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GTA Trilogy: The Definitive Edition review - O pecado da Rockstar

Os três clássicos da PS2 mereciam melhor.
Os três clássicos GTA continuam divertidos, mas mereciam uma remasterização melhor, com maior dedicação e, sobretudo, sem cortes musicais.

Se na minha adolescência me perguntassem qual era o meu jogo favorito, a resposta era imediata: Grand Theft Auto. Certamente, muitos dariam a mesma resposta. A saga da Rockstar Games era bastante popular entre aquela faixa etária, ainda que a recomendação legal fosse para maiores de 18 anos. A enorme dose de liberdade, que nos deixava fazer coisas que nunca viríamos a fazer na vida real, era simplesmente cativante. Não existia mais nenhum jogo semelhante, com mapas tão grandes, cidades meticulosamente criadas, com tantas possibilidades, e com narrativas tão ligadas ao mundo criminoso.

Não tenho escondido que o meu amor por Grand Theft Auto arrefeceu nos últimos anos. O último jogo que gostei realmente foi Grand Theft Auto IV. Recordo-me de estar entusiasmadíssimo com Grand Theft Auto V, de comprar a edição de coleccionador. Quis adorar o jogo tanto quanto os outros, mas ultimamente não consegui. As personagens e a narrativa não ressoaram comigo como nos jogos anteriores, ainda que tenha que admitir que Grand Theft Auto 5 tem o mundo aberto mais impressionante de toda a saga.

Quando a Rockstar Games anunciou a GTA Trilogy: The Definitive Edition voltei a sentir um entusiasmo que não sentia há muito. De longe a longe, regressava aos antigos jogos da série no PC. Sabia que precisavam de alguns ajustes para se adaptarem aos padrões modernos, mas o potencial continuava lá. Continuam a ser bons jogos, até para os padrões actuais. Com esta edição definitiva, os clássicos da era da PlayStation 2 podiam brilhar novamente, pensei. Com o poder das novas consolas, esta remasterização pode ser uma das melhores de sempre, continuei a pensar.

Não podia estar mais errado.

Uma remasterização que nem tudo melhora

Para um trilogia que teve um impacto tão grande na história dos videojogos, esta Definitive Edition recebeu um tratamento banal, descuidado até. Esta falta de consideração começa logo por terem entregue a remasterização à Grove Street Games. Foi o estúdio responsável pelas versões mobile de GTA e praticamente não tem experiência nas consolas. Idealmente, deveria ter sido a própria Rockstar Games a tratar da remasterização, assim como a Bioware tratou da Mass Effect: Legendary Edition, uma das melhores remasterizações de sempre.

Não tenho desdém pela Grove Street Games, mas num trabalho tão importante como este e num lançamento tão relevante, mereciam a ajuda da Rockstar Games. Esquecendo o facto de que esta suposta Edição Definitiva sofreu um corte brutal na quantidade de músicas das rádios, há coisas que ficaram melhor, mas outras pior. Há sempre artefactos visuais no horizonte e são uma distracção constante. O problema acontece sobretudo com vegetação, como as folhas das palmeiras em Vice City ou San Andreas, ou objectos delgados como postes de iluminação, cabos de electricidade, e redes metálicas.

"Há sempre artefactos visuais no horizonte e são uma distracção constante."

Fora os artefactos, há um leque enorme de erros relacionados com a lógica e sistema de física. Já com várias actualizações em cima, é impossível jogar mais de 10 minutos e não reparar num erro qualquer, independentemente do jogo: GTA 3, Vice City ou San Andreas. Qualquer hipótese de imersividade é arruinada. As versões originais não eram perfeitas, e estamos a falar de jogos com alguma idade, mas esta remasterização parece ter desajustado as muitas engrenagens nos bastidores. Seja como for, o título de Edição Definitiva não é merecido.

Está melhor visualmente?

E quanto às melhorias visuais, elas existem, mas a verdade é que havia margem para muito mais. O aumento de resolução trouxe uma nitidez maior, as distâncias de horizonte aumentaram, as sombras foram melhoradas bem como alguns efeitos, sobretudo as explosões. Os céus estão embelezados com nuvens, mas nota-se compressão. Os carros agora reflectem o ambiente, aumentando a qualidade da imagem. Todavia, a chuva ficou estranha, parece um filtro à frente da imagem, em vez de algo a acontecer no mundo do jogo. As texturas podiam ser melhor tratadas. Olhar constantemente para as calças do CJ em GTA San Andreas faz-me querer arrancar os olhos de tão esticada que está.

Não sei como aquela textura foi ali parar.

No geral, há muita inconsistência na qualidade. O contraste padrão parece estar demasiado alto, ao ponto em que certas zonas do jogo ficam exageradamente escuras. Até há personagens que mudam o tom da pele, como Lance Vance Dance. Até podia ser problema do painel, mas testei o jogo em duas televisões diferentes (uma da LG e outra da Sony) e num monitor da AOC. O problema persistiu e a única solução é mesmo diminuir o contraste nas definições. É também bizarro que jogos tão datados não corram a 60 FPS em todas as plataformas. Existe um modo de Fidelidade, que bloqueia o jogo a 30 FPS, e outro modo de Desempenho, com alvo de 60 FPS (o alvo é atingido quase sempre, mas há quedas).

"Há muita inconsistência na qualidade. O contraste padrão parece estar demasiado alto, ao ponto em que certas zonas do jogo ficam exageradamente escuras"

Compreendo que plataformas como a PS4 e Xbox One não atinjam a resolução de 4K, mas não compreendo como existe a necessidade de haver modos de desempenho nas plataformas mais recentes - o jogo devia correr sempre com a qualidade máxima, a 4K e 60 FPS. É um claro caso de má optimização. Os novos modelos das personagens são questionáveis, mas nem vou pegar por aí. Pegar naqueles modelos e criar versões melhoradas é uma tarefa extremamente delicada e, francamente, os resultados até são aceitáveis. Nem todas as animações ficaram bem, mas é o que menos me incomoda nesta remasterização.

Apesar de tudo, ainda são jogos divertidos

Mesmo com todos os problemas apontados, há diversão nesta remasterização. Passei facilmente umas boas horas a jogar, a reviver os momentos. A jogabilidade está boa, graças às afinações que foram feitas. Não dá para esconder que é uma jogabilidade reaproveitada, mas não ficas com a sensação de que são jogos completamente arcaicos e ultrapassados. Além disso, foram feitos ajustes de dificuldade a algumas missões particularmente irritantes. A jogabilidade é praticamente igual nos três jogos, excluindo claro funcionalidades específicas para cada um. A nova roda para escolher as armas (acessível no L1 ou LB) é uma dádiva.

Vice City continua a ser o meu favorito dos três, mas San Andreas terá sempre a minha admiração e respeito.

O sistema de mira livre continua a ser uma dor de controlar, mas até o mais recente Grand Theft Auto 5 sofre do mesmo problema. O melhor é mesmo escolher a mira clássica ou mira assistida (que é um bocado inconstante, mas serve). Para quem não lida bem com inglês, a trilogia tem a vantagem de estar traduzida em texto para PT-BR (as versões originais não tinham). Não é a melhor tradução para portugueses, porque existem frases ou termos estranhos, mas dá para compreender perfeitamente. Novamente, Grand Theft Auto 5 também tem essa particularidade, em que o calão PT-BR pode tornar-se difícil de entender para portugueses.

Posto tudo em cima da balança, GTA Trilogy: The Definitive Edition não é um pacote terrível. Há coisas más, mas também há coisas boas. No entanto, quando se pega em algo para melhorar, é impensável que novos problemas sejam introduzidos. É também um desrespeito para os fãs entregar um produto assim, que não atinge o potencial todo que tinha. É uma remasterização de preço completo, mas em que a Rockstar Games não se deu ao trabalho de renovar todas as licenças musicais, preferindo cortar 47 músicas. Se queres mesmo comprar, o nosso conselho é que esperes por uma promoção. Em alternativa, podes jogar a versão remasterizada de GTA: San Andreas no Xbox Game Pass e GTA III no PS Now.

Prós: Contras:
  • Os jogos continuam divertidos e relevantes
  • As melhorias na jogabilidade são eficazes
  • Três jogos num só pacote com grande longevidade
  • Várias melhorias gráficas e visuais
  • Foram cortadas 47 músicas da banda sonora
  • Qualidade visual inconstante
  • Um caso de má optimização
  • Problemas de física e outros erros constantes

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Sobre o Autor

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Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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