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Maldita Castilla EX - Análise

Sequela espiritual de Ghosts'n Goblins.

Originalmente desenvolvido para o PC e publicado pelo seu autor "Locomalito" (espanhol Juan António Becerra) como um jogo sem custos para o utilizador (em 2012), chegou o ano passado à Xbox One e PS4 (para os Estados Unidos) uma versão alargada e definitiva do original. Este mês é a vez dos europeus receberem na Store o jogo que é uma inspiração do grande clássico das arcadas "Ghosts'n Goblins".

Maldita Castilla EX ou Cursed Castilla como também é conhecido fora de Espanha (preferimos manter a designação em castelhano), resulta de uma paixão imensa que Juan Becerra desenvolveu pelas arcades durante a década de 1980. O próprio descreve na sua página a forma como desenvolve os jogos que abraça, juntamente com dois camaradas de combate que o auxiliam em termos de composição e arte (Gryzor 87 e Marek Barej). No entanto é a sua mente que lidera os projectos, tanto que muitos arrancam a partir do furor verificado nas arcades. Juan conta que passou muito tempo a ver jogar, quando lhe faltavam as moedas para inserir nas máquinas. Adulto e já com acesso à tecnologia de programação, começou a desenvolver o seu software, através de desafios que replicavam as saudosas memórias, confeccionando jogos com os ingredientes de antigamente: pixel art, acção intensa e chip tunes.

Um dos seus jogos favoritos, desse tempo distante, é precisamente "Ghosts'n Goblins", uma produção arcade da Capcom que proporcionou acção intensa 2D e um nível elevado de dificuldade, num cenário gótico longínquo, no qual o herói, o bravo Sir Arthur, desbrava caminho por entre caveiras, esqueletos e monstros da pior espécie, salvando a sua amada da gárgula Firebrand. Maldita Castilla EX bebe muita inspiração do clássico arcade, embora dê sequência a uma série de atributos próprios, especialmente o plano espaço temporal, muito ligado à história de Espanha assim como a mitologia castelhana. Interessante este recurso à história do país de origem do autor do jogo, o que equivale a encontrarmos Don Ramiro, o protagonista, que às ordens do rei Alfonso VI parte para Tolomera, um reino envolto num pesadelo depois da libertação de criaturas demoníacas. O herói não actua solitariamente. Com ele participam outros nobres, nomeadamente; Quesada, Mendoza e Don Diego.

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Neste jogo vão enfrentar ojáncanos e nuberus, ligados à mitologia castelhana.

É curiosa de resto a introdução do jogo, com a verificação das roms antes mesmo dos primeiros ecrãs, como era apanágio da cena arcade, à época. Os primeiros segmentos do jogo revelam o argumento e a partida do nosso herói para o cumprimento do seu objectivo. Equipado com uma ampla armadura e uma espada, enfrenta um bestiário da pior espécie; criaturas que constantemente desafiam a nossa perícia e capacidade de executar manobras com sucesso, especialmente os bosses. O ambiente está muito bem conseguido, sendo evidentes as equiparações com o clássico da Capcom mas também as diferenças (a personagem não efectua o duplo salto e rapidamente avançamos por entre plataformas ordenadas de forma vertical).

A dificuldade está bem mais escalonada e suave. O primeiro nível é basicamente uma espécie de "tutorial" prático, como se fosse um guia. Enquanto que Sir Arthur perde a armadura depois de sofrer um dano, lutando com os boxers até à última, aqui o nosso herói possui 3 barras de energia, ao jeito da série Zelda, que em bom rigor garantem mais alguma longevidade quando as batalhas entram numa onda mais caótica. A variedade de inimigos e ataques é muito grande, pelo que depressa nos adaptamos à exigência, embora sem ser um jogo frustrante. Algumas boss fights implicam uma exposição maior ao típico sistema da tentativa e erro. Basta memorizar o padrão de ataque do inimigo para executarmos o nosso plano na perfeição. Pode demorar algum tempo até lá chegar mas não é uma tarefa impossível.

Os comandos são muito sólidos e permitem uma manobra perfeita da personagem. A acção é fluida e rápida, como sucedia quando jogávamos nos clássicos enfiados naqueles salões saturados de fumo. A impossibilidade do duplo salto só existe nos primeiros níveis. Assim que equipamos a personagem com mais poderes através de uma série de items que vamos tirando aos nossos inimigos, ganhamos mais uma série de habilidades, entre as quais o tão famoso duplo salto.

É verdade que o jogo aproxima-se majestosamente do design de Ghosts'n Goblins, embora não venha mal nenhum ao mundo quando o faz com coerência e uma organização invulgar para um jogo que pretende ser um tributo a um dos grandes clássicos da cena arcade. Visualmente, a qualidade gráfica preenche as expectativas do mais nostálgicos, que aqui encontram um desafio bem à medida. A trilha sonora é igualmente marcante, feita a partir do icónico chip de som que marcou uma geração; o Yamaha YM2203. Ao mesmo tempo, o jogo abraça uma série de elementos da mitologia catalã, presentes na formação do bestiário, o que torna a estrutura narrativa mais coerente e definida.

Composto por seis níveis que representam diferentes momentos e desafios, há neste trabalho de Locomalito uma apropriação de um clássico, aproveitando muitos elementos que resultaram melhor e que nos mostraram uma Capcom no seu melhor. Parece de resto que o autor desta obra estudou e observou atentamente cada pixel do clássico que está na sua génese. Por vezes, não é só com inovação e originalidade que a cena independente consegue ganhar destaque. Os clássicos existem como legado e ir de encontro a isso deve ser visto como um privilégio e uma oportunidade para dar continuidade a um modelo que mesmo sendo pouco visto é aguardado pelos fãs com interesse. No fundo, um jogo que nos conquistou.

Maldita Castilla EX - Análise Vítor Alexandre Sequela espiritual de Ghosts'n Goblins. 2017-01-03T18:09:00+00:00 4 5
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