Se clicares num link e fizeres uma compra, poderemos receber uma pequena comissão. Lê a nossa política editorial.

Return to Monkey Island - Conversa de piratas posta em dia

O X no mapa é só o pretexto para algo maior.
Eurogamer.pt - Recomendado crachá
Nostalgia, reencontros e risos num novo e memorável périplo.

Anunciado em Abril passado, Return to Monkey Island apanhou a comunidade “gamer” de surpresa. Afinal, 30 anos após Monkey Island 2: LeChuk’s Revenge, Ron Gilbert e um punhado de virtuosos criadores dedicaram-se a recuperar um daqueles tesouros que os fãs de Monkey Island há muito haviam dado como perdido nessas águas impenetráveis por onde as naus de piratas navegam. Criado num tempo em que as aventuras de point’n click serviam de base a mundos dignos da mais profunda exploração, celebrando imaginários dignos de realce, o legado de Monkey Island é de tal ordem que nem este Return To Monkey Island escapou à fleuma dessas redes desejosas de brandir a espada ao mínimo ensejo de ruptura com as bases do passado.

Ron Gilbert sofreu na pele o fervor dos fãs, acicatados por um grafismo arrojado, porventura adulterado nos seus condimentos, embora restaurando o propósito e o legado dos dois primeiros jogos da série. Return to Monkey Island encerra uma celebração e um legado, transportando nostalgia e uma estrutura de um tempo marcado por essas aventuras de análise minuciosa de informações e avanços ditados por bons argumentos nos quais não faltam as notas humorísticas e os desenlaces surpreendentes. A celebração de Return to Monkey Island é por si só suficiente enquanto um dos lançamentos do ano, desta feita com a publicação da Devolver Digital e o desenvolvimento a cargo da Terrible Toybox.

Mais do que um simples “refrescar” de Monkey Island, vislumbra-se um firme desejo da produtora em alcançar uma fasquia ou um conteúdo que não foi possível nos dois primeiros jogos. Se não os jogaram não receiem o vínculo com os clássicos. Nada foi deixado ao acaso, e é por isso que vão começar por descobrir no jogo uma espécie de “scrapbook” para vos guiar ao longo dos jogos iniciais e dessas aventuras que uma vez percorridas em forma de “fast forward” constituem o pontapé de saída para uma nova aventura, jornada talvez arrojada, embora a meu ver em nada discutível do ponto de vista de apresentação visual, capaz de lembrar o desembrulhar de um belo Tearaway.

Sobram razões para isso, do ponto de vista de uma direcção artística capaz de surpreender pela firmeza do traço, pela elegância e profundidade imprimidas às personagens e cenários, numa imagem plausível, renovada e ao mesmo tempo em sintonia com os traços originais. A cargo de Rex Crowle, a arte com que nos patenteia neste Return incorpora traços e cores de um Tearaway e de um Knights & Bikes. Mas assim que avançamos pelo jogo e penetramos nas múltiplas áreas, desbravando diálogos com npc’s e interagindo com múltiplos elementos na tentativa de resolver os apetecíveis e árduos puzzles, percebemos que há uma linha e uma composição que tal como o algodão, não engana.

Ron Gilbert e Dave Grossman trabalharam num novo argumento, desenvolvendo velhas personagens, como Guybrush, Elaine ou o pirata fantasma zombie LeChuck, o nemesis do primeiro, e criando novas, minimizando as distâncias temporais através do recurso às mesmas vozes que marcaram os trabalhos primitivos, entre as quais militam novamente Dominic Armato, Alexandra Boyd e Jess Harnell. É nesse ponto de nostalgia, servida aos fãs pela forma como são revelados os dois primeiros jogos da série, que se reclama um espaço de cobertura maior, através do qual Return to Monkey Island também capta um sentido de demarcação, não só visual mas em termos narrativos e na forma como se processa a interacção. Vale a pena lembrar que o jogo saiu em Setembro para os sistemas Switch, PC e Apple, chegando agora às consolas PS5 e Xbox Series S/X (versão que aqui analisamos). Facilmente é um jogo que vale por si, sem requisitar demasiado conhecimento ou base da série para que seja aproveitado.

Certo é que regressam velhos hábitos e uma sede de conquista por um segredo lendário. O que traz esta espécie de arca de tesouro é uma profusão de personagens e um périplo por viagens entre ilhas, inúmeros puzzles e constantes trocas de galhardetes algo patetas entre piratas. Guybrush, assim como a trupe de piratas, não escapa ao constante tom humorístico da aventura, um registo crucial e constante, quase sempre uma piada ao virar da página, decorrente das circunstâncias ou de alguma coisa que a seu tempo nos parece fora do contexto mas vem a revelar-se cabível em algo interessante. Este tom divertido e humorístico é a seiva de uma aventura que parece pregar constantes surpresas, através de locais e algumas peregrinações aprazíveis numa atmosfera que os fãs reconhecerão.

As vozes preenchem com eloquência as imagens ou gravuras se assim lhes quisermos chamar, e servem de suporte a um trabalho sonoro não menos que memorável, com destaque para uma banda sonora igualmente nostálgica, produzida pelos mesmos criadores dos originais. Return to Monkey Island consegue levar por diante as anteriores fronteiras. Há uma vaga nostálgica naquele território e na forma como as personagens se movem e criam contextos, mas é igualmente trabalhada em situações férteis de um presente, de momentos e contextos actuais, em oposição tantas vezes vistas tendências de de consolidação meramente nostálgicas. O que é novo em Return é feito pelos mestres de sempre, mas também eles motivados pelo desejo de avançar e imprimir um novo rumo aos arcos narrativos primitivos. Para isso muito contribui o trio de piratas. Pouco confiáveis, formam uma espécie de novo desafio a Guybrush, enquanto que Stan Stanman, no seu renovado ofício serve de intermediário às autoridades de Mêlée Island.

Com uma opção que permite desfrutar da aventura sem grandes contrariedades nos múltiplos puzzles, o adequado é desfrutar de Return to Monkey Island no modo difícil, no qual os puzzles se revestem de maior dificuldade e nos levam a tomar em conta uma série de possibilidades. Vem a calhar que o sistema de interacção é bastante acessível, com destaque para círculos sobre pontos a seleccionar. O sistema, bastante interactivo, permite a utilização de objectos, a entrada em áreas, casas ou espaços como bares e outras zonas recônditas e secretas, e a lista dos afazeres é indispensável. Tudo o que seja passível de interacção deve ser examinado e só dessa forma poderemos prosseguir.

Avanços na aventura conduzem a puzzles não só mais árduos mas variáveis na estrutura, aparecendo muitas vezes em pequenos passos ou tarefas do momento, e noutros contextos mais implicados com a narrativa, solicitando atenção. Curioso que os produtores tenham optado por criar um sistema de dicas de molde a evitar a consulta de faqs ou vídeos na internet, com o risco associado dos spoilers. É um sistema que não sendo inédito possui este condão de nos clarificar ou aguçar a mente para a resolução do puzzle, abrindo caminho à resposta certa. Se o pico da frustração tocar a campainha podemos sempre solicitar mais uma dica.

Decorridos 30 anos desde o último Monkey Island assinado por Ron Gilbert e Dave Grossman, Return to Monkey Island chega até nós nessa forma nostálgica e fascinante com que reconhecemos velhas personagens e um lendário segredo por revelar. É toda uma construção assente no poder da narrativa e no quão humorístico e divertido consegue ser em segmentos de exploração, ou simplesmente nas operações de puzzles. A magia de Monkey Island ainda lá está, o tom familiar das vozes brinda-nos com ecos do passado, mas é também uma aventura nova, recheada de novas personagens e um salto fervoroso no capítulo das surpresas, sendo a arte visual um elemento dessa capacidade com que surpreende com sucesso. Calaram-se as vozes contestatárias e, hoje, tanto novos jogadores como veteranos procuram o tal segredo com o mesmo fervor de há 30 anos.

Prós: Contras:
  • Scrapbook acomoda novos e jogadores veteranos
  • Arte gráfica
  • Vozes e banda sonora
  • Novas personagens
  • Diversidade de puzzles
  • Sistema de interacção acessível e intuitivo
  • As piadas, o humor e os contextos
  • Utilidade do sistema de dicas
  • Backtracking exagerado nalguns segmentos
  • Desnecessário modo casual

Descobre como realizamos as nossas análises, lendo a nossa política de análises.

Marcado com
Sobre o Autor
Vítor Alexandre avatar

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

Comentários