DuckTales Remastered - Análise

O renascimento de um clássico.

Existe algo de particular na simplicidade, quem cresceu com os videojogos na era dos 8 bit sabe-o bem. Na altura não importava que a ação se movesse linearmente da esquerda para a direita, ou que a personagem principal tivesse apenas duas animações. Para eles, o interesse estava no essencial, os valores de produção eram um palavrão sem significado, tudo o que importava eram as cores, os sons, e a diversão. Nesses tempos os jogadores habituaram-se a algo impossível nos dias de hoje, não a apreciar a simplicidade, isso continua uma característica amplamente humana, mas a completá-la com a sua imaginação.

Para quê ter mil elementos no ecrã se eles apenas me distraem do essencial? Nesses tempos a dificuldade era sinónimo de valor de repetição, conceitos como imersão ou flow não existiam, interagir com as coisas no ecrã era mágico, nós tínhamos o poder, e isso era imersivo o suficiente. Claro que os tempos são diferentes, e a razão por que digo isto tem a ver com a luta interna que tive ao jogar para análise esta versão remasterizada do clássico Ducktales, um dos títulos mais adorados da saudosa Nintendo Entertanment System.

Uma primeira palavra de parabéns à Capcom, que respondeu à vontade dos fãs e permitiu que este projecto avançasse, em segundo ao estúdio WayFoward que demonstrou respeito pelo jogo, pelas memórias dos jogadores, e ao mesmo tempo por aqueles que o vão jogar pela primeira vez. É particularmente difícil conseguir um distanciamento necessário para uma análise de um jogo que aponta claramente à nostalgia, Ducktales Remastered não procura desbravar novos caminhos ou testar novas mecânicas, mas revisitar antigas emoções.

Confesso que não cumpriu todas as minhas expectativas, mas é esteticamente surpreendente, e no geral, consegue captar o fundamental do que o celebrizou como um clássico. Os níveis sofreram ligeiras alterações ao seu formato original, principalmente para lhe acrescentar um pouco de flexibilidade e enquadramento, não é uma experiência tão constrangida como a sua versão original, e oferece ainda um prólogo jogável, sim porque nos dias de hoje é quase obrigatória a inclusão de um "tutorial", desenhado para apresentar as personagens e mecânicas principais.

O protagonista é o Tio Patinhas, mas o jogo conta com a presença de vários personagens marcantes da Disney, desde os três sobrinhos, Huguinho, Zézinho e Luisinho, Leopoldo, o professor Pardal ou a Maga Patalógica para dar alguns exemplos. Sendo um título com a marca Ducktales o capitão Boeing marca também presença em todas as missões, uma injeção de nostalgia que me recordou o "O tesouro da lâmpada perdida", um filme que vi centenas de vezes quando era criança.

Todas as personagens tiveram direito a um design e animações atualizadas, oferecendo um estilo "toon shading" cheio de cor e personalidade que simplesmente não eram possíveis na época. Mais uma vez, isso não era o essencial. As vozes e músicas também foram atualizadas, as primeiras contaram com as performances dos atores originais, que sinceramente se devem ter divertido quanto baste tendo em conta o tom cómico do script. E as segundas estão suficientemente autênticas e ao mesmo tempo familiares para marcar aquele tom muito "anos 80".

O tal nível de entrada retrata mais uma tentativa de assalto orquestrado pelos irmãos metralha à conhecida caixa-forte do Patinhas, mas rapidamente a aventura se desenvolve de um assalto para uma caça ao/s tesouro/s, não fosse isto um jogo Ducktales. É nesse momento que percebemos a ligeira alteração de design promovida para esta versão, que vai no sentido de oferecer maior flexibilidade aos jogadores para escolher a ordem com que preferem enfrentar os níveis.

O interior destes também foi adaptado no mesmo sentido, temos sempre que encontrar um determinado número de colecionáveis espalhados por cada quadro para desbloquear o boss final, e pelo caminho ainda existe o encontro com diversas personagens conhecidas. É esteticamente variado como se lembrarão, desde a Transilvânia, as florestas da Amazónia ou o interior de uma nave espacial na lua, com a companhia de antagonistas de nomes curiosos como o conde Dracula Duck, really? Os controlos mantêm-se iguais, embora o célebre salto em cima da bengala tenha sido simplificado, não temos mais que pressionar o D-pad para baixo na altura certa.

O jogo retira frequentemente o controlo da ação ao jogador para as fases de diálogo entre as personagens, mas o que nos jogos modernos seria tão criticável, neste caso é agradável tendo em conta o tom leve e cómico nestes momentos de enquadramento. Não há nada a dizer em relação à história, segue a linha dos comics, com o típico ataque serrado à Nº1, um arqui-rival do Patinhas cujo aparecimento é tudo menos surpreendente, e finalmente um momento em que se demonstra que afinal, o forreta tem coração.

"É uma aventura curta, que vale muito mais pela viagem do que pelo destino final"

É uma aventura curta, que vale muito mais pela viagem do que pelo destino final, e que é penalizador se jogado pelo menos no nível Normal de dificuldade, ao ficar sem vidas temos que repetir o nível novamente desde o início, e se os primeiros são canja, os dois últimos são capazes e demonstrar aos novos jogadores o significado da palavra "frustração". As mecânicas de plataformas são assentes em execução, evitar obstáculos, saltar sobre os inimigos com a bengala, efetuar saltos duplos para atingir objetivos mais elevados, perceber a ordem de ativação de interruptores, enfim, são desafios que aprendemos a dominar pela repetição.

O principal problema que tive com a remasterização tem a ver com a física dos saltos, essa sim, merecia um trabalho mais cuidado. Se na altura nos adaptávamos porque aquilo era tudo o que havia, hoje a falta de fluidez dos controlos é estranha tendo em conta todo o trabalho que a equipa de produção teve para adaptar Ducktales aos tempos modernos. Parece demasiado rígido o salto, havendo apenas um ângulo possível, isso não teria mal nenhum, se visualmente não parecesse que estamos a embater com uma parede invisível, há qualquer coisa ultrapassada no "feel" dos controlos. Quando isto nos faz perder aquela última vida o comando passa a correr sérios riscos.

Durante os níveis apanhamos diamantes um pouco por todo o lado, que representam dinheiro para depois gastar numa montanha de extras, arte do jogo, personagens, músicas, e até imagens retiradas da série televisiva são o que vos fará repetir a aventura. Não posso deixar de referir o pormenor de podermos mergulhar e nadar na fortuna do Patinhas dentro da caixa-forte, durante o jogo é lá que descansam os coleccionáveis, mas isso não tem importância nenhuma, eu vou repetir, podemos MERGULHAR e nadar na fortuna do forreta, quantas vezes fantasiaram com isso ao ler a banda desenhada?

O jogo é curto, depois de decorados, os sete quadro, pode ser terminado em menos de duas horas sem grandes problemas, mas o seu preço é correspondente e por isso não existem razões para não o experimentar. É previsível que estas remasterizações de clássicos de outras épocas se tornem cada vez mais frequentes, existe um grande interesse na comunidade gamer por estas injeções de nostalgia, e os videojogos obedecem à lei básica da economia em que a oferta se acaba por ajustar à procura. Resta-me terminar a dizer, "now gimme Flashback".

8 /10

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Sobre o Autor

Aníbal Gonçalves

Aníbal Gonçalves

Redator

MMOs e RPG são com o Aníbal. Aliás existe um rumor na redação que a sua primeira casa é o World of Warcraft. Mas às vezes também o vemos a fazer uns exercícios. Não é mau de todo.

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