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Code of Princess - Artigo

Do sucessor espiritual de Guardian Heroes ao interesse das editoras em levar mais longe exclusivos regionais.

Saindo de cena no final da década de noventa para dar lugar à sucessora Dreamcast, a Sega Saturn ainda hoje permanece como uma consola de culto para legiões de fãs espalhadas pelo mundo. Apesar das magras vendas no ocidente, sobretudo por causa da entrada galopante da PlayStation, a consola da Sega 32-bit foi relativamente bem aceite no Japão. Não obstante ter perdido muito cedo a posição dominante para a máquina da Sony, nem por isso deixou de receber produções interessantes que se estenderam para lá do período de apoio da Sega. Muitos desses jogos nunca chegaram a sair do Japão, principalmente os que eram pouco moldados ao gosto dos ocidentais. Com destaque para os shmups, beat'em ups e jogos de role play, foram poucos que atravessaram os mares e galgaram fronteiras.

De tal modo que esses tesouros e preciosidades só podem ser encontrados em leilões ou então na forma mais recorrente e acessível, por intermédio de edições digitais relançadas para as lojas online das consolas da actual geração. E mesmo os jogos marcadamente japoneses com edição europeia nunca foram lançados em grande número e as poucas cópias existentes desapareceram das lojas ao longo da segunda metade dos anos noventa. Veja-se quão fácil é encontrar em leilões ou lojas de usados, por exemplo, uma cópia do jogo Daytona USA, ou Sega Rally, por oposição a um Panzer Dragoon Saga. Isso também sucede com Guardian Heroes, uma produção marcadamente nipónica religiosamente acarinhada por muitos dos seus proprietários, especialmente os titulares de uma versão PAL.

Esta nota de "raridade" motivou um recrudescimento dos retro games no começo do século, e no caso de Guardian Heroes a especialidade deve-se ao facto de este ser um jogo oriundo da Treasure, uma produtora japonesa conhecida pela colocação de padrões de qualidade nas suas produções.

Lançado por cá em 1996, Guardian Heroes passou despercebido para muita gente que só anos depois, fruto de uma troca de impressões em fóruns e espaços reservados às comunidades de fãs, viria a reconhecer e dar valor. Para alguns tarde demais. Poucos coleccionadores de jogos Saturn que se prezem conseguem passar sem este clássico de culto. Este é um entre muitos jogos lançados fora do seu tempo. Hoje, não conseguimos imaginar como não seria mais popular e mais procurado. Conscientes do interesse de muitos jogadores em produções nipónicas, vem sendo usual o risco tomado por algumas editoras em localizar jogos japoneses. Em boa hora o fazem. A Rising Star, assim como a Atlus e até mesmo a Nintendo, Sony e Microsoft, são algumas editoras que têm assumido a dianteira nestas conversões ocidentais, nem que seja por um imperativo de resposta aos pedidos insistentes dos fãs. Podem ser poucos, mas suficientes para justificarem o dinheiro investido.

Num mercado que não escapa a estes dias de tempestade, com quedas nos lucros das editoras (embora algumas tenham resultados muito positivos), ver chegar à Europa, ainda que em formato digital, o jogo Code of Princess, sucessor espiritual de Guardian Heroes e cujo selo marcadamente nipónico é indisfarçável, torna-se relevante. Primeiro, porque num momento complicado e de grandes cancelamentos, encontrar uma editora como a Nintendo apostar em mais um título deste género para a eShop da portátil 3DS, significa que há uma tendência para contrariar a lógica dos lançamentos arriscados logo cancelados. Claro que o lançamento da versão americana facilitou o processo de conversão do jogo para a Europa, mas podia bem ter sucedido que o jogo ficasse por ali enquanto que os europeus aguardariam por melhor oportunidade.

Em segundo lugar, as editoras empenham-se em promover a maior oferta possível. O risco de lucros aquém da expectativa é grande, mas nunca se pode aferir de um total sucesso do jogo se não forem experimentados novos territórios e consequentemente novas audiências. Ainda que os proveitos finais fiquem aquém das expectativas, existe um sentimento de dever cumprido, e de que tudo se fez pelo sucesso de produções menos comuns, quando noutros momentos, outras editoras fecharam as postas ou simplesmente consideraram o seu envolvimento demasiado arriscado.

Code of Princess é desde quinta-feira última um jogo exclusivo digital da eShop da Nintendo 3DS. Editado no Japão e no continente norte-americano em 2012 através da Atlus, está disponível da eShop porque a Nintendo o quis. Para os coleccionadores, uma edição em formato físico seria recebida com outro agrado, não fossem os custos de edição. Se pensarmos na criação de caixas, manuais, cartuchos, envolvendo uma extensa lista de despesas significativas, aí seria um risco pesado. Permanecendo como exclusivo eShop para a Europa, os interessados e fãs de Guardian Heroes da Sega Saturn têm aqui uma oportunidade perfeita para darem continuidade ao clássico da Treasure. O preço do jogo é especialmente reduzido em função dos menores gastos de produção, sendo mais um factor a considerar pelos interessados no momento da aquisição.

Partilhando imensas semelhanças com o clássico da Sega, percebe-se o porquê da sequela espiritual. A direcção desta produção da Agatsuma Entertainment Bones é a mesma de Guardian Heroes; o director é Tetsuhiko Kikuchi e o programador principal é Masaki Ukyo, o que se reflecte na concepção artística e gráfica do jogo, assim como a jogabilidade é em muitos pontos semelhante. Os titulares de Guardian Heroes rapidamente se adaptarão ao funcionamento do jogo, um hack'n slash 2D em formato role play, no qual as personagens se movimentam em diferentes planos de combate. Entre combate a partir de um rol extenso de diferentes personagens e um sistema de acumulação de pontos de experiência que permite melhorar diversos atributos a escala do desafio alarga-se a partir do momento que a experiência se partilha com mais jogadores, até um máximo de 4, tal como em Guardian Heroes. A forte herança nipónica revela-se também no traço animé das personagens e no exagero de certos atributos, algo sempre comum às produções japonesas.

Agora que Code of Princess está disponível por cá, surge uma boa oportunidade para os fãs do jogo clássico da Sega regressarem a um apelativo e vincado "brawler". E quão melhor for o resultado deste lançamento, mais oportunidades serão dadas a outros jogos, numa correspondência mais forte entre editoras e entusiastas das produções japonesas menos conhecidas do grande público.

Sobre o Autor

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Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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