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Bayonetta 2 - Análise

Será que supera o primeiro?

Os anjos que se cuidem, Bayonetta está de volta.

O anúncio de Bayonetta 2 foi uma das maiores surpresas que presenciei pelo simples facto de ir contra toda a lógica. Em primeiro lugar, a Platinum Games nunca tinha feito uma sequela. Em segundo, o original não vendeu o suficiente para justificar uma sequela (o próprio estúdio queixou-se que as vendas não corresponderam às suas expectativas). E por último, o primeiro Bayonetta deixou uma marca tão cravada e positiva no género que seria irracional pensar que uma sequela seria capaz de ser superior. Mas a Platinum Games é um estúdio fora do normal que, ao contrário da tendência na indústria, coloca como prioridade o seu gosto de criar jogos e só em segundo vem a questão do sucesso comercial.

O seu maior sucesso até agora (comercialmente falando) foi Metal Gear Rising: Revengeance, que curiosamente não é a sua melhor criação (por aqui preferimos Bayonetta e Vanquish). Os jogos da Platinum Games não são os chamados system sellers, jogos que tão fortes comercialmente que levam os consumidores a comprar consolas só para os jogar, todavia, não é isto sinónimo de que não tenham qualidade (este estúdio é um dos raros casos que não sabe fazer jogos maus). Parece-me que os jogos da Platinum Games são troféus, títulos que ficam bem e complementam o catálogo de uma consola, além de agradar imensamente aos fãs hardcore, mas não são indicados para as massas. Não é à toa que a Microsoft tenha procurado o talento de Hideki Kamiya da Platinum Games para criar o exclusivo Scalebound da Xbox One, isto após a Nintendo ter anunciado Bayonetta 2 como um exclusivo Wii U, medida que melhorou de imediato a imagem da consola e a tornou mais apelativa para quem respira videojogos.

Bayonetta 2 chegou até nós quase cinco anos após o lançamento do original. Muito mudou na indústria, centenas de jogos foram lançados, há novas consolas no mercado mas o poder sedutor da bruxa continua forte. Como se de um cupido se tratasse, capacidade herdada do seu antecessor, a sequela é capaz de "amor à primeira vista". Nos primeiros minutos encanta logo e continua a fazê-lo incansavelmente até fim, sempre acompanhado de fan service e ângulos sedutores do corpo da bruxa mas sem nunca revelar algo comprometedor. Estas situações fazem parte da identidade de Bayonetta como personagem, forte, sensual mas também brincalhona e que simboliza a força do sexo feminino.

Trailer de lançamento de Bayonetta 2

Mais sobre Bayonetta 2

Hideki Kamiya, diretor do primeiro Bayonetta e agora de Scalebound, deixou as rédeas da sequela entregues a Yusuke Hashimoto, que foi o produtor no original, mas ainda esteve envolvido no desenvolvimento como supervisor. Esta nota serve para dizer que Bayonetta 2 mantém toda a sua identidade e corresponde ao que esperávamos dele. É sempre assustador quando um jogo tão forte em identidade como Bayonetta troca de mãos, mas temos que admitir que até gostamos do visual mais moderno que a bruxa apresenta. Aquele cabelo curto, fato e armas azuis ficam-lhe a matar.

Mas nada disto é mais importante que a jóia da coroa de Bayonetta, a sua jogabilidade, que já no primeiro nos deixou completamente rendidos. Na sequela não há excepção e novamente a Platinum Games mostra que é mestre no assunto. Combinada com as animações suaves e acrobáticas de Bayonetta, capaz de fazer inveja a uma ginasta que participe nos jogos Olímpicos, a jogabilidade está mais furiosa, afinada e traz de volta o espectacular Witch Time, habilidade que abranda o tempo desde que consigam desviar-se dos ataques inimigos no último segundo.

De volta estão também os brutais ataques finais, que colocam os anjos em máquinas de tortura retiradas do tempo da inquisição e desfazem os seus corpos impiedosamente enquanto Bayonetta dá-lhes sapatadas no traseiro. Mas agora há outro uso que podem dar há barra de magia que, tal como no primeiro, pode ser aumentada ao encontrar pedaços perdidos de "Broken Moon Pearl". Quando esta barra atinge atinge o ponto máximo, podem invocar o "Umbran Climax", que por sua vez permite a Bayonetta abrir portais dos quais saem membros gigantes para castigar os inimigos. É uma habilidade que aprimora a jogabilidade e torna-se mais útil que os ataques finais pois pode ser usada contra bosses ou contra hordas de inimigos, atingindo vários deles de uma só vez.

A nova habilidade "Umbran Witch" de Bayonetta 2 vai ao encontro do que parece ser uma nova filosofia para o estilo de jogo. Ao primeiro olhar, são ambos praticamente idênticos, mas quanto mais jogava mais claro se tornava que a sequela é mais furiosa, rápida e menos pautada, principalmente nas secções dos bosses. Relembro-me que os bosses de Bayonetta tinham várias fazes e uma estrutura. Em Bayonetta 2 essa abordagem foi descartada para dar lugar a combates contínuos e mais diretos. Pessoalmente até prefiro a jogabilidade deste segundo jogo, mas parece-me, pelo menos foi essa a impressão que permaneceu, que os confrontos com os bosses no primeiro são mais épicos e memoráveis.

Bayonetta 2 continua com a sua capacidade de encantar, mas não consigo deixar de sentir que não mantém a mesma qualidade do original. O primeiro é sempre o primeiro, como se costuma dizer, mas não é por causa disto que o digo. No geral, esta sequela transmite a sensação que não foi tão bem pensada e elaborada, seja a nível dos bosses ou design dos níveis. Não sei isto aconteceu por causa da troca de diretor ou pelo simples facto de se tratar de uma sequela com um enorme peso nos ombros deixado pelo primeiro, mas no final, não é um jogo tão requintado e especial.

Depois temos a questão da facilidade. Bayonetta era, logo desde a dificuldade normal, um desafio. A sequela é bem mais fácil e perdoadora quanto aos erros cometidos. Morrer é mais raro e tornou-se mais comum alcançar o cobiçado troféu de Platina no final dos capítulos. Como seria de esperar, a dificuldade é crescente. O primeiro capítulo é fácil e ao longo da história vão ficando mais difíceis até chegarmos ao clímax do boss final. Mas até nos bosses esta maior facilidade é encontrada. Por várias vezes consegui derrotar bosses à primeira tentativa, o que contrasta com as minhas recordações do primeiro Bayonetta.

Mais um evidente contraste são os portais Alfheim, que aparecem em todos os capítulos em sítios escondidos (uns mais do que outros). Estes portais são uma das formas de aumentar a barra de saúde e de magia, consistindo cada portal num desafio diferente. Completem o desafio e vão receber um "Broken Witch Heart" ou "Broken Moon Pearl". O que está aqui em questão é que os portais Alfheim de Bayonetta 2 são uma brisa em comparação com os do antecessor, mais uma evidência de que a dificuldade da sequela é menor. Mesmo depois de terminar todos os capítulos e alterar a dificuldade para "Hard", o desafio continuava a ser pouco.

A maior novidade introduzida em Bayonetta é o modo cooperativo para dois "Tag Climax", uma adição incomum a este género mas que é recebida de braços abertas e uma boa alternativa ao modo história. Este modo é cooperativo mas também competitivo. No final de cada ronda (cada partida tem seis), é eleito o jogador vencedor com base nos anéis ganhos. O vencedor ganha o direito de depois escolher a "Verse Card", que dita a área e inimigos onde vão jogar. As Verse Cards desbloqueadas estão dependentes do vosso progresso na história. Quanto mais capítulos terminarem, mais Verse Cards ficam acessíveis e mais variedade encontrarão no Tag Climax.

Algumas das Verse Cards mais desafiantes colocam-vos a defrontar novamente bosses que encontraram num dos capítulos da história. Mas se nestes confrontos da história já existe por vezes alguma confusão visual, com dois jogadores no ecrã dei por mim em algumas ocasiões sem perceber o que estava a acontecer e exposto aos ataques porque não conseguia distinguir nada de nada e portanto falhava em desviar-me dos ataques. Consequentemente, falhava em ativar o essencial Witch Time. Tirando este incómodo, o modo está bem conseguido e mais importante, sem latência, inclusive quando juntei-me a jogadores japoneses.

O Tag Climax também possui uma componente de risco. Antes de cada partida, o jogador a escolher a Verse Card pode apostar anéis em como será o vencedor daquela ronda. Além disto, se ambos os jogadores falharem em derrotar todos os inimigos, terão que repetir novamente as seis Verse Cards. No fim, ambos os jogadores serão recompensados com anéis, mas quem venceu mais rondas terá uma quantia maior. Com estes prémios, o Tag Climax é uma ajuda para comprar os itens mais na loja do Rodin no modo história (acreditem, vão precisar de muitos anéis).

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Para os fãs da Nintendo, e tratando-se este de um jogo exclusivo para a Wii U, resta dizer, sem poder entrar em detalhes, que Bayonetta 2 é uma caixinha de surpresas e conta com vários fatos especiais para a bruxa.

A história nunca foi o destaque de Bayonetta e na sequela também não o é, mas tenho a dizer que adorei a forma como está ligada e complementa o primeiro jogo (é como se fechasse um círculo). O que devem esperar ao longo dos vários capítulos são momentos e lutas over-the-top juntamente com diálogos de personagens convencidas para nunca levar a sério. No meio disto tudo, restou um pequeno espaço para situações emocionais e dramáticas que mostram que a Bruxa tem um lado humano e sentimental, embora na maioria das vezes esteja na brincadeira.

"O modo cooperativo/competitivo vem complementar o que já era um jogo recheado de conteúdos"

Em termos estéticos mantém um estatuto único com o seu design de personagens incomum, com menção especial para os adversários, que nesta sequela são anjos e também demónios. Porém, na parte gráfica, podemos mencionar melhorias mas não são significativas A sequela é habitada por uma paleta de cores mais vivas (o primeiro parecia que tinha sempre um filtro de cinzento por cima), o que logo à partida é mais apelativo. A maior parte do detalhe está incutido nas personagens e inimigos, tudo o resto que faça parte do cenário tem qualidade visual menor (as texturas fracas são abundantes). Pelo menos, compensando esta falha, o jogo mantém a fluidez em quase todos os seus momentos e foca-se bastante na ação, fazendo os jogadores esquecer de olhar para tudo o resto que está à volta.

Bayonetta 2 não tem o impacto do original nem consegue superá-lo, mas há evoluções valiosas. O modo cooperativo/competitivo vem complementar o que já era um jogo recheado de conteúdos e acrescenta a possibilidade de jogar com amigos, o que é sempre positivo e acrescenta à diversão. Mas é no mais importante, na jogabilidade, que Bayonetta 2 exibe o seu esplendor. Fluído, pronto a responder e cheio de estilo, dá um gozo tremendo castigar os anjos e demónios, explorar o sistema de combos e diferentes combinações de armas ao som de batida da sedutora e alegre banda sonora. Bayonetta 2 tem imenso valor por si só, mas relembrando que estará disponível numa edição com o primeiro, este pacote é a melhor aquisição da Wii U até agora.

9 / 10

Bayonetta 2 - Análise Jorge Loureiro Será que supera o primeiro? 2014-10-13T08:00:00+01:00 9 10
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