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The Last of Us: Parte 1 usa a PS5 para marcar uma nova geração

Debate interativo sobre o carácter humano ganhará uma nova profundidade.

Atualmente, parece banal e comum assistirmos a projetos multimédia que apostam no conceito de um anti-herói como um dos elementos centrais da definição de uma personagem principal, capaz de criar um elo muito especifico com o jogador/espectador. Os bonzinhos há muito que criaram alguma fadiga entre as audiências e os jogadores, o que levou muitas companhias a explorar o cinzento, rompendo com o unidimensional conceito de bom vs mau. Seja na banda desenhada, videojogos, séries ou filmes, é cada vez mais frequente vermos estas personagens que são as principais e que nos fascinam, mas que não jogam de acordo com o livro das regras e não estão restritas por uma postura altruísta.

Este é um dos vários motivos pelos quais considero The Last of Us fascinante, um dos principais projetos na área dos videojogos que ajudou a cimentar o estatuto do anti-herói como alguém com quem podemos criar uma ligação. O título da Naughty Dog, que agora terá direito a um remake, foi pioneiro em diversos aspetos desta indústria, especialmente no tratamento da narrativa e das personagens, o que torna especialmente intrigante este remake.

Diria que não é um jogo para quem jogou o original, se já o jogaste e queres jogar novamente, a Sony certamente agradece. The Last of Us: Parte 1 parece reservar muito mais apelo para quem não jogou o original, indo agora descobrir toda esta marcante jornada que coloca um olhar muito especial no que move o ser humano. É ainda mais intrigante por ser num enquadramento pós-apocalíptico, onde não há margem para a habitual cínica e hipócrita interação social, onde o teste de carácter é levado a limites, sem esquecer que falamos de um videojogo, um formato interativo.

Considero que The Last of Us é um dos jogos mais fascinantes de sempre pelas temáticas, personagens, cenas e acontecimentos. Isto porque, digo eu, visto através de uma lente cínica e desprovida da habitual paixão que nos faz sentir orgulho por termos os videojogos como passatempo predileto, o seu gameplay tem imenso para melhorar e na sua essência deriva de Resident Evil 4. O jogo da Capcom teve um enorme impacto nos jogos de ação e aventura na geração que veio em seguida, desde Gears of War a Uncharted e muitos outros mais títulos na terceira pessoa. É especialmente por isso que considero o remake um produto válido, intrigante e capaz de fazer por uma nova geração o que o original fez pelas anteriores gerações de jovens jogadores.

As melhorias gráficas, o uso de tecnologias como o SSD na PlayStation 5 e PC, sem esquecer as funcionalidades do DualSense, vão certamente trazer algo de fresco a uma experiência com quase 10 anos, porque é o refinar do gameplay, otimizar dos controlos, expansão e aprofundamento das mecânicas de jogo que parecem realmente oportunas. A Naughty Dog teve a oportunidade de voltar a um dos seus mais marcantes títulos para o apresentar a uma nova geração, numa forma atualizada e isso é algo com o qual apenas poucos estúdios sonham. Estas melhorias no gameplay e experiência de jogo são o seu ponto para investigar novidades, uma vez que narrativa de The Last of Us é um ponto marcado a ouro na gloriosa linha cronológica desta industria e que poderá ser encarado neste projeto como rever uma série ou ver pela quinta vez aquele filme que tanto adoras.

As experiências de forte cariz cinematográfico profundas e capazes de alimentar a alma ainda são raras, imaginá-las com todas as melhorias visuais é empolgante.

Após perseguir ao longo de três jogos a narrativa do bom bandido, com Nathan Drake de Uncharted a ser, para todos os efeitos, um criminoso que mata incontáveis rufias e coloca em constante perigo os amigos porque apenas pensa em encontrar mais um tesouro, a Naughty Dog decidiu explorar a sério a dissonância ludonarrativa na forma de The Last of Us. O jogo começa com um forte soco no estômago, jamais esperarias ver um protagonista tão humano, frágil e incapaz de contrariar os eventos que estavam a suceder à tua frente, sem que estivesses de forma alguma preparado para aquilo. O talento da Naughty Dog está em transformar o drama e pânico de Joel Miller em algo quase palpável, que devido ao envolvimento gráfico sentes como se fosse teu. Nem sequer quero imaginar jogar os primeiros momentos do jogo como pai, mas é um início dramático e doloroso que ainda hoje vive na memória de quem o jogou. Em 2013, um videojogo conseguir este efeito foi algo simplesmente arrebatador.

Após um salto temporal, temos Joel totalmente quebrado por um mundo pós-apocalíptico no qual o que resta da humanidade é forçado a viver em locais protegidos dos infetados. A dor consumiu por completo Joel, um homem amargo e até mesquinho que cumpre algumas tarefas de contrabando para sobreviver. Quando recebe a missão de ajudar a transportar em segurança uma jovem mulher que pode ser a chave para salvar a humanidade, Joel mostra o quão desprezível se tornou e prefere abdicar do perigo em que isso o vai envolver. Graças a Tess, Joel aceita a missão, mas a entrega de Ellie à organização que a pode ajudar torna-se muito mais complicada. Poderia escrever um texto a falar momento a momento de The Last of Us, das personagens, dos dramas, da intensidade e das mensagens aqui explanadas, mas basta resumir que o culto do anti-herói é tratado com incrível graciosidade ao assistirmos à transformação de Joel.

O protagonista divide as responsabilidades com Ellie, ao longo da jornada que se torna muito mais longa do que inicialmente previsto, a triste e cruel poesia da vida escrita pela Naughty Dog volta a fazer das suas. Após a resistência inicial causada pelo trauma da perda, Joel encontra em Ellie uma segunda oportunidade na vida e consoante surgem questões altamente sensíveis e provocadoras em torno do enredo e personagens, começam a surgir questões sobre o plano de Joel e, claro, a tua própria interpretação e desejo para o desfecho torna-se numa introspeção sobre o teu carácter. Diria que esta é a magia de The Last of Us, criar uma espécie de espelho entre Joel e o jogador, um debate filosófico sobre quem verdadeiramente somos e como as ações falam mais alto que as palavras, traçam o perfil do nosso carácter.

É fácil olhar para The Last of Us e sentir que ainda está tão vivo e presente na nossa memória, tal é a força e impacto da narrativa ou personagens.

A Naughty Dog criou uma narrativa que ao explorar a definição do que nos torna humanos, num mundo de desespero e monstros que torna mais fácil revelarmos quem verdadeiramente somos, sem a tal cortina de ilusão que a interatividade social tão hipócrita torna, assume a forma de um debate comum entre o personagem que controlamos e nós próprios. Foi altamente fascinante jogar The Last of Us e pensar constantemente no que faria no lugar de Joel, a transformação que ele regista consoante a narrativa avança, se faria o mesmo e se existe mérito ou justiça nestes acontecimentos.

O brilhantismo do trabalho da Naughty Dog não pode ser menosprezado, deve ser estudado e elogiado pelos seus méritos. É uma arte que merece aplausos e que marcou a indústria dos videojogos e é precisamente por isso que o remake, chamado The Last of Us: Parte 1, poderá alcançar um efeito inesperado. Passaram 10 anos, existe agora uma nova vaga de jogadores que não jogou o original, outros entretanto são pais das suas crianças e vão ter a oportunidade de enfrentar novamente aquele debate interativo sobre a definição de carácter humano que nos define.

No entanto, isso agora será feito com o poder de uma nova tecnologia, PlayStation 5, com um comando que permite desfrutar de feedback mais dinâmico, DualSense, com maior imersão nos momentos em que enfrentamos os infetados. Momentos em que temos de apostar no gameplay furtivo podem tornar-se ainda mais intensos com a ajuda do Dualsense, enquanto a otimização do gameplay poderá corrigir o que o original deixou a desejar. A inteligência artificial em especial é um dos elementos que mais melhorias precisa e onde a Naughty Dog pode subir imenso a imersão.

Estou curioso sobre as melhorias no gameplay, nas animações, IA e uso do DualSense, mas teremos de esperar por setembro para descobrir o mérito neste esforço

As melhorias gráficas vão sem dúvida ajudar a tornar ainda mais humanos, dramáticos e chocantes aqueles momentos que ainda hoje vivem na memória dos que o jogaram, não pela nova iluminação ou roupas com mais detalhes, mas sim pela maior expressividade que estas personagens ganharão. Se em 2013 o jogo impressionou pelo realismo e credibilidade dos personagens, que são usados para explorar a essência humana quando subjugada aos maiores níveis de crueldade, em 2022 prometem estar ainda melhores e mais impressionantes quando vistos à lupa destes quase 10 anos de avanços tecnológicos.

Expandir o gameplay com mecânicas da sequela, otimizar os controlos e refinar uma experiência marcante poderá ser visto como algo escusado, mas para os novos jogadores que o deixaram escapar ou não tinham idade para entender a sua proposta, The Last of Us: Parte 1 para a PlayStation 5 (mais tarde para PC) poderá conseguir o raro feito de marcar toda uma nova geração e é por isso que não consigo deixar de ficar intrigado com a proposta. Obrigado por me acompanhares ao longo deste texto, estejas ou não empolgado com o remake, mas este é um projeto que poderá marcar novamente a indústria, uma vez que um dos mais acarinhados jogos de sempre vai agora ser apresentado com pompa e circunstância a uma nova geração. Talvez até consiga mais uma vez recuperar lições de empatia.

Sobre o Autor

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Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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