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The Quarry - sustos no meio do bosque

Adolescentes em pânico e um toque de sobrenatural.
Mistério, suspense, drama e algum terror em formato interativo com adolescentes num slasher que não assusta mas cativa imenso

A Supermassive Games abriu portas em 2008 e trabalhou em diversos projetos para a PlayStation, mas somente em 2015, com Until Dawn para a PS4, este estúdio localizado no sul de Inglaterra conseguiu colocar-se perante os holofotes mundiais. A aposta no que pode ser descrito como um "filme de terror e drama interativo", inspirado pelos filmes de terror e slashers com adolescentes da década de 80 e 90, foi uma ideia inesperada e muito bem recebida. Sete anos depois, com diversos jogos para a realidade virtual e três capítulos da sua The Dark Pictures Anthology pelo meio, a Supermassive apresenta uma espécie de sequela para Until Dawn, chamada The Quarry.

Uma vez que estamos perante mais um "slasher interativo", já sabes quais são as bases, adolescentes em locais remotos, mistério com um leve contorno sobrenatural e imenso drama pelo meio. Para o separar de um filme (existe um modo filme caso prefiras nem sequer jogar), a interatividade surge na forma de QTEs, os momentos que surgem de surpresa e testam a tua atenção para pressionar o botão no timing e ajudar a personagem (em alguns momentos salvar-lhe a vida) e algumas pequenas zonas pelas quais podes caminhar para descobrir pistas. No entanto, ao longo das 9 horas que demoras a terminar The Quarry, passarás a esmagadora maioria simplesmente a olhar para o ecrã a assistir aos diálogos.

O conceito da interatividade num jogo deste estilo, é dar-te a sensação que consegues ramificar a narrativa com as decisões que tomas em alguns diálogos, executando corretamente os QTEs nos momentos de ação. The Quarry consegue muito bem esse efeito e apenas peca porque na parte final a Supermassive aperta o controlo e sentes que as ramificações são muito mais pequenas, tudo vai dar ao mesmo. Além disso, The Quarry reduz a janela dos QTEs em algumas partes, para aumentar a dificuldade e tornar mais difícil salvar as vidas na última hora, mas até lá sentirás que a experiência te conquista.

Isto porque, tal como um bom slasher dos anos 90, os mitos urbanos ou folclore local numa remota localidade estão no centro, afetando de formas inesperadas as vidas de um grupo de 9 adolescentes que apenas pretendiam viver um verão memorável. Estes trágicos eventos começam de forma misteriosa, com um casal perdido no meio do nada e após um acidente de contornos duvidosos. São ajudados por um polícia que apenas intensifica a sensação que algo de muito errado se passa nesta localidade. É o típico e tão aliciante efeito da pequena terrinha nos Estados Unidos onde os meninos da cidade nem imaginam o que lhes espera.

Após a leve sugestão de algo sobrenatural estar relacionado com os eventos, uma misteriosa criatura que ataca jovens que desaparecem, tudo parece voltar ao normal e temos a perspetiva dos outros 7 monitores do campo de férias de verão. No dia em que iam embora, Jacob decide estragar o carro e passar mais uma noite ao lado de Emma, para a tentar reconquistar. O mistério intensifica-se com a ausência de explicações para alguns momentos e personagens estranhas. No entanto, o que parece uma banal noite de diversão rapidamente transforma-se numa noite de terror e drama com os 7 monitores a fazer o que podem para sobreviver às estranhas criaturas que surgem.

The Quarry está repleto de mistério e suspense, de formas cativantes e a Supermassive merece imensos elogios por demonstrar que não perdeu o jeito. A constante sugestão de algo trágico estar prestes a acontecer, com situações que colocam em iminente perigo estes monitores, que apenas queriam manter viva a chama do amor de verão por mais umas horas. A lenta revelação do que se está realmente aqui a passar, a forma como a Supermassive evita caminhar na simples linha de preto e branco para ofuscar esses conceitos com um pouco de cinza pelo meio, é algo através do qual realmente triunfa.

Se gostas destes dramas de terror interativo vais adorar The Quarry, mesmo sabendo que de assustador não tem nada. O mistério e constante suspense são valores que acabam por dominar e marcam a experiência, deixando-te sempre com vontade de saber mais. Quando pensas que estás mais perto de saber tudo, há sempre algo que ainda não sabes. Apesar das ramificações na narrativa, será fácil sentir que, inevitavelmente, vai dar tudo ao mesmo, mas algumas decisões podem mesmo acabar com a morte de uma destas personagens.

É preciso ter cuidado com a hora final, o capítulo 10, pois os QTEs tornam-se mais exigentes, com uma menor janela para pressionar os botões, o que resulta facilmente em imensos personagens mortos. Nisto senti um pouco de artificialidade, a Supermassive claramente manipulou a experiência para te forçar a querer jogar novamente e tentar corrigir erros que podiam ser evitados se os QTEs não se tornassem subitamente tão agressivos. É o final de um slasher, é esperada intensidade, mas notas o súbito pico na "dificuldade".

Além disso, sinto que o maior inimigo de The Quarry é o próprio jogo, mais especificamente a inconsistência da vertente técnica. Os protagonistas, todos eles clichês, o mistério, suspense, o elemento sobrenatural, as criaturas, os aparentes vilões e a qualidade visual, conseguem um belo efeito para te prender ao jogo, mas existem elementos que arrastam para baixo a experiência. Mais grave são os que nem sequer fazem sentido em termos da experiência.

Um dos maiores problemas de The Quarry são as animações. Quando tens um jogo que pretende ser um filme interativo e mostra-te faces de incrível detalhe, as animações precisam de acompanhar e não acontece sempre. Imensos momentos de más animações, modelos que mostram claramente procurar "gatilhos" para iniciar novas animações (a já famosa transição de caminhar e começar a subir uma escada, por exemplo) quebram imenso a experiência, tal como o enervante caminhar lentíssimo destas personagens que correm contra o tempo e o terror, mas estranhamente estão sempre a caminhar como se estivessem num filme romântico.

Isto leva-me até outro problema, que considero ainda mais grave. Em The Quarry, é frequente as personagens mostrarem total desconexão com o que acabou de acontecer, revelando uma calma que nem sequer faz sentido. Um dos exemplos, é difícil falar disto sem spoilers, é um momento em que uma personagem fotografa uma das criaturas a meio de uma desesperada tentativa de escapar, após isso, age como se não se tivesse passado nada, nem mostra a foto para explicar o que viu, fala como se tivesse acabado de ir ao Starbucks beber um frapuccino. Isto é apenas um dos inúmeros exemplos que podia dar de quebras de imersão e desconexa calma nos personagens.

The Quarry é um jogo com imensos méritos e um slasher interativo que realmente ramifica a narrativa com o teu apoio. Merece imensos elogios pelo mistério, pela narrativa e pela qualidade de alguns personagens, mas é pena que a vertente técnica manche a sua qualidade. Existem elementos inerentes ao estilo de jogo, mas quem procura The Quarry já sabe que estão lá, aqueles elementos que limitam a experiência porque é preciso controlar um pouco a produção, mas outros quebram em demasiada a imersão e o respeito pelo trabalho como um todo.

Prós: Contras:
  • Modelos de grande qualidade visual, especialmente as faces
  • Não assusta, mas a tensão e mistério agarram-te bem cedo
  • Este filme interativo faz um bom trabalho para dar a ilusão que tens real interferência no desenrolar dos eventos
  • A aposta num tom real, com pequeno toque de sobrenatural, torna ainda mais fascinante o desenrolar de alguns acontecimentos
  • Quantidade incrível de finais possíveis com 9 personagens e em meros segundos podes perder a oportunidade de salvar uma vida
  • As animações não acompanham a qualidade visual dos modelos
  • Tentar diferentes opções acaba por ir dar ao mesmo em muitos momentos, quebrando a ilusão de interatividade em certas fases do drama
  • Muitos momentos desconexos, em que os personagens mantêm a calma e nem parecem ter passado pelo horror que acabaram de passar
  • Manipulação artificial do gameplay para ser muito mais difícil salvar vidas em algumas cenas na última meia hora

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Sobre o Autor

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Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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