Hatred utiliza a violência extrema para esconder que na realidade é um jogo mau sem nada de especial para oferecer.

Desde a sua revelação até ao lançamento que Hatred esteve sempre rodeado de controvérsia, em grande parte devido à violência expressa e ao tema, que se resume a um sociopata que odeia o mundo e está decidido a matar o maior número de pessoas possível. É verdade que há imensos casos de jogos extremamente violentos, mas parece-me que o problema de Hatred está na forma crua como é apresentando. Embora jogos como Grand Theft Auto permitam actos de violência exagerada (quem nunca pegou num carro e decidiu atropelar todas as pessoas no passeio?), tais acções não são promovidas pela Rockstar. Mortal Kombat também contém doses exageradas de violência, mas em nenhum momento somos encorajados a matar inocentes.

É por isso que Hatred tornou-se tão problemático, é um jogo de violência pura e não-justificada. É uma glorificação aos assassinos em massa e forma perversa de usar os videojogos como um meio para transmitir uma mensagem de ódio. Mas não é por causa disto que Hatred é efectivamente mau. Este jogo deve ser evitado pois além de se tornar rapidamente aborrecido, não tem uma história cativante para contar. É uma oportunidade desperdiçada. Seria fascinante ver como a mente de um sociopata funciona e descobrir a origem de todo o ódio, mas em vez disso a Destructive Creations optou pelo caminho fácil e cobriu o jogo de violência e nada mais para gerar controvérsia e usar isto como uma campanha de marketing.

Não há muito para dizer acerca de Hatred. É curto e utiliza a mesma fórmula básica do princípio ao fim. No início dos níveis a nossa missão é matar os inocentes até que as forças policiais ou militares apareçam; depois resta matar as forças da lei e prosseguir para o próximo nível. A campanha é constituída por sete missões. Se forem rápidos o suficiente, podem chegar ao final em cerca de três horas. Apesar da curta longevidade, Hatred não é uma daqueles casos em que é curto mas a diversão é constante, pelo contrário, é pequeno e constantemente um tédio.

Hatred tenta passar um ar de mauzão e chocar com as execuções das pessoas que têm o azar de cruzar com o protagonista de longos cabelos pretos e de casaco comprido, mas falha miseravelmente. Apesar de cenas em que a personagem rebenta com a cabeça de inocentes com um caçadeira ou apunha-la vezes sem contas pessoas indefesas no chão, não fiquei chocado nem traumatizado. É fácil perceber porquê, a próprio violência precisa de um contexto para ser eficaz. Se chocar era o que Hatred queria fazer, seria melhor criar uma cena dramática e prolongada em que apenas tiramos a vida pessoa do que disparar para cem pessoas aleatórias no meio da rua. Querem um exemplo? A cena de tortura de Grand Theft Auto V, que consegue chocar mais do que Hatred na sua íntegra.

Portanto, nem na violência Hatred consegue destacar-se de outros jogos, e sem isto, nada lhe sobra. Não prima pela estética pois é tudo a preto-e-branco (com a excepção do sangue que sobressai com a sua cor encarnada) e há momentos em que esta escolha de tonalidade de cores pode se tornar confusa, como no nível dos esgotos, em que é difícil distinguir os obstáculos. A jogabilidade funciona, mas não sem falhas. Várias vezes encontrei problemas em subir pequenos degraus, o que nem sempre conseguia à primeira. Quanto estamos a tentar fugir das balas e ficamos presos num local por causa disto, torna-se frustrante.

A mecânica de matar inocentes está entranhada na jogabilidade, sendo uma necessidade para chegar ao fim. Chacinar pessoas indefesas no chão é a única forma de ganhar vida, e como estamos sozinhos contra dezenas de inimigos, torna-se vital recorrer a esta prática. Após os primeiros minutos, tirar vidas torna-se tão banal que já nem pestanejamos. A diferença de Hatred em comparação a outros shooters é que existe constantemente a oportunidade de disparar contra inocentes, mas não é pioneiro neste aspecto. Há alguns anos atrás, Call of Duty: Modern Warfare 2 causou polémica semelhante com o capítulo da história "No Russian", uma chacina num aeroporto.

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O protagonista não podia ser mais banal.

"Hatred não passa de um shooter banal e genérico."

Desmascarado, Hatred não passa de um shooter banal e genérico. Podem disparar, ajoelharem-se para se protegerem (não há sistema de cobertura, mas dava jeito) e escolher entre várias armas como metralhadoras, caçadeiras, pistolas e lança-chamas, portanto, não há nada de novo para descobrir. Se o vosso desejo é magoar e ver pessoas a morrer, até Grand Theft Auto é uma melhor escolha pois tem mais opções e permite mais criatividade neste sentido, a diferença é que a Rockstar não se gaba disso nem centrou a campanha de marketing em polémica.

No fim, Hatred não me faz sentir ódio, mas antes pena. Pena que a Destructive Creations tenha preferido colocar a controvérsia em primeiro lugar e a qualidade do jogo em último. É verdade que podem existir jogos que ao mesmo tempo são polémicos e bons, mas no caso de Hatred, limita-se a ser polémico e mau. Se ainda assim estão com vontade de jogar, fica o aviso que há problemas de desempenho severos nas placas gráficas e processadores da AMD, e reduzir a qualidade gráfica pouco ou nada ajuda para resolver este problema.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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