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Baja: Edge of Control HD - Análise

Remasterização questionável.

O deserto como pano de fundo.

Com uma condução entusiasmante e melhores cenários, este arcade racer poderia surtir mais efeito, porque conteúdos não lhe faltam.

Na presente geração de consolas há uma omissão significativa de "arcade racers". O primeiro jogo que joguei na PlayStation 3 foi Motorstorm, uma produção da saudosa Evolution Studios, a mesma equipa que lançou DriveClub, um dos melhores jogos de condução arcade de sempre. Curiosamente, esta é uma das poucas excepções à regra. Sega Rally não voltou da geração passada, o mesmo sucedendo com Ridge Racer. É verdade que teremos sempre a Electronic Arts a puxar dos galões em Need for Speed, mas essa é uma série tão recorrente que não a vemos doutra forma que não seja dissociada do mundo das corridas virtuais.

Também temos a Nintendo com Mario Kart 8, talvez o expoente máximo da antiga concepção arcade, combinando física com gameplay de forma incrível. Sobram as corridas futuristas, que volta e meia nos surpreendem, embora seja perceptível a ausência daqueles clássicos arcade, de encanto pela jogabilidade acessível mas dotados de uma física acima da média. Há um novo Daytona USA nas arcadas, mas porque não vemos um novo Out Run ou uma evolução do Sega Rally 2?

Ao jogar Baja: Edge of Control HD (doravante designarei o jogo como Baja HD), a sua jogabilidade simples, acessível e descomprometida levou-me até muitos sítios e memórias. Porque mais produções do género não são feitas é algo que ainda me intriga, tanto que grande parte desses títulos apresentavam uma condução bastante consistente e sobretudo uma boa física... na geração passada. Agora imaginem para a actual geração, com redobradas possibilidades de produção. O que não poderia daí resultar?

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Se quiserem aceder aos melhores carros podem partir para o modo arcade.

Tinha esperança que Baja HD pudesse servir de alento para mais produções similares. As corridas na terra, em amplos desertos, através de percursos rápidos e sinuosos quanto baste para nos deixar com um sorriso nos lábios, são sempre um óptimo elixir, mas certo é que estamos perante a remasterização de uma produção desenvolvida pela 2XL Games para as consolas PS3 e Xbox 360, em 2008. Quase dez anos depois, a THQ Nordic publica uma versão em alta definição que suaviza a experiência através de um incremento gráfico, mas não filtra as limitações e uma jogabilidade um pouco monótona, sem a emoção e a física dos clássicos arcade.

Baja HD é um pouco como um Motorstorm, tirando as motas e os camiões. Sem outras coisas mais, embora com alguma entrega, graças ao acessível descontraído e acessível, as suas corridas possam até ser agradáveis por alguns períodos de jogo. Mas acaba por ser prejudicado por uma jogabilidade que não sendo má, não se revela a mais entusiasmante ou consistente. A sensação de tracção é quase inexistente. Ao curvarem de forma mais apertada a câmara acompanha e a sensação que dá ao controlar aquelas máquinas todo-o-terreno, com ruído mecânico muito escasso é que mais se assemelham a naves com sistema anti-gravidade.

A premissa do jogo é boa, e quem assiste ao vídeo de introdução não tem como não ficar interessado. Um verdadeiro off-road, onde se conduzem não só os pequenos buggys ou jeeps do tipo 4x4, mas aqueles carros de caixa aberta com rodas quase da altura de uma porta, capazes de garantir tracção e derrapagem sobre rocha e cascalho abundante, através de um sistema de suspensão que parece absorver todos os impactos e deslocações. As provas são também muto diversificadas. Desde corridas em circuitos, passando pelos ralis e competição livre, até escalar montanhas, a conjugação entre uma dose de realismo (arcade) e a insanidade parece ser o mote para uma jornada que há de nos deixar curvados perante tamanha densidade e escala de eventos.

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Baja HD contempla um modo multiplayer online e pode ser jogado em ecrã dividido até quatro jogadores.

Porém, grande parte dessa expectativa esvazia-se ao fim de algum tempo. Apesar da variedade de pistas e ambientes (muitos troços são criados dentro da mesma área), a sua composição é muito básica e vazia, mostrando pouco mais do que um percurso onde são visíveis sulcos, algumas altimetrias, morros e elevações, algumas construções envolventes, uma estrada pública com trânsito, uma montanha russa e pouco mais. Tudo muito pouco para encher o olho e nos convencer sobre este regresso de Baja sob o lema alta definição, mais se assemelhando a um deserto dentro do deserto. Claro que com isso acautela-se uma boa fluidez, sendo aliás de saudar a inexistência de quebras de frame-rate. Mas com toda uma descrição do cenário tão vazia, sobra a sensação de estarmos a jogar um jogo da anterior geração.

O melhor acaba por ser a sensação de velocidade, conjugada com uma inexistência de quebra de frame-rate. Os veículos até estão bem desenhados e quando vamos rápidos a serpentear as curvas a sensação de condução não deixa de ser agradável e desafiante, mesmo quando estamos a curvar e a perspectiva acompanha, o que é um bocado estranho. Daí que mudar de perspectiva, para o capôt, possa ajudar um pouco, mas isso acaba por ilustrar ainda mais a pouca riqueza dos cenários. No entanto, à condução falta mais espectacularidade. Isso faria toda a diferença. De facto, falta um melhor contacto com o solo, que as rodas esgravatem a terra e façam saltar as pedras, falta mais espectacularidade nas quedas, falta uma sensação de impacto e destruição maiores, falta que os sulcos fiquem mais fundos à medida que os carros cumprem mais voltas. Falta sobretudo uma condução entusiasmante, que é a base de um jogo como estes. A partir daí tudo seria mais emocionante e facilmente perdoaríamos a baixa consistência gráfica.

Porque em termos de conteúdo, vale a pena mencionar um modo carreira bastante alargado, escalonado em diferentes categorias. Começamos por conduzir os carros mais básicos, entre os quais estão os "buggys" ou "carochas" na configuração para todo o terreno. Depois, ao acumularmos experiência através dos troféus, bem como dinheiro necessário para updates ao carro ou aquisição de novos veículos, subimos de divisão, tendo acesso a mais provas. Os patrocinadores investem em publicidade, pintando o carro com diferentes cores.

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Terão corridas de resistência, sendo fundamental evitar danos e choques que ponham em causa a mecânica do veículo.

Há uma imensidão de provas, localizações e carros. O conteúdo é bastante extenso, conjugando diferentes desafios. Um particularmente interessante é a escalada às montanhas. Partem juntamente com outros veículos, mas para chegarem ao cume terão que acelerar onde a inclinação é menor, sob pena de penarem enquanto mantém a rotação do motor no máximo. Depois descem, aos sacões e voos quase a pique, para retomarem a subida. As pistas são tão abertas que por vezes fugimos dos trilhos e da direcção de corrida. Felizmente há uma indicação que nos lembra a presença fora da pista. Se capotarmos ou ficarmos inamovíveis nalgum ponto, pressionar o L1 e R1 devolve-nos ao meio da estrada.

O grau de dificuldade também não é muito elevado. Depois de nos adaptarmos ao estilo de condução e melhorarmos o veículo quando nos apercebemos da velocidade adicional dos adversários, somar vitórias consecutivas não é complicado, ainda que possamos ajustar a dificuldade, estando o hard direccionado para quem prefira jogar nos limites. Pena que o "feeling" da condução não permita grandes veleidades, mesmo quando usamos as grandes máquinas. É pena que a produtora tenha desaproveitado a chance para ir mais longe no capítulo da condução, algo que faria muita diferença e ajudaria a tornar o jogo mais apetecível.

No meio de outras propostas arcade actualmente disponíveis, Baja HD tem como maior aliciante a diversidade de conteúdos, mas a somar a percursos algo vagos, genéricos e despidos, uma condução que mesmo sendo aceitável priva-nos de melhor entusiasmo, equaciona-se sobre o porquê deste regresso, dada a dificuldade patente em produzir um desafio capaz de superar o original. Não estávamos à espera desta remasterização, mas pelo menos lembrou-nos que ainda há mais espaço, na actual geração de consolas, para mais jogos de corridas arcade entretanto desaparecidos em combate.

Baja: Edge of Control HD - Análise Vítor Alexandre Remasterização questionável. 2017-09-23T12:24:00+01:00 3 5
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