Uma sequela agridoce, com alguma frustração pelo meio, mas que volta a primar pela caricatura hilariante da cultura portuguesa.

Uma sequela de um jogo português... sabe bem viver numa realidade em que é possível presenciar um momento destes. A indústria dos videojogos em Portugal tem registado um crescimento nos últimos anos e para o comprovar basta visitar os vários eventos que se têm organizado anualmente, como a edição de Maio do Eurogamer Portugal Fest, em que podemos constatar que, além do crescimento em quantidade, a qualidade dos jogos feitos por cá tem aumentado. No entanto, as sequelas ainda são de uma extrema raridade e enquanto portugueses não conseguimos deixar de sentir um pouco de orgulho, ainda por cima de um jogo que consegue captar tão bem o estilo e a cultura portuguesa.

Um dos estúdios que melhor tem conseguido navegar no mar de incertezas que continua a ser a indústria portuguesa dos videojogos é a Nerd Monkeys. Sediado em Lisboa, o estúdio lançou em 2014 o seu primeiro jogo: Inspector Zé e Robot Palhaço em: Crime no Hotel Lisboa. Quatro anos depois eis que temos em mãos a sequela, chamada de "O Assassino do Intercidades". É uma aventura dentro do mesmo estilo do primeiro, que mantém os traços de um point-and-click, mas que tenta expandir e melhorar o que foi feito antes. Também continua a ser um jogo bastante terra-a-terra, com gráficos retro e pixelizados catitas, mas que não vão satisfazer quem procura algo mais tecnicamente elaborado.

Depois de resolverem o seu primeiro caso, o Detective José Justino e o seu Robot capaz de coisas incompreensíveis são surpreendidos pelo Sargento Garcia com um novo mistério para resolver: encontrar o responsável pelos assassinatos que estão a acontecer no Intercidades entre o percurso Lisboa-Porto. O comboio e as suas carruagens são o palco principal para esta aventura portuguesa. As carruagens pelas quais podes passar e explorar não são muitas, mas cada uma delas está ocupada por personagens caricatas e que representam de forma exagerada o tipo de pessoas que ainda hoje podemos encontrar na sociedade portuguesa: os fanáticos do futebol, velhos caquécticos, o pessoal dos festivais, académicos já com uma idade avançada, empresários especialistas em falcatruas fiscais, e aquele tipo que fuma umas coisas e tem a atitude mais relaxada possível.

"O comboio e as suas carruagens são o palco principal para esta aventura portuguesa"

O interesse de um point-and-click nunca vem propriamente da jogabilidade. É fácil olhar para este género com desdenho porque, ultimamente, tudo se resume a apontar e a clicar, tão fácil que podemos jogar do princípio ao fim só com a mão no rato. O Assassino do Intercidades não escapa a este estigma, mas tal como o primeiro jogo, a magia está noutro lugar. Os diálogos são brilhantes e foram várias as ocasiões em que dei por mim a sorrir ou mesmo a libertar uma gargalhada inesperada. Há pormenores deliciosos para quem é português, desde trocadilhos parvos a uma grande quantidade de piadas enraizadas na nossa cultura. Nada disto será propriamente novidade se jogaram o primeiro Inspector Zé, mas continuam a ser méritos bem patentes nesta sequela.

Dentro do intercidades terão que vasculhar muito atentamente cada carruagem em busca de evidências para encontrar o misterioso assassino. Há que enfatizar bem a palavra "atentamente" porque é inacreditável a quantidade de coisas que a Nerd Monkeys conseguiu esconder em quatro carruagens (e uma divisão extra que é o quarto de banho excessivamente luxuoso dos viajantes da primeira classe). Existem duas carruagens de segunda classe, uma carruagem bar e por último a carruagem de primeira classe, rapidamente distinguível das outras pelo champanhe, mesa de bilhar e candelabros. Nestas carruagens estão todas as pistas que necessitam para interrogar os suspeitos e encontrar o temível assassino do Intercidades.

Encontrar as pistas não é propriamente fácil. Como estava a explicar, o estúdio escondeu de forma habilidosa uma grande quantidade de coisas nas carruagens e vais precisar de olhos de falcão para encontrar tudo. A regra geral é que para cada suspeito precisas de encontrar primeiramente três pistas antes que o possas interrogar. Embora a maioria dos objectos para encontrar seja isso mesmo, um objecto único, existem duas pistas que foram transformadas numa espécie de coleccionáveis não-opcionais. O que isto significa em concreto é que terás de encontrar um conjunto de 12 bigodes postiços e 29 dentes pertencentes a uma dentadura de um velhote.

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A Pixelart de Inspector Zé está ainda melhor na sequela. Todos os cenários têm excelentes pormenores.

Para chegar ao final do Assassino do Intercidades tive que passar vezes sem conta de carruagem em carruagem, examinando atentamente todos os pixels suspeitos na esperança que fosse mais um dente para a dentadura. Os dentes são pequenos objectos brancos e muitas vezes confundem-se com o cenário. Os primeiros são fáceis de encontrar, mas confesso que na recta final, quando já só faltavam quatro ou cinco para ter o conjunto completo, já estava frustrado. Não tenho nada contra objectos coleccionáveis, mas neste caso, além de não ser algo opcional, parece uma forma forçada de prolongar a longevidade do Assassino do Intercidades. Demorei cerca de 5 horas a chegar ao fim e uma parte considerável foi a encontrar dentes para uma dentadura. Também existem cinco cassetes escondidas pelo cenário, das quais encontrei uma, mas felizmente essas são opcionais.

O foco exagerado nos coleccionáveis e o final abrupto, que surgiu quando pensava que ainda faltava um pedaço para chegar ao final, acabam por manchar O Assassino do Intercidades. De outra forma, esta sequela seria exemplar. Foram introduzidas uma pequena quantidade de sidequests simplistas mas engraçadas e que combinam na perfeição com o tipo de humor no jogo, e os puzzles exigem que prestem bem atenção aos pormenores e à descrição dos objectos espalhados pela carruagem. As próprias interrogações aos suspeitos são tramadas, nas quais temos de corresponder um objecto a uma de três perguntas. Em muitas vezes as perguntas são parecidas e a diferença está em pequenos trocadilhos que facilmente nos enganam.

Apesar de tudo, há diversão em Inspector Zé e Robot Palhaço em: o Assassino do Intercidades e enquanto jogava fiquei impressionado com a atenção a pequenos pormenores. Não é uma produção de larga escala, mas nota-se que a Nerd Monkeys tratou do projecto de forma atenciosa e carinhosa. A diversão é interrompida por um foco inesperado em coleccionáveis cuja recolha se torna frustrante e aborrecida, mas se gostaste do primeiro Inspector Zé, das personagens e do humor e piadas sempre presentes, é precisamente isso que vais encontrar na sequela. Para todos os efeitos, é uma sequela do jogo mais português de sempre e algo a ter em conta para quem dá valor à cultura portuguesa.

Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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