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The Sly Trilogy - Análise

Roubem tudo menos a qualidade.

A história de Sly Collection, lançada originalmente em 2010 para a PlayStation 3 é verdadeiramente fascinante e provavelmente um dos mais curiosos contos da era moderna dos videojogos. Na altura, o estúdio situado na Califórnia que dá pelo nome de Sanzaru Games contava com 60 empregados e apenas havia trabalhado em dois projetos pequenos para a EA e SCE, um deles a conversão de Secret Agent Clank para a PlayStation 2. Nada de alto perfil ou verdadeiramente cativante como percebem mas não se deixaram ficar e tentaram mostrar que havia mais ali. Para o provar, apresentaram à Sony um protótipo na série Sly que haviam por livre e espontânea vontade criado. Isto serve para mostrar o amor e dedicação que o estúdio tem por esta série.

A Sony ficou encantada com o protótipo de Sly 4, conhecido depois como Sly Cooper: Thieves in Time, e o Sanzaru Games herdou das mãos dos criadores originais da série, o Sucker Punch que estava e está embrenhado na série inFAMOUS, as rédeas da série. Mas antes de começar os trabalhos nessa nova entrada na série, ficou a cargo da conversão dos três jogos para a PlayStation 3: Sly Cooper and the Thievius Raccoonus de 2002, Sly 2: Band of Thieves de 2004, e de Sly 3: Honor Among Thieves de 2005. Assim, tornaram-se os responsáveis por inserir Sly numa das modas da anterior geração e dar um novo destaque a uma série que o merecia em pleno.

O seu trabalho foi exemplar e através do seu esforço tivemos um grande pacote que nos mergulhava na nostalgia mas também nos fazia constatar o imenso talento presente nesta série. Sly Cooper sempre protagonizou jogos de brilhante humor, imensa vivacidade, inteligente astúcia, engenhoso design e uma convincente forma de entreter. A sensação de desafio também ajudava imenso. Na altura da PlayStation 2 deixei os jogos escaparem mas esta foi uma oportunidade de ouro para colmatar esse erro. Fiquei encantado pois claro, é que Sly dá-nos uma experiência de jogo que se baseia no comportamento furtivo ao abordar as plataformas e ação. Delicioso.

Passados 4 anos estamos em 2014 e o Sanzaru Games volta a mostrar todo o seu talento, toda a sua paixão e dedicação à série ao apresentar esta Sly Trilogy para a PlayStation Vita. Todos conhecem os jogos de trás para a frente por esta altura, provavelmente existem jogadores que ainda não os jogaram, mas o mais importante aqui é verificar de que forma o trabalho de conversão foi executado e se a experiência é merecedora de apreço. Isto porque é mais do que sabido que o estúdio tem entusiasmo quanto baste para que a série continue nas luzes da ribalta mas será que existe necessidade para recuperar um produto já existente. Afinal não estará esta teimosa moda atual a correr o caminho para a saturação?

Atualmente começa a surgir a ideia que os trabalhos de conversão são uma forma rápida e fácil para as editoras preencherem calendário e ao mesmo tempo manter as séries vivas. Sly Trilogy na PlayStation Vita não nos faz pensar na má reputação da plataforma criada por alguns que a criticam de não ter jogos, faz-nos acreditar que temos um verdadeiro portento nas mãos pois agora não mais estamos presos à televisão da sala para usufruir de produtos que outrora foram de topo. Enquanto muitos acreditam que as portáteis devem ter produtos exclusivos feitos a pensar nelas de raiz, outros defendem a sua capacidade para oferecer portabilidade à qualidade AAA de outros tempos. Sly tenta provar isso mesmo.

Então e se pensarmos que a qualidade de outrora poderá ter ainda essa qualidade nos dias de hoje e ser tão gratificante que até parece ter sido feita hoje? Mais espantoso é. Todos conhecemos Sly e amigos, a sua relação com Carmelita e como o seu bando milenar de ladrões luta nos dias de hoje para escapar a um ódio antigo. No mundo dos jogos de plataformas Sly sempre se apresentou como distinto e diferente, a questão é compreender se a PlayStation Vita é uma plataforma válida para apresentar esta trilogia como um produto capaz de oferecer diversão e interesse aos seus donos. Como perceberam pelos primeiros parágrafos a resposta é um claro sim.

Ainda assim confesso que o jogo de 2002 apresenta já alguns sinais vincados da sua idade, principalmente na forte compressão das suas cutscenes que na PlayStation 3 foram convertidas de forma fantástica. Os visuais e todo o estilo artístico parecem resistir facilmente ao teste do tempo mas é a sua estrutura, o seu design de níveis que não evita alguma hostilidade, a sua dificuldade acima da média poderá não ser o mais desejado para um formato portátil. Tal como na versão PS3, este é o único jogo não traduzido e legendado em pleno para Português, o que ajuda a causar a sensação de produto menor quando comparado com os outros.

Quando passamos para o segundo e terceiro jogo, à excepção das cutscenes de pobre qualidade, o que temos é uma verdadeira aventura de diversão e humor cujo design parece ter nascido a pensar num formato portátil. É incrível como o produto original já contém um design que encaixa na perfeição nesta plataforma. As missões curtas e os vários locais espalhados pelo mundo, cada um com o seu boss, fazem com que jogar em qualquer lado, durante seja qual for o tempo disponível, seja altamente gratificante. Em vários momentos o pouco tempo que tinha para jogar fazia com que a Vita e Sly Trilogy fossem a melhor companhia para satisfazer este meu fascínio por esta indústria face ao pouco tempo que tenho.

Ver qualquer um dos jogos Sly a correr num pequeno ecrã nas nossas mãos é incrível. Desde logo comecei a pensar em como tinha na mão um excelente companheiro de viajem e para quem já tem membros mais pequenos na sua família dificilmente encontram melhor jogo na Vita. Os jogos Sly são inteligentes e bem pensados mas não são difíceis de aprender e o básico rapidamente é assimilado. O aspeto 'engraçado' desarma o jogador mas o seu desafio pode ser intenso e isto faz com que o jogador assuma um compromisso com a experiência.

Recuperamos aqui um trailer da versão PS3.

Pessoalmente acredito que um dos maiores valores numa experiência como esta é quando o produto se dignifica e não se banaliza. O uso de segmentos de menor qualidade para aumentar artificialmente a longevidade, a busca de desafios exagerados, descabidos ou completamente desenquadrados com o resto para forçar o jogador a sentir adversidade na progressão não existem aqui. Tudo parece fazer sentido, temos as mecânicas, as devidas ferramentas que nos foram ensinadas, para saber solucionar as situações e contornar os obstáculos. O ritmo a que as secções de plataformas decorrem, ou até os confrontos, serve na perfeição a experiência que sai reforçada, valorizada.

O estilo cartoon que este motor de jogo consegue é um dos seus maiores trunfos e mesmo passados 10/12 anos é capaz de agradar. O jogo corre de forma altamente fluída e sem quaisquer quebras na suavidade. Isto permite que possam jogar de forma plenamente satisfatória e sem quaisquer problemas. É uma pequena maravilha ver este jogo a correr nas nossas mãos, tudo muito colorido com animações convincentes na hora de nos fazer crer que estamos perante um desenho animado e tudo é altamente consistente. Sou um grande adepto deste estilo visual e Sly relembra-nos uma era em que a indústria combinava na perfeição uma falsa inocência com sagacidade e astúcia.

O melhor elogio que posso tecer a esta Sly Trilogy é expressando a sensação com que fiquei: quase acreditei que os jogos estavam a estrear na Vita. Mesmo em 2014 os visuais com dez anos, apesar de já não terem o mesmo impacto, conseguem agradar e todo o aspeto cartoon só o favorece. Não temos 1080p e a imagem limpa e nítida da PS3 mas o pequeno maravilhoso ecrã da Vita faz muito para mitigar quaisquer efeitos adversos que daqui poderiam nascer. O engenho das mecânicas de jogo e progressão são mais uma vez atestadas, recebendo elogio. Assim que lhe deitam as mãos, no verdadeiro sentido da palavra, será uma experiência divertida que terão pela frente.

Reforça e bem o catálogo da Vita e provavelmente será difícil encontrar melhor produto para os mais pequenos. É mais uma homenagem que podem encontrar à série e se pensarem que existem Troféus a conquistar, percentagens a alcançar (300%) então facilmente percebemos que temos um pacote sólido e singular. É que qualquer um pode pegar e jogar Sly no imediato, em qualquer lado sem grandes contras. Algo que não podemos dizer de qualquer série ou jogo. Para quem já os jogou será um produto desvalorizado mas os acérrimos encontraram um lugar interessante para satisfazerem a sua vontade. Especialmente porque conta com poucos problemas técnicos, se é que os tem.

Resumindo e concluindo, feitas as contas é claro perceber que este é um trabalho de elevada qualidade. Quase que nos faz acreditar que Sly nasceu originalmente a pensar numa portátil e não nos formatos caseiros. O Sanzaru Games regressa aos trabalhos e demonstra toda a sua paixão pela série e oferece uma conversão de alta qualidade. De todos os três jogos, somente o primeiro poderá apresentar alguma debilidade inserido num contexto portátil mas no geral temos aqui um pacote bem coeso e forte. Sem reservas, todos os fãs do género devem embarcar nesta aventura, especialmente se for novidade, caso contrário poderá perder muito do seu fulgor pois não faz nada de novo.

8 / 10

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Sobre o Autor
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Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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