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Doutor Estranho - Já vimos e adoramos o filme

Será surpresa ser tão bom?

Chegou finalmente às salas de cinema o mais recente filme da Marvel Studios, Doutor Estranho. Apesar de já ter mais de 50 anos de idade, este não é particularmente o personagem mais popular da Marvel Comics, e o seu propósito nunca foi esse. O Doutor Estranho foi criado para abordar o lado oculto da nossa existência, as artes místicas, mas sem a momento algum perder o fio à sua humanidade. Mesmo dentro do universo dos comics, Estranho é um personagem bem específico e único, que se foi popularizando através de parcerias e presenças em confrontos de escala galáctica. Mas este Doutor Stephen Strange sempre ostentou algo que o torna muito compatível com o mundo do cinema, imenso carisma.

O que é certo é que a Marvel não hesitou em adaptar o personagem para o grande ecrã e se por um lado o estatuto de "pouco conhecido" pode apresentar dificuldades, o peso do nome Marvel Studios já é suficiente para lhe conferir maior visibilidade e motivar alguns a arriscar. Mais do que isso, o mais fascinante seria sempre descobrir como triunfaram sobre os desafios inerentes a um personagem tão peculiar, e como a tecnologia foi utilizada para dar vida a um mundo no qual as leis naturais não se aplicam e onde o bizarro reina. Equilibrar o oculto com o humano seria sempre difícil mas a verdade é que a Marvel Studios conseguiu.

A própria escolha de Benedict Cumberbatch para o papel de Doutor Estranho, revela desde logo o compromisso da Marvel Studios com a boa qualidade. Cumberbatch celebrizou-se no papel de Sherlock Holmes na televisão, e sabe como ninguém interpretar personagens de ego gigantesco, altamente inteligentes e perdidas no seu mundo. Da mesma forma, sabe como viajar para outros mundos e encarnar personagens com raízes em universos completamente diferentes do nosso. Do início ao fim, Cumberbatch consegue sempre uma prestação fantástica, e rapidamente conquista qualquer espectador. Mesmo quem não conhece nada do personagem encontrará desde logo uma bela sintonia com este médico graças à forma como Cumberbatch nos cativa.

"Tudo aqui será desconhecido e estranho para a maioria, mas consegue divertir e envolver de forma altamente natural."

Como é óbvio, Doutor Estranho é um filme de origem, e esses já provaram ser bastante complexos, e até sensíveis, de serem realizados. A Marvel Studios demonstra que a experiência acumulada ao longo dos anos com outros heróis é muito valiosa, e combinado com a escolha de Scott Derrickson como director e escritor, habituado a lidar com o oculto e misterioso, fazem com que Doutor Estranho consiga duas coisas muito positivas: um belo ritmo e fluidez, capaz de despertar a curiosidade do espectador. Sem perder muito tempo, conhecemos o egocêntrico Doutor Stephen Estranho, cuja mente brilhante apenas encontra rival no seu ego. Este neuro-cirurgião sem qualquer rival que se compare, vive focado apenas nos belos prazeres da vida e na sua satisfação. A sua visão do mundo é muito simples e pragmática, acreditando numa explicação óbvia para tudo.

Quando a sua excessiva confiança o leva a comportamentos imprudentes, é vítima de um acidente de viação no qual as suas mãos são severamente danificadas. Sem a possibilidade de operar nele mesmo, como o seu ego adoraria, Estranho vê-se incapaz de voltar a ser quem era e aqui começam as incompatibilidades com o seu ego e com a sua maneira de ver o mundo. Sem qualquer réstia de esperança na medicina tradicional, e sem a capacidade de se focar em mais alguém que não ele próprio, Estranho procura as artes místicas, o lado oculto, como a sua última esperança. Aqui começará o lado místico do filme, onde o espectador será, tal como Estranho, informado do lado oculto, das diferentes realidades e dimensões que existem em paralelo.

O choque de realidades, no verdadeiro termo da palavra, será o grande desafio de Estranho, e o espectador ficará entretido enquanto o vê afastar-se do mundo "real" e a adensar-se cada vez mais no que ainda há minutos atrás afirmava não ser possível. Assistindo ao moldar do seu ego e à forma como entra num conflito místico em curso, para o qual não está de forma alguma preparado. Apesar do tom sério e bizarro do filme, especialmente ao introduzir conceitos psicadélicos como dimensões alternativas e manipulação do espaço-tempo, Doutor Estranho triunfa porque a Marvel Studios não se esquece do que é preciso para ter um bom blockbuster.

Momentos inteligentes e oportunos para arrancar gargalhadas dos espectadores, suavizam o tom de um filme que se poderia perder ao debater valores morais e intelectuais de uma sociedade materialista. Doutor Estranho não apresenta devaneios de grandeza e jamais se esquece que é um filme de super-heróis, mesmo que peculiar. Enquanto Cumberbacht nos conquistou desde o primeiro minuto, personagens como a de Tilda Swinton e Mads Mikkelsen, afastam-nos do real para o conflito oculto. Se Mads entrega uma performance sóbria e sem grandes destaques, Swinton consegue agarrar-nos e serve como uma porta perfeita entre o real e o místico.

Apesar de toda a boa prestação dos actores, do guião eficaz e cuidadosamente estruturado, não nos podemos esquecer que este é um filme de super-heróis. Isto significa que, para dar vida às artes místicas, aos diferentes planos dimensionais, a tecnologia precisa estar à altura e sem grandes surpresas, acaba por tornar-se num dos grandes destaques. A forma como permite a manipulação de matéria e do tempo, enquanto os personagens agem de forma independente do mundo onde estão, ou sem qualquer respeito pelas leis naturais, também são uma espécie de desafio ao espectador, para que desista dos seus conceitos e se entregue ao filme.

Alguma cenas em particular, não brilham pela coreografia das lutas ou até pela entrega dos actores, brilham porque o espectador se deixa deslumbrar pela forma como o mundo e os personagens se tornam dois elementos totalmente separados. Agindo sem qualquer respeito um pelo outro. Doutor Estranho apresenta vários momentos de espantar, e a forma como a tecnologia é usada para isso não deixa de surpreender, mesmo quem está habituado a filmes de super-heróis repletos de explosões e efeitos especiais.

No final do filme, a sensação era estranha, não querendo abusar do termo apenas para parecer fixe. Doutor Estranho é mesmo um filme estranho, especialmente para quem não conhece o personagem dos comics, ou para quem simplesmente começou a seguir o universo da Marvel através do cinema, seja por força dos filhos, dos companheiros ou dos amigos. Conferindo uma agradável profundidade ao tradicional blockbuster de super-heróis, abraçando o charme de Cumberbacht em bela sintonia com a personalidade de Stephen Strange, temos um filme que nos conquista aos poucos. O desejo de descobrir mais do místico e de outros universos, e a forma como foi abordado o lado mais bizarro dos comics, fazem com que seja singular.

Para os que gostam de estar informados quanto a este elemento dos filmes da Marvel Studios, e sem qualquer spoiler, Doutor Estranho apresenta duas cenas pós-créditos finais. Uma delas chega logo após alguns breves instantes de créditos, onde vemos o nome dos principais responsáveis pelo filme. A outra surge somente no final dos créditos terem rolado pelo ecrã, obrigando a permanecer na sala um pouco mais de tempo. Ambas as cenas dão indicações quanto ao futuro da Marvel Studios e uma delas em especial, a segunda, será altamente interessante para quem deseja ver mais de Cumberbatch no universo Marvel.

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Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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