Tenho uma confissão a fazer: adoro comida mexicana. Burritos, Guacamole, Tacos, Enchiladas, Fajitas, Tortilhas, Nachos... delicio-me com os paladares fortes e arrojados deste tipo de comida que me alegra e conforta o estômago. O que não sabia ainda era que também adoro jogos mexicanos.

Sei que Guacamelee! 2 não é propriamente um jogo feito no México. Desenvolvido pela DrinkBox Studios, este estúdio está sediado em Toronto, no Canadá, e desde 2008 que se dedica à complicada arte de criar videojogos.

Foi em 2013 que a Drinkbox Studios conseguiu destacar-se com Guacamelee, um jogo de plataformas e acção do estilo metroidvania que aproveita o folclore mexicano. Portanto, não é um jogo feito por mãos mexicanas, mas aproveita tão bem a mitologia do México que facilmente nos enganaria se não soubéssemos onde o estúdio está sediado.

Pegando nas divertidas e comprovadas bases que o primeiro Guacamelee! estabeleceu, a sequela procura melhorar tudo aquilo que foi feito antes. A trama concebida pelos escritores da DrinkBox Studios é perfeita e resultou num jogo que tem uma escala maior e que possibilita colher de forma mais eficaz as peculiaridades da folclore mexicano.

No primeiro Guacamelee! tínhamos que escapar do mundo dos mortos, mas Guacamelee! 2 vai muito mais longe. Sete anos depois da primeira aventura, Juan Aguacate vive pacatamente com a sua mulher e filhos. O efeito do descanso prolongado é imediatamente visível, com uma barriga acentuada, Juan já não tem o portento físico de antes.

Numa reviravolta digna das bandas desenhadas de super-heróis, Juan terá que voltar a colocar a sua máscara de luchador para impedir que um novo vilão, Salvador, destrua o Mexiverse. Para impedir a nova ameaça, Juan terá que viajar por portais para uma série de universos alternativos que mostram as muitas facetas do Mexiverse.

Diversão até ao fim!

O que mais adorei em Guacamelee! 2 é a sua capacidade para surpreender até ao final. É uma sequela e está inserido num género que já foi, e continua a ser até hoje, muito explorado. No entanto, nunca me senti aborrecido, pelo contrário. Enquanto jogava a diversão e o sentimento de surpresa foram constantes. Quando pensamos que já estamos a dominar os controlos e as mecânicas, Guacamelee! 2 apresenta algo novo ainda mais desafiante e que nos obriga a repetir a mesma secção múltiplas vezes.

É, sem dúvida, um jogo desafiante que vai testar constantemente as tuas habilidades tanto em combate como nas plataformas. Todavia, não é exageradamente difícil nem frustrante graças a um sistema de checkpoints generosos que impedem enormes perdas de progresso. Sendo um jogo do género Metroidvania, a complexidade de habilidades e respectivas possibilidades vai aumentando até ao fim. Digamos que inicialmente consegues andar, saltar e pouco mais, mas perto do final poderás realizar saltos duplos, trepar e correr pelas paredes, e até transformares-te em galinha.

As pitadas de humor são constantes e desta vez a Drinkbox Studios acertou na receita. O primeiro foi criticado pela quantidade de referências a Memes. Desta vez, o estúdio apostou em piadas directas e simples que, embora não te coloquem os abdominais a doer de tanto de riso, despertam tímidos sorrisos. O jogo também presta homenagem a clássicos como Street Fighter, Streets of Rage e Sonic. Ainda estou com pena do pobre homem que está sempre a ficar com o carro destruído no bónus stage!

Trocar de dimensão a qualquer momento

Se os desafios encontrados nas secções de plataformas actuam como puzzles e requerem um excelente coordenação de dedos, o mesmo pode ser dito para as secções de combates. Existem inimigos que aparecem com escudos, que só partem se executarem uma técnica específica. Também pode acontecer aparecerem inimigos numa outra dimensão (no início não, mas mais adiante podes alternar de dimensão a qualquer momento), ficando misturados com inimigos na dimensão em que te encontras. Misturando tudo, é uma salgalhada deliciosa para quem gosta de lutas difíceis e de realizar grandes combos.

"É uma salgalhada deliciosa para quem gosta de lutas difíceis e de realizar grandes combos"

Trocar de dimensões é possivelmente a mecânica mais central de Guacamelee! 2 e que permite que a jogabilidade oferece um profundo nível de complexidade que te vai manter bem agarrado até ao final. Para além de teres que trocar de dimensão a meio de combates (caso contrário os inimigos na outra dimensão não sofrem dano), terás que trocar de dimensão a meio do ar em desafios de plataformas que inicialmente poderão parecer impossíveis. Mas há outra utilidade surpreendente desta mecânica que revela a atenção e dedicação da Drinkbox Studios a pequenos detalhes.

Como estava a explicar, podes trocar de dimensão a qualquer momento, o que muda completamente o aspecto visual do cenário. Não é uma mera troca da palete de cores. O cenário muda de facto, apresentando elementos diferentes. Trocando de dimensão vais deparar-te com coisas maravilhosas e até pequenas histórias que te vão amolecer o coração. Recordo-me de entrar numa casa e de falar com uma senhora que explica que não sai dali porque era a casa do pai. Ao trocar de dimensão, a senhora desaparece e encontramos o pai no mundo dos mortos, que nos pede para contar à filha que quer que ela vá viver a sua vida, em vez de ficar ali presa.

São vários os momentos em que saltar para outra dimensão torna a experiência mais valiosa, principalmente quando estás em pequenas vilas em que podes ter pequenas diálogos com as personagens que ali encontras. Não precisas necessariamente de falar com elas, mas o que aconteceu foi que, momentos como aquele que descrevi em cima, encorajaram-me a despender de alguns minutos para conhecer as histórias das personagens que fui encontrando. Quando a Drinkbox Studios fala em Mexiverse, não está a exagerar. Guacamelee! 2 tem mesmo pequenos universos para conheceres.

guacamelee_2_imagem
O estilo gráfico do anterior mantém-se, com um design cimentado em linhas rectas unidas por acentuados ângulos, mas os cenários estão mais detalhados.

Há muitos conteúdos opcionais

Guacamelee! 2 foi claramente pensado para aquele tipo de jogadores que gostam de explorar tudo. Obviamente, és livre de chegar ao fim da história e de nunca mais lhe tocar, mas estarias a desperdiçar uma parte considerável do jogo. Não fosse este um jogo do género Metroidvania, só perto da recta final da história é que estarás na pose de todas as habilidades para poderes ultrapassares todos os obstáculos do cenário e explorar todos os recantos escondidos.

"Foi claramente pensado para aquele tipo de jogadores que gostam de explorar tudo"

É nestes recantos escondidos, que não podias alcançar da primeira vez que passaste lá, que vais encontrar os desafios mais difíceis. Para explorares todos os níveis a 100 porcento, vais precisar de umas horas adicionais. O tempo em concreto dependerá da pessoa e da necessidade de repetir certas secções. No meu caso, demorei cerca de 14 horas para chegar ao final da história, o que já inclui tentativas falhadas de desafios e algum tempo gasto a explorar secções opcionais.

O que ainda não referir é que, desde início, podes jogar em modo cooperativo com suporte para quatro jogadores em simultâneo. Este modo cooperativo é exclusivamente local, ou seja, as pessoas têm que estar fisicamente ao teu lado para poder jogar. Jogar com uma pessoa ao nosso lado é sempre uma experiência mais valiosa, mas também devia existir uma opção para jogar em modo cooperativo online. O modo cooperativo é completamente opcional e podes completar tudo a 100 porcento sozinho e sem ajuda.

Um jogo para quem adora Metroidvania, humor e diversão

Guacamelee! 2 é um excelente jogo do género Metroidvania que vai dar aos fãs tudo aquilo que procuram e ainda mais. Por muito jogos que tenhas jogado do género, provavelmente ainda vais ficar surpreendido com que Guacamelee! 2 tem para te uma oferecer. É uma sequela no verdadeiro sentido da palavra, continuando a história do anterior e levando a fórmula a novos limites. Triunfa sobretudo nas secções desafiantes de plataformas, que ultimamente nos obrigam a usar todas as possibilidades da jogabilidade para ultrapassá-las, e pelos combates frenéticos com brutais golpes importados do lucha libre. A história tem pitadas conscientes e cuidadas de humor, sem nunca cair em momentos de vergonha alheia. Tal como um Burrito, é uma grande mistura, mas delicioso e confortante.

Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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