a jogar com o Dualshock 4 encontramos problemas em pegar e largar objectos, piorando drasticamente a experiência. Para trocar para os PlayStation Move, tivemos que reiniciar a aplicação e perder algum progresso já que aparentemente não existe opção para trocar o tipo de controlos a meio. Com os PlayStation Move (um para cada mão) a experiência é muito mais suave, todavia, ainda encontramos ocasionalmente pequenos atrofios na detecção dos movimentos. Isto é particularmente perceptível a apontar as armas. Torna-se frustrante apontar para um alvo que esteja longe.

"Toda a acção é muito mais lenta do que num FPS tradicional"

Frustrante é também a falta de um comando para a nossa personagem se agachar. A movimentação ocorre de cobertura em cobertura carregando simplesmente no botão central do PlayStation Move, mas a personagem só fica abaixada em certas coberturas e não quando queremos. Quando estamos debaixo de fogo, dava jeito uma opção para nos protegermos em vez de sermos um alvo fácil. O que há de positivo na jogabilidade é a atenção dada à sensação de cada arma. Claramente que a London Studio dedicou bastante atenção à individualidade do armamento e isso nota-se. Jogar com cada tipo de arma é uma experiência diferente e ainda é possível adicionar vários acessórios a cada uma, além de algumas opções de personalização.

A história é uma salgalhada

A história de Blood & Truth é contada inicialmente em retrospectiva através de um interrogatório, recordando os eventos que levaram a nossa personagem até àquele momento. A nossa personagem é Ryan Marks, um soldado que regressa a casa (Londres) e cujo o negócio da família (que não consegui perceber do que se tratava, mas claramente dá muito dinheiro) sofreu uma tomada hostil de um tipo chamado Tony. Eventualmente dás por ti a trocar tiros com gangsters em casinos, em arranha-céus e em perseguições nas vias rápidas da cidade. Por várias vezes dei por mim confuso com o que estava a acontecer diante de mim, não percebendo muito bem como a narrativa chegou até ali, mas continuei a jogar até ao fim. O jogo não é longo, terminado em cerca de 5 ou 6 horas no máximo (para ser justo, o preço de Blood & Truth é €39,99, menos do que o habitual).

Tratando-se de um jogo exclusivo PlayStation, está completamente localizado para português de Portugal (tanto em texto como nas vozes). A dobragem para português está longe de ser brilhante, mas razoável o suficiente para não sentirmos a necessidade de trocar para as vozes originais em inglês. Se há coisa a elogiar no departamento do som é a banda sonora. As faixas musicais de Blood & Truth recordam-nos dos temas que passam nos filmes do agente secreto mais famoso do mundo, 007 James Bond, e isso deixou-nos animados. Voltando à questão da longevidade, há vários coleccionáveis nos níveis para apanhar e para o futuro estão prometidos modos de desafio e um New Game Plus.

Um FPS com limitações na jogabilidade

Um jogo vive e morre pela sua jogabilidade, ainda por mais falando de um FPS. A dura realidade é que no caso de Blood & Truth a realidade virtual ultimamente traz mais malefícios do que benefícios. Não podes voltar para trás, as opções de deslocação são limitadas, não te podes cobrir da forma que queres, não há ataques corpo-a-corpo (embora o jogo insista em secções de stealth com pistolas equipas com silenciadores), e toda a acção é limitada a uma lentidão forçada para que não sofras enjoo de movimento (e não é remédio santo já que senti bastante cansaço em todas as sessões). Um jogo que tem que ter tantas limitações para funcionar acaba também por limitar bastante a diversão que podes extrair.

Prós: Contras:
  • Individualidade das armas
  • Banda sonora original
  • Localizado para Português de Portugal
  • Movimentos On-Rails
  • Jogabilidade Limitada comparativamente a um FPS tradicional
  • A história tem um argumento fraco
  • Pouca diversão

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.