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Assassin's Creed: Origins - Análise

Os poetas da morte.

Origins pega no seu ADN e converte-o para mundo aberto, resultando no mais divertido jogo da série.

Assassin's Creed: Origins está finalmente quase a chegar e depois de tropeçar na escalada pela ambição, a série da Ubisoft olhou para o passado para pensar no futuro. Numa era de híbridos que moldam mecânicas ou funcionalidades consagradas em outros géneros, a série Assassin's Creed não mais podia arriscar e viver no seu casulo, precisava olhar para o que de melhor se faz na indústria e quais as tendências mais aclamadas. A Ubisoft assim o fez e converteu o seu jogo de acção e aventura num jogo de acção e aventura em mundo aberto com mecânicas e sistemas RPG: o resultado é um híbrido que pode ser descrito como uma espécie de RPG de acção. O termo híbrido é melhor, especialmente porque se torna mais fácil comparar Origins a outros filhos desta actual indústria que começaram a surgir.

Com Syndicate, a série aproximou-se perigosamente da actualidade (um tema altamente controverso na série), o que motivou a Ubisoft a olhar na direcção oposta ao que vinha a fazer. Ao invés de avançar no tempo a cada nova entrada, a equipa responsável por Assassin's Creed decidiu recuar no tempo, até à origem do credo dos Assassinos. Muito antes da luta entre os assassinos e os templários, muito antes de Altair, mas sempre com as consequências dos actos de Desmond Miles em mente. Muitos dos alicerces da série Assassin's Creed já estavam estabelecidos e ao recuar no tempo, a Ubisoft precisava na mesma respeitar muito do que já havia sido revelado em jogos anteriores, mas esta história de origem está bem conseguida.

Bayek é um Medjai de Siwa, uma pequena localidade no Norte do Egito Antigo, onde protege os habitantes dos animais selvagens e dos bandidos. Bayek e Aya, a sua mulher, estão habituados a defender o povo, mas apenas agem como os protectores da sua aldeia. Após alguns eventos trágicos, Bayek e Aya tornam-se protectores de todo o Egito, começando uma caça contra a Ordem dos Anciãos, o grupo que milénios mais tarde resultaria na Abstergo. A história de Bayek e Aya decorre antes de existirem Assassinos, antes da adaga escondida, antes de sequer imaginarem que um grupo de benfeitores teria de agir nas sombras e escondidos do mundo, para libertar o povo das garras dos opressores sedentos de poder. Repleta de momentos intensos e com dois protagonistas carismáticos, Origins consegue uma das melhores tramas na série, especialmente porque o jogo de bastidores é ainda mais enigmático no Antigo Egito.

Nesta passagem para mundo aberto, feita com grande naturalidade pois a série já decorria em ambientes de larga escala, a Ubisoft aposta numa narrativa forte e intensa, que tal como é habitual, combina história real com fantasia, de uma forma fascinante e que te deixará a pesquisar por mais informações sobre o que aconteceu na vida real. No entanto, o mundo aberto é o grande destaque e ao invés de seguir os controversos moldes da série, a Ubisoft olhou para o que outros jogos recentes de sucesso fizeram. Ao construir um mundo aberto de incrível escala, a Ubisoft decidiu tornar a exploração do misterioso o seu maior incentivo. À semelhança de Breath of the Wild, desde as primeiras horas que o podes percorrer livremente e sem restrições, sem qualquer indicação do que está à tua frente. Sim, existem os pontos de sincronização, mas não revelam nada do mapa. Apenas fortalecem a tua relação com Senu, a águia que dos céus te revela pontos de interesse e objectivos.

"Um jogo de acção e aventura combinado com um action RPG em mundo aberto com tudo o que esperas de um Assassin's Creed, assim é Origins."

Em Origins, tens mesmo de explorar o mundo e passar pelos locais para revelares o que se esconde ali e ficarem afixados no mapa. Caso contrário, o único indicador que terás é um ponto de interrogação na tua bússola, não no mapa. É uma forma que a Ubisoft encontrou de quebrar com a estrutura tão criticada das suas séries. Acabou-se o aceder ao ponto, revelar tudo o que há para fazer na área e "limpar a zona" como se fosse uma tarefa. Aqui a exploração é a palavra de ordem e só quando exploras é que descobres os diversos segredos do Egito Antigo, como túmulos com muito tesouro. Existem locais imensos que vais explorar sem qualquer indicador para onde ir ou onde estão possíveis segredos, o que os torna ainda mais interessantes.

Como referi, a série transitou para mundo aberto sem qualquer esforço e além de ganhar novo vigor nessa aposta, pegou em elementos de vários jogos consagrados para formar a sua experiência. Se a sensação de explorar o misterioso de Zelda: Breath of the Wild inspirou ou motivou a equipa na Ubisoft não sabemos, mas que frequentemente fiquei com a sensação de uma experiência que procura valores similares, fiquei. Por outro lado, Origins assume-se mais como um jogo de acção e aventura com elementos RPG em mundo aberto. Algo com o qual os jogadores facilmente se relacionam. É um tipo de híbrido que começa a tornar-se popular na indústria. No caso da Ubisoft, com tantas equipas e tantas propriedades intelectuais, a equipa de Origins bastava olhar para dentro da companhia para encontrar inspiração.

É o que parece ter feito no sistema de combates, tão criticado pela sua simplicidade e monotonia. Talvez inspirado por For Honor e nos RPGs de acção, Origins torna cada combate numa espécie de duelo e deita fora aquele jogo de ritmo onde o botão de contra-ataque era o único que existia. Este novo sistema é muito mais castigador, muito mais intenso e muito mais divertido. Esquivar é uma regra básica de sobrevivência, tal como respeitar o nível dos adversários, existem novas mecânicas para contrariar inimigos com escudo, diferentes tipos de inimigos e até especiais relacionados com a barra de adrenalina e os diferentes tipos de armas. Os combates são mais intensos, mais brutais e fico grato por isso. Vais perder muitas vezes, vais arriscar muitas vezes, vais experimentar diferentes armas diversas vezes, mas acima de tudo ficarás com respeito deste sistema de combate

Especialmente porque se encaixa mais num tom de RPG. A câmara é livre mas nos combates permite-te fixar a mira no adversário e transformá-los em duelo, de tom mais intenso. Sentirás que, especialmente contra os bosses, que o erro é pago a alto custo, sentirás que não queres errar e sim acertar no timing das esquivas. Sentirás que uma arma diferente poderia resultar melhor, que aquele arco que funciona melhor ao perto seria mais indicado para este brutamontes que avança na minha direcção com aquele escudo que o protege. Origins fascinou-me com o seu sistema de combates, muito mais brutal e divertido que tudo o que foi feito antes na série, mesmo que ainda precise de alguns ajustes e optimização. Apenas alguns retoques nas animações e resposta dos controlos e fica no ponto ideal. Seja nos combates ou em praticamente tudo o que tu fazes, receberás XP para subir de nível, um conceito ao estilo RPG que molda toda a experiência que terás em Origins.

Neste novo híbrido, existe toda uma economia e sistema de loot vindo directamente do género RPG, até cada zona tem o seu nível recomendado, para que saibas onde te metes. Mas é possível ir para uma zona de nível 40 logo na primeira hora de jogo, tu decides o que fazer, seguir o enredo é opcional, divertires-te é obrigatório. O sistema de combate assenta na subida de nível, aquisição de melhores armas (comuns, raras ou lendárias) com perks especiais dependendo da sua classe, melhores escudos, melhores arcos, ou até melhores itens de suporte (algo que consegues com o sistema de crafting). Explorar os túmulos altamente simples mas de atmosfera deslumbrante é altamente recomendado e o melhor que podes fazer é deixares-te perder no Egito Antigo. A procura por melhor loot está integrada de forma natural na experiência de jogo e até tens reforçados incentivos para assaltar acampamentos de inimigos.

"Origins é garantidamente um jogo Ubisoft, mas mostra a companhia no seu melhor."

A Ubisoft parece ter olhado para as suas principais séries para pegar no que de melhor fizeram e elevar Origins a um novo patamar de qualidade dentro das suas produções internas. A experiência é fluída, o mundo enorme e impressionante, com algumas tarefas expectáveis dentro da série (e do que é basicamente um produto Ubisoft), mas ainda assim divertidas. As horas passaram a voar enquanto jogava Origins, com total sensação de liberdade e sempre encantado com a exploração do misterioso. A qualquer momento pode surgir uma inesperada missão secundária (a boa parte delas nem surge no mapa, apenas quando passas perto dela, tal como na grande maioria dos marcos) com mais XP e situações que exploram o Egito Antigo e a sua cultura. Origins poderá ser um jogo fascinante. Tens até lutas de gladiadores e corridas nas grandes arenas como actividades opcionais.

Origins é um jogo altamente ambicioso, já o disse anteriormente e não me canso de repetir. É um jogo que combina tudo o que conheces da série Assassin's Creed e o transporta para uma estrutura em mundo aberto, livre de explorar sem restrições (além do nível dos inimigos que te fará fugir muito do tempo passado a explorar locais muito acima do teu nível). Enquanto tentas teimosamente completar missões de nível muito superior ao teu (consegui completar uma missão de nível 38 a nível 32), conhecerás um mundo surpreendentemente variado e belo. Provavelmente ficarás como eu, com aquela vontade que só esta série consegue e pesquisar num livro ou na internet até que ponto foram fieis na recriação deste mundo. Poderás ficar surpreendido.

Origins é um jogo belo e será fácil ficar deslumbrado com os diferentes efeitos climatéricos, especialmente com o seu dinamismo e a chegada das tempestades de areia, com os efeitos de iluminação ou o nível de detalhe em alguns personagens. As construções do Antigo Egito podem surpreender com a sua estética tão característica e com a quantidade incrível de pormenores que foram colocados nos edifícios mais detalhados. Ao olhar para Origins compreenderás que a Ubisoft foi ambiciosa na sua jornada pela fidelidade histórica e na construção de um mundo de jogo diversificado, misterioso e acima de tudo divertido. Mas isso tem um preço. Apesar da Xbox One X corrigir estes problemas, a grande maioria dos jogadores poderá enfrentar uma distância de visão e streaming de texturas mais fracos, as únicas manchas num jogo que de resto corre com o esperado desempenho e qualidade gráfica de uma casa já habituada a estas andanças.

Frequentemente, perante um jogo com uma escala tão impressionante quanto a de Origins, é curioso constatar que são as pequenas coisas que mais contam. Podemos estar num mundo gigantesco, mas é o que vemos à nossa frente em qualquer momento que vai ditar o nosso desfrutar do jogo. Origins é um jogo repleto de pequenos momentos que fazem a diferença, mas também é um jogo que parece sofrer debaixo do peso da sua ambição. Após as 40 horas necessárias para terminar a campanha principal (nível 34) fiquei com a sensação que Origins beneficiaria com um maior nível de polimento. Fiquei com a impressão que a Ubisoft preferiu correr o risco e lançar o jogo com uma última camada de polimento e optimização por dar, recebendo depois o feedback de milhões de jogadores para saber melhor onde orientar os seus esforços. A sensação que o sistema de combates, algumas animações e que alguns bugs ocasionais precisam ser corrigidos ou optimizados foi o único senão que senti, a sensação que falta refinamento.

Assassin's Creed: Origins é um filho da actual indústria, um híbrido que tomou emprestadas diversas ideias para melhorar as suas. A série da Ubisoft já apresentava cidades de grande escala, mas a passagem para verdadeiro mundo aberto mostra que encaixa na perfeição nesta estrutura, como se tivesse sido sempre assim. A diversão chega de forma fácil em Origins, seja nos combates, na exploração ou no admirar dos diversos locais do mundo. Sem qualquer sensação de repetição e sempre incentivando o jogador a explorar um misterioso mundo, Origins tornou-se no melhor e mais divertido jogo de uma série aclamada, mas muito controversa. A incrível liberdade de exploração, o novo sistema de combate, uma história de origem repleta de intrigas e drama, visuais capazes de espantar e sistemas RPG bem implementados ajudam muito no argumento que colocará Origins entre os melhores jogos de mundo aberto da actual geração.

Assassin's Creed: Origins - Análise Bruno Galvão Os poetas da morte. 2017-10-26T12:00:00+01:00 4 5
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