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Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time e a ambição da inconvencional animação japonesa

Hideaki Anno termina a sua reconstrução.

Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time está finalmente disponível na Amazon Prime Video Portugal, juntamente com os 3 filmes anteriores, para encerrar a visão sem restrições de Hideaki Anno para Neon Genesis Evangelion. A sua visão para os filmes "Rebuild of Evangelion" é muito superior ao conceito de um remake da anime, é uma reconstrução e expansão, através da qual se viu livre das restrições tecnológicas e orçamentais que o assolaram durante a produção da anime. Após a transmissão original da anime ao longo de 26 episódios em 1995 e 1996 no Japão, Anno deixou os fãs extremamente confusos com um final que não te explica de forma alguma o que está a acontecer ou como ficaram os personagens. Foi um inesperado final anti climático e inundado de subtexto que exige horas e horas de dedicação para tentar descortinar. Para remediar a situação, ainda tentou criar um pouco mais de sentido com o filme "End of Evangelion", uma versão mais convencional dos dois últimos episódios da anime, onde mostra o que acontece no mundo real. As coisas permanecem na mesma confusas e alguns "historiadores" de Evangelion defendem que Anno falhou na mesma no seu propósito.

Evangelion tornou-se num dos maiores símbolos da animação japonesa em todo o mundo, mas na verdade isso não era suposto acontecer, de forma alguma. Anno criou Evangelion a meio de uma forte depressão e a anime foi concebida com o propósito de satirizar e criticar a indústria japonesa da animação. Reza a lenda que Evangelion é tão complexo, adulto e diferente pois nasceu da mente de um ser em depressão saturado em ver produções unidimensionais (propositadamente simples de assimilar e até banais nas suas temáticas) criadas para vender figuras ou deixar os otakus excitados com uma jovem atraente, cuja personalidade inocente mostra constantemente que não tem noção do efeito das suas curvas nos homens. Anno criou uma anime foçada no fim do mundo, que pelo caminho explica a sua origem e o papel do ser humano nestes acontecimentos de uma escala praticamente impossível de assimilar por crianças.

Evangelion é uma série incrivelmente confusa e é quase impossível assistir à anime sem procurar na internet por explicações para algumas cenas ou procurar teorias sobre certos acontecimentos. Para uma criança, assistir à anime é garantidamente um nó cego que deixa o cérebro em modo de pânico. Nem tanto pelas fortes conotações sexuais ou jovens mulheres nuas, mas sim pelas temáticas existenciais, filosóficas, religiosas e sinceramente, pelo tom altamente depressivo e rude de toda a narrativa. Evangelion é uma anime sobre interação humana, crianças de 14 anos sem pais que lutam por uma razão de viver, que criam barreiras à sua volta para os proteger do resto do mundo que não conseguem compreender e é uma exploração do impacto do legado deixado pelos pais nos filhos. Existem imensas interpretações possíveis para Evangelion, especialmente se formos pela temática apocalíptica e ciclos temporais em repetição, mas diria que em termos das suas personagens é uma abordagem à interação humana e às expetativas que geramos sobre nós mesmos para o que os outros pensam de nós, assim de uma forma resumida.

Com temáticas tão fortes explicadas de uma forma brusca ou frequentemente nem sequer explicadas, Evangelion tornou-se num sucesso e Anno não o conseguiu prever. As suas personagens, jovens crianças depressivas, incapazes de lidar com um mundo desolado e à beira do fim do mundo, tornaram-se objeto de aclamação entre os otakus que Anno queria criticar. O criador de Evangelion deixa mesmo subliminares mensagens rudes aos consumidores mais fervorosos da animação japonesa, seja de forma direta no final de "End of Evangelion" ou de forma implícita através de trágicos acontecimentos aos personagens em si, quebrando a quarta barreira na comunicação do enredo. A sensação que Anno evitou a gratificação do espetador nas resoluções para os principais personagens, o desrespeito por alguns deles até, são formas de ver como se diferenciou de todo o restante mundo da animação na década de 90, acabando por inadvertidamente criar um novo evangelho para o que pode ser explanado na animação.

Tudo isto para dizer que a confusa e depressiva narrativa ou mundo de Evangelion não era suposto ter sucesso, para todos os efeitos e propósitos, a anime devia ter falhado, mas foi um estrondoso sucesso mundial e os miúdos depressivos de Tokyo-3 tornaram-se ícones da animação japonesa em todo o mundo, até no próprio Japão. Muita da confusão no argumento de Evangelion, imensas coisas importantes que acontecem fora do ecrã ou pequenos detalhes preciosos que se piscas os olhos perdes por completo, está relacionada com a falta de orçamento ou tecnologia para Anno as realizar em pleno, o que o motivou a apresentar a série de filmes Rebuild of Evangelion, 10 anos depois do filme "End of Evangelion". Este projeto de 4 filmes tenta explicar o surreal e abstrato final da anime original de uma forma que qualquer ser humano consiga perceber, mas pelo caminho expande a narrativa com imensas novidades.

Para uma criança, Evangelion poderá ser vista como uma anime sobre jovens que controlam grandes mechas para enfrentar extra terrestres invasores que pretendem destruir o que resta da humanidade. Pelo caminho descobres que quase todas as personagens estão repletas de problemas, sem pais, à procura de um motivo para permanecerem vivos, sem coragem para se matarem, ou assolados por um trágico passado que terá fortes implicações no futuro. A NERV, organização responsável por construir os EVAS, os mechas gigantes que enfrentam os Anjos (os extra terrestres), é liderada por um homem que na verdade ataca os anjos como parte de um plano maior. Sim, de forma engenhosa, Anno escreveu que os protagonistas e os bons da fita estão sem saber a trabalhar para ativar o fim do mundo, conduzidos por um líder cujos verdadeiros propósitos são revelados somente perto do final.

Olha para mim aqui armado em esperto a tentar explicar Evangelion, maluco que eu sou. Mas o fascínio em NGE é mesmo esse, tentar ir além da fachada e explorar as temáticas, os significados escondidos e puxar pelas diversas camadas. Foi precisamente para remediar os problemas da produção original que Anno montou a sua equipa para recontar e refazer tudo nos filmes, produções mais recentes com um argumento que explica muito melhor o que realmente se passou antes, o que está a acontecer e o que é pretendido pelas diversas partes, mesmo a organização secreta, a SEELE. A anime original explica muito mal, ou nem explica, os conceitos mais importantes. Sejam eles Adam, Lilith, as lanças, o Terceiro Impacto e o Projeto da Instrumentalização Humana. É de loucos pensar em tudo isto e como deram luz verde para produzir Evangelion a meio da década de 90.

Após tudo isto, Anno encontrou a sua tentativa de redenção com Rebuild of Evangelion, como já referi, através de 3 filmes que começaram em 2007 e foram sendo apresentados ao longo dos anos seguintes. No entanto, após o filme 3.0 apresentado em 2012, os adeptos desta animação de ficção cientifica com fortes implicações religiosas tiveram de esperar diversos anos pelo quarto filme, este 3.0+1.0. Após vários adiamentos, acabou por inesperadamente enfrentar a pandemia COVID-19 para mais adiamentos. No entanto, eis que estamos finalmente numa era em que podes ver o final, o verdadeiro final, de Evangelion e descobrir a visão de Anno para Shinji Ikari e restante elenco. Como seria de esperar, as coisas são igualmente loucas, mas é inegável que são muito melhor explicadas e existe um final que podes ver e entender. Os filmes vão muito além da anime e se viste os anteriores sabes bem que aqueles dois últimos episódios da anime que derreteram o cérebro a meio mundo são coisa do passado.

Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time começa imediatamente após o anterior terminar, o que significa que Shinji Ikari está um caco, cada vez mais perdido nos seus próprios dilemas, submerso numa depressão e num estado quase catatónico após os eventos do Quase Terceiro Impacto. No entanto, para o restante elenco começa a surgir o vislumbre de uma vida quase normal, pacífica, numa realidade sem anjos a atacar e com a humanidade a querer voltar ao quotidiano banal. Personagens como Rei Ayanami e Asuka Langley conseguem encontrar um semblante de normalidade e seguir em frente, mas para Shinji as coisas são mais dramáticas. As temáticas existenciais e religiosas continuam a fazer parte da essência desta fantasia de ficção científica, mas são abordadas de uma forma diferente na primeira metade deste novo filme.

Diria mesmo que Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time é um filme de duas metades e apesar da primeira contar na mesma com aquele drama e tom depressivo que te deixará inquieto e até ansioso, a segunda é o final que tanto querias ver e que encerra de uma forma que aguçará a curiosidade dos adeptos das teorias em torno do repetir de ciclos temporais. Sim, após longos anos de teorias sobre como alguns eventos transformam certas personagens em criaturas de estatuto divino, são gatilhos para reiniciar a linha temporal ou criar novas dimensões que terão um final. A apoteótica luta final que mostrará como Shinji encontra as respostas que tanto procura e descobre o caminho para seguir em frente, livrando-se da depressão que o consumia, é caótica e mais focada nas palavras do que provavelmente esperarias, mas estamos a falar de Evangelion e talvez isso não seja uma surpresa. No entanto, existe muita ação e esta loucura é percetível.

O uso de cenas em 3DCG para momentos das batalhas mostra como Anno usa a mais recente tecnologia para ir além do que era possível quando tentou realizar pela primeira vez a sua visão, em 1995. No entanto, mais do que a qualidade visual, diria que é a forma como a narrativa é apresentada de forma mais percetível, com as devidas cenas importantes a ter o seu tempo no filme (ao invés de decorrerem fora do ecrã e serem reveladas em falas rápidas que quem pestaneja perde) é um dos elementos mais fundamentais da reconstrução narrativa deste universo.

Fiquei rendido ao que Anno e equipa fizeram em Evangelion: 3.0+1.0 Thrice Upon a Time e a excentricidade de algumas cenas, combinadas com a essência de Evangelion em torno do iminente fim do mundo, a melhor explicação dos planos da SEELE, de Gendo Ikari e esta espécie de remake dos 2 últimos episódios da anime original decorrem de forma satisfatória. O final é inesperado e certamente dará muito que falar, especialmente porque mostra Anno a ir novamente à origem e a brincar com conceitos que estiveram na génese de Evangelion, quebrando o convencional e talvez optando por uma solução que poderá ser considerada batota por alguns. Mas uma coisa ninguém poderá negar, ser fã de Evangelion significa que tivemos uma jornada absolutamente caótica, surreal, fascinante e verdadeiramente imperdível. Agora, é hora de rever todos os filmes uns a seguir aos outros.

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Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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