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Polígonos no Horizonte

Actos violentos marcam o regresso da indústria dos jogos às fogueiras.

Na semana que hoje finda os videojogos voltaram a ser assunto fora da antecâmara da indústria, desta vez pelas piores razões, outra vez. Isto porque, como já deve ser do conhecimento de muitos, na passada quarta-feira um adolescente alemão irrompeu pelo liceu da sua localidade, em Winnenden, subúrbio de Estugarda, e chacinou 15 pessoas antes de se suicidar numa altura em que já estava praticamente encurralado pela polícia. Para surpresa dos habitantes da localidade, Alemanha, Europa e até numa dimensão mundial, crimes desta envergadura voltam a causar tremendo espanto e choque. Pese embora as situações semelhantes, que geralmente culminam no suicídio do prevaricador, estejam circunscritas no tempo há uma tendência para a prática reiterada, sobretudo depois do massacre de Columbine.

No calor do choque, das imagens que passam sistematicamente pela televisão, de choros e relatos eivados de uma sofreguidão natural, o que se procura obter de seguida – quase como um imperativo tranquilizador - é uma causa para esse crime furioso, uma caça às bruxas. Numa sociedade que se tende a definir como mais informada, pelos recursos da televisão e da internet, o apelo motivado pelas autoridades, governos e media passa pela definição de um bode expiatório imediato. Eu valorizo alguns programas do género “Prós e Contras” por veicularem a troca de opiniões e a discussão à volta de alguns temas prementes. Mas não integro o grupo dos que julgam que daquelas duas horas de programa sairá uma resolução concreta para o problema cuidado ou uma espécie de luz que ateou de momento caminho. Longe disso. Nos programas dessa índole pouco mais se pode fazer que uma mera discussão do tema e muitas vezes abandona-se a discussão sem que a seu tempo venham a ser tratadas com rigor as causas para o problema e respectivas tentativas de solução.

Nos tempos imediatos à divulgação do massacre em Winnenden os videojogos voltaram a estar como pretensa influência e motivação para aquela atrocidade tão só porque o jovem tresloucado teria uma certa predilecção por jogos violentos. Pelas piores razões, a indústria dos jogos volta a estar no centro das atenções e foi apontada como culpada por políticos e outras autoridades, que entendem não existir suficientes restrições ao acesso a jogos que titulem conteúdo mais violento.

De certo modo o balão rebentou em casa. É sabido que a Alemanha é o país da Comunidade Europeia que apresenta legislação mais severa no tocante à distribuição no mercado de conteúdos menos próprios para os menores de 18 anos de idade, em razão da particular violência dos conteúdos, entre outras razões. De tal modo que jogos como Gears of War 2, Resident Evil 5 e Madworld pura e simplesmente são censurados. Não há como obter esses jogos na Alemanha senão recorrendo à importação. Os dois primeiros nem os vimos na pretérita feira de Leipzig, mas apesar da exibição à porta fechada de Madworld, o próximo título para a Wii ficará de fora por terras germânicas.

Não vivi na época do Estado Novo. Nasci com a liberdade e abertura de fronteiras à diversidade cultural e embora seja de admitir a natureza de critérios exigentes, requisitos absolutos na distribuição de conteúdos menos próprios aos jovens, cujo interesse nem sempre é cumprido pelos retalhistas, não me sentiria bem por viver num país que ceifa e censura o acesso às diferentes formas de conteúdos e criações.

Apesar de todas as restrições impostas na distribuição de certos videojogos na Alemanha, mesmo assim a senda governamental contra a indústria colhe novo alento. No calor da discussão parece, porém, faltar margem para argumentar outros factores associados, embora menosprezados, como a depressão do jovem cujo acompanhamento psiquiátrico fora interrompido em Setembro de 2008, as 18 armas pertença do pai espalhadas pela casa e o facto de ser filho único de um empresário rico. Já não basta a censura aos jogos, nem o relevo e estudo de outras causas bem mais evidentes para a levar a cabo de acto tão violento. Neste imediatismo onde as fogueiras falam mais alto e se volta à caça das bruxas, os jogos voltam a ser o patinho feio.

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Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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