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Jessica Jones T2 - Sinto que assisti ao início de uma das melhores séries da Marvel

Uma anti-heroína com muito mistério na vida.

Enquanto fã dos comics da Marvel, que desde criança acompanha personagens com coragem suficiente para sair de casa com as cuecas por cima das calças, sem falar nas incríveis lutas contra vilões galácticos, tem sido fascinante assistir aos filmes da Marvel Studios. Personagens que jamais esperaríamos estão a ganhar vida no grande ecrã e com uma qualidade incrível. É uma era como nenhuma outra para se ser fã da Marvel Comics. Especialmente porque também temos as séries televisivas que se focam em personagens sem estofo intergaláctico, com temáticas mais mundanas, com personalidades não tão simples e com realidades em que existe muito mais cinza do que preto ou branco, mas igualmente apaixonantes.

A parceria entre a Netflix e a Marvel Studios permitiu que heróis ainda mais improváveis ganhassem vida em ecrãs mais pequenos, com o formato de uma série televisiva disponível de imediato na sua totalidade. Um conceito que está a tomar conta do mundo, ao qual muitos já estão totalmente habituados e rendidos. Estas séries focaram-se em personagens que não são tão conhecidos das massas, personagens de Nova Iorque e não propriamente do mundo, personagens que não podem fazer nada nos Vingadores ou nos Guardiões da Galáxia, mas que podem fazer muito pelos habitantes de Hell's Kitchen ou outra qualquer zona de Nova Iorque onde organizações criminosas sem ambições multi-planetárias teimam em operar.

DemoliDor introduziu-nos ao tom das séries Marvel da Netflix. Um tom credível, protagonizado por personagens cujos poderes são fantásticos, mas atribuídos a experiências ou a treino intenso e absolutamente inacreditável. Aqui não existe soro do super-soldado, milionários com dinheiro para criar armaduras ou martelos mágicos, existem pessoas que foram de alguma forma moldadas pela cidade, que tentam sobreviver num mundo em mudança e querem de alguma forma chegar ao fim do dia com a sensação de contribuírem para um bem maior. É esse tom mais humano, as dificuldades diárias e relacionáveis que enfrentam que os torna apelativos. A Netflix optou por gerir de forma mais restrita o elemento fantasia e acredito que resultou.

No entanto, as séries da Netflix tem sido um caso de "tiro certeiro e tiro falhado", onde a insistência em temáticas mundanas com personagens capazes de algo fantástico nem sempre patrocinou eventos que satisfizeram. Nos já vimos até no cinema, com o filme Logan, como um mundo de super-heróis moldado para uma perspectiva mais crua a desprovida de fantasia pode ser sensacional, algo que poucas séries da Netflix conseguiram alcançar com o mesmo grau de solidez. As duas temporadas de DemoliDor certamente conseguiram caminhar nessa linha, o Justiceiro removeu quase por completo a fantasia devido à natureza do personagem e apresentou-nos a mais violenta série da Marvel, mas toda ela intensa e envolvente.

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"Existem novos personagens, mas são as figuras que já conheces que te vão prender ao ecrã".

Outras séries como Luke Cage e Punho de Ferro não conseguiram gerir tão bem as suas personagens com incríveis poderes e o tom mais terra a terra das produções. Especialmente a jornada de Danny Rand, onde o elenco de suporte consegue ter mais interesse do que o personagem principal. No entanto, todas elas serviram para acrescentar algo ao mundo criado para as séries televisivas. O mesmo se pode dizer da primeira temporada de Jessica Jones, uma série que não gerou consenso entre os fãs. O potencial de um vilão como Killgrave bate o de qualquer outro numa série da Marvel e senti que não foi utilizado da melhor forma ao longo da trama. Pessoalmente, Jessica Jones deu-nos uma das piores séries desta parceria da Marvel com a Netflix, onde o potencial de grandes personagens foi desperdiçado.

Talvez seja por isso que fiquei surpreendido por ver uma segunda temporada mais interessante e cujos primeiros 5 episódios me deixaram a pensar que acabei de ver o início da que se poderá transformar numa das melhores séries da Marvel e da Netflix. Lembro-me quando assisti aos primeiros episódios do Punho de Ferro que a ideia foi a de uma série cujo mérito apenas era o de solidificar o tom credível destes personagens, mas a segunda temporada de Jessica Jones fez muito mais do que isso, deu-lhes entusiasmo, interesse, vontade de assistir ao próximo episódio. Dei por mim a assistir porque queria e sentia que precisava descobrir o que vinha a seguir, não porque era obrigado.

A segunda temporada começa depois dos eventos vistos em Marvel - Os Defensores, quando Jessica já é conhecida pela polícia, especialmente pelo que se passou com Killgrave, mas também pelo que aconteceu com a Hand. Algum do público de Nova Iorque já a conhece e Jessica está agora numa nova fase da sua vida lastimável: um mundo sem Killgrave, mas no qual continua a mesma pessoa anti-social com muitos segredos no seu passado. A segunda temporada começa quando a Trish decide investigar o passado de Jessica, iniciando uma série de eventos que vão testar as capacidades da investigadora com fracas aptidões sociais e expor todos os segredos que teme descobrir. Segredos sobre os seus poderes.

Não é à toa que a segunda temporada de Jessica Jones estreia a 8 de Marco, o Dia Internacional da Mulher. Esta é uma série que desde o início coloca personagens femininas em grande destaque, algo que não se sente forçado, pelo contrário, aproveita a realidade da personagem para adquirir um tom muito próprio. Sendo uma investigadora com problemas em investigar certos acontecimentos na sua vida, esta anti-heroína enfrenta dois tipos de problemas: os que lhe caem no colo e aqueles em que se mete, mas não tenhas dúvida, ela está sempre metida em problemas, de várias frentes e todas elas com algo a acrescentar à personagem na qual Jessica parece pronta para se transformar.

A segunda temporada aposta no que de bom a primeira teve para continuar a formar a sua personalidade, especialmente no destaque de Jessica enquanto investigadora que fala consigo mesma, como se fosse a narradora do seu próprio filme noire, na forma como lida mal com o seu passado e como os seus poderes apenas reforçaram a sua personalidade anti-social. A segunda temporada de Jessica Jones parece combinar de melhor forma a personagem com a postura da Marvel e da Netflix para as séries. Talvez seja apenas o caso de um argumento mais robusto, mais entusiasmante, com uma cadência de eventos mais sólida e melhor estruturada, mas a segunda temporada parece muito superior à primeira.

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"A fantasia e o credível continuam lado a lado para situações surpreendentes."

Dos cinco episódios que vi de Jessica Jones T2, fiquei rendido aos acontecimentos, aos personagens e em especial a Jessica, a peça central que une todos os outros. Existem mais personagens convincentes e que vão tornar o mundo de Jessica mais interessante. A principal diferença que senti para a primeira temporada foi a vontade de ver mais, de ver o próximo episódio, de ver o que acontecerá em seguida, de ver como Jessica lidará com as situações que surgem e como vai progredir enquanto mulher, enquanto "freak" como chamam os habitantes de Nova Iorque aos indivíduos com poderes que não são conhecidos como os Vingadores que passam na televisão, como amiga, irmã, e até como investigadora que tenta gerir um negócio.

Ainda falta ver metade de Jessica Jones T2 e já senti o que é ficar entusiasmado com a primeira metade de uma série para depois a ver descarrilar por completo, desperdiçando o que de bom fez apenas porque precisa preencher episódios. Espero que Jessica Jones não cometa esse erro no resto da segunda temporada porque o que demonstrou aqui foi a capacidade para se posicionar como uma das melhores séries nesta parceria da Marvel com a Netflix. Depois dos Defensores, a parceria entre a Marvel e a Netflix parece pronta para uma nova etapa, como se fosse uma segunda fase. Depois das temporadas de introdução ou origem, teremos uma nova vaga de de séries, na qual poderá corrigir erros, gerir melhor o seu ritmo, de tornar as duas personagens mais convincentes e apelativas.

Jessica Jones consegue focar-se no mundano, nos dramas do dia a dia, através das suas várias personagens, mas sempre com o elemento especial e surreal que existe graças à presença de Jessica nas suas vidas. Mostra como lidam com diferentes problemas e de uma forma que glorifica especialmente as mulheres, mas sem estandartes ou a necessidade de se qualificar como algo mais, faz-lo com uma sauddável naturalidade. Fico à espera de mais e a desejar que o potencial seja realizado em pleno.

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