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LIVE A LIVE - excentricidade ao longo das eras

Um dos maiores clássicos de culto da Square Enix.
Eurogamer.pt - Recomendado crachá
Estranho, encantador, repleto de mecânicas inesperadas e um JRPG diferente de tudo o que já jogaste.

Existe um efeito que considero absolutamente espetacular quando descobrimos algo novo, algo tão marcante que nos causa um arrepio no corpo e sabemos que definirá os nossos gostos. Aquele efeito de saborear algo tão brutal que nos deixa num estado de êxtase, cuja onda de choque é um frenesim de descoberta por coisas similares que mantenham esse estado de graça, numa constante exploração que serve como combustível para a adrenalina. Quando Final Fantasy 7 foi lançado no ocidente, tornou-se em mais do que um memorável clássico, foi responsável pelo despertar da paixão por JRPGs numa geração inteira. O despertar para um novo género deixou os jogadores à procura de mais alimento para a alma e enquanto aguardavam ansiosamente por um novo, deliciavam-se com a possibilidade de jogar o que estava para trás.

É por isso mesmo que fiquei em êxtase quando LIVE A LIVE foi anunciado, na forma deste remake HD-2D, através do qual a Square Enix apresenta ao mundo um dos seus maiores clássicos de culto. Na exploração dos JRPGs e desse mundo mágico que de repente surgiu perante toda uma nova audiência, diversos jogos ficaram ao nosso alcance, mas outros, como este, estiveram até agora restritos à sua consola de origem e ao Japão. Se tivermos em conta o quão singular é LIVE A LIVE, mais gosto dá descobrir uma experiência que mesmo num género marcado pela excentricidade é ainda hoje estranha e brilhante.

LIVE A LIVE chegou ao Japão em 1994 e rompeu quase todos os moldes característicos de um JRPG da altura, talvez por isso seja tão único e uma espécie de estranho na sua casa. Ao invés de apostar numa personagem principal e numa luta do bem contra o mal, a equipa liderada por Takashi Tokita apostou em 8 personagens dispersas por 8 eras da humanidade, desde a pré-história a um futuro distante com tecnologia muito avançada. Pelo meio tens o Velho Oeste, China Imperial, o Presente, Japão Feudal, época Medieval e um futuro próximo.

Cada era conta com uma personagem principal diferente e até ramificações no estilo de jogo, com mecânicas próprias. Apesar da maioria das experiências durarem pouco, são quase todas surpreendentes se pensares que estás perante um JRPG, devido ao uso de designs inesperados e, em alguns casos, o total foco em situações específicas. O presente, por exemplo, é uma espécie de modo boss rush no qual a Square Enix parece satirizar Street Fighter, onde tens um misto de jogo de luta que nos combates é um RPG por turnos. O futuro distante apenas tem uma luta e na sua maioria é uma espécie de jogo de aventura. O Velho Oeste resume-se a uma cena numa cidade, onde tens tempo limitado para preparar as defesas e a dificuldade depende dos teus atos.

São apenas 3 exemplos do quão multifacetado e estranho é LIVE A LIVE, um JRPG que frequentemente nem parece um JRPG e sem nada equiparável na maioria dos momentos. De todas as experiências, a que mais se assemelha a um JRPG característico é o futuro próximo, onde tens até um pequeno mapa mundo e subir de nível é importante. Em muitas destas experiências podes jogar sem combater e em algumas delas nem sequer podes subir de nível, dois exemplos de como LIVE A LIVE "brinca" com conceitos que na altura, ainda hoje, eram considerados essenciais e pilares de um JRPG.

Toda esta diversidade de temas e excentricidade de estilos de jogo resulta numa proposta sensacional e marcante, que será difícil de esquecer, especialmente se enquadrares o lançamento em 1994 e o risco do que tentaram fazer aqui. É sublime pensar como LIVE A LIVE rompe com os moldes e arrisca em algo muito próprio. O mais típico que encontrarás no jogo é o estilo visual (mesmo no formato remake que tenta capturar a estética dos JRPGs dessa era) e o sistema de combate por turnos.

Tal como as temáticas e eras, também existem nuances no combate por turnos de acordo com as especificidades de cada personagem. No presente tens de roubar habilidades aos adversários e encontrar os inimigos vulneráveis a determinadas habilidades para os despachar mais facilmente, na China Imperial o velho mestre já aprendeu tudo e nem sobe de nível, no Velho Oeste apenas tens duas lutas e somente na Pré-história ou Futuro Próximo tens conceitos mais característicos aos JRPGs, com a necessidade de subir de nível e ficar mais forte quando isso acontece, seja pelo aumento dos atributos ou conquista de novos ataques especiais.

O movimento na grelha e espera pela vez para atacar esta presente em todos, tal como a possibilidade de usar ataques especiais que podem causar efeitos negativos nos inimigos, é comum a quase todas as eras, mas se a base é a mesma, existe muito em cima que varia. O sistema de combate é também em si uma forte amostra da personalidade multifacetada de LIVE A LIVE, um excêntrico num universo de excentricidade.

Apesar da maioria dos cenários durar menos de uma hora, os temas, personagens, banda sonora e acontecimentos conseguem divertir ou emocionar. Existem uns mais bem conseguidos do que outros, mas no geral, apesar de curto, LIVE A LIVE é um jogo que marca quem o joga pela diferença alcançada ao romper com os convencionais moldes do JRPG. Fiquei fascinado especialmente com a forma como explora diversos aspetos da humanidade através de uma lupa aparentemente inocente, mas repleta de intenção.

Não esperes aqui uma experiência JRPG comum, com mapa mundo e a necessidade de subir de nível ou até foco nas batalhas e grind. Não existe aqui nada disso, quase poderias debater se LIVE A LIVE é mesmo um JRPG ou algo muito próprio. Os cenários são relativamente pequenos, mas a dificuldade de alguns momentos ditam que deves gravar constantemente, especialmente tendo em conta que os combates não são obrigatórios, ao contrário de muitas boss fights que o são. Ao não apostar no habitual design de exploração, masmorra, exploração, masmorra, a Square Enix entregou um clássico de culto que ainda hoje se diferencia facilmente dos demais.

A década de 90 está repleta de JRPGs fantásticos, muitos deles lançados antes de Final Fantasy 7 iniciar essa tal revolução. Muitos estão a receber novas versões e até remakes ou remastes, mas nenhum se pode comparar a LIVE A LIVE da Square Enix. Este jogo é claramente diferente de tudo o que já viste e mesmo hoje é algo muito próprio. Cada uma das 8 histórias aposta em mecânicas próprias, designs inesperados e tudo acaba por se juntar de uma forma soberba. Parece um daqueles projetos de cientistas loucos pelo qual é impossível não ficar apaixonado e que foi recuperado numa espetacular versão HD-2D.

Prós: Contras:
  • Estilo visual HD-2D continua adorável e apelativo
  • Rompe por completo com os padrões dos JRPGs
  • Diversas histórias memoráveis com um final surpreendente
  • Banda sonora de elevada qualidade
  • Repleto de referências a outros jogos ou filmes de forma engenhosa
  • Cenários relativamente curtos e uma duração geral curta
  • Picos de dificuldade que forçam a gravação constante do jogo

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Sobre o Autor

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Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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