Clockwork Aquario - Review - Colorido mundo

Há mais vida nos jogos de plataformas 2D.

É uma óptima novidade retro, capaz de encher os corações dos fãs. Só não os derrete devido à escassa longevidade.

A existir, deve ser grande a lista dos jogos que por alguma razão não chegaram a ser terminados e editados. Porém, raros são os que são recuperados e prontos para chegar ao público, depois de cancelados por uma produtora ou editora. Mais ainda, os jogos que aguardam décadas por uma ressurreição são casos singulares numa indústria que tende a encerrar projectos de outras gerações. É por isso que Clockwork Aquario, lançado quase 30 anos depois da Westone ter iniciado o desenvolvimento para as arcadas e pouco depois ter abortado a produção, suscita o apelo da novidade retro. Clockwork Aquario é um jogo retro novo. Nem sequer é uma reedição ou um remaster. Ao trabalhar com alguns dos produtores do código de desenvolvimento original da antiga equipa, entre os quais o próprio produtor e co-fundador da Westone, Ryuichi Nishizawa, a Inin Games em colaboração com a Strictly Limited, finalizaram a produção e trouxeram à superfície este tesouro perdido algures nos arquivos da Sega.

O que começou por ser um jogo desenhado e desenvolvido para as arcadas, em 1992, está hoje pela primeira vez disponível para as consolas PS4 e Nintendo Switch, com todo o seu colorido num esplendoroso HD. O que levou a Westone, produtora de Wonder Boy, a deixar Clockwork Aquario em estado de inacabado, prende-se com a passagem para o 3D dos jogos arcade e um menor pendor dos jogos de plataformas 2D. Foram sobretudo razões de mercado, considerando que o jogo não teria muito sucesso, que ditaram o enfiamento na gaveta de Clockwork Aquario, passando os direitos da série para as mãos da Sega O jogo apresenta-se como um título de plataformas 2D, simples e acessível, embora bastante desafiante, e com uma estética forte em contrastes e uma arte muito vincada, na linha dos Wonder Boy. Face à evolução da indústria, o jogo não tem obviamente paralelo com as actuais produções, é claramente um jogo para o mercado alimentado pelos fãs do retro, especialmente aqueles que querem encontrar no sapatinho, em finais de 2021, um jogo do tipo 32-bit arcade.

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As animações são de qualidade. Em 1992 nenhuma consola, excepto a Neo Geo AES (consola réplica caseira da arcade MVS) era capaz de alcançar este tipo de animações visuais.

Três heróis são chamados à demanda

A estética e arte de Clockwork Aquario dificilmente podem desapontar qualquer fã de jogos retro. Constituem, aliás, alguns dos seus pontos de irresistível apelo. A arte pixel está bem conseguida. É desenhada à mão. Há sprites belíssimos, grandes animações e cores vibrantes. Diria que são os condimentos perfeitos para um jogo de acção que não sendo complexo nos aprisiona graças ao ambiente derivado das populares séries de animação japonesas. É claramente um Wonder Boy em estado de maturação, num universo "steam" 2D.

A jogabilidade é simples e fácil de operar, como é apanágio das produções arcade, embora com um grau de dificuldade cada vez mais elevado à medida que completam os 5 níveis. Existem três heróis para seleccionar; Huck, Elle e o robô Gush. Mas aqui surge desde logo uma limitação, é que não obstante a selecção de heróis, não há movimentos específicos nem habilidades especiais atribuídas a cada um. Os movimentos são similares aos três. A única coisa que muda é o aspecto da personagem. É pena que em termos de habilidades não haja um aproveitamento do material aqui presente. Quando pensamos em séries como Mega Man, adquirimos diferentes poderes e habilidades ao longo do jogo. Nisso, os movimentos das personagens em Clockwork Aquario são mais comedidos e os mesmos, do princípio ao fim.

Um botão está afecto ao salto enquanto que o outro serve para desferir uma pancada com a mão. Essa pancada deixa os inimigos atordoados, podendo depois ser aprisionados com as mãos e arremessados, tanto horizontal como verticalmente, o que é necessário naquelas situações em que os inimigos estão localizados em zonas cimeiras ou entre plataformas. Não há grande dificuldade neste esquema de interacção, esta só sobe à medida que os inimigos tendem a ser despejados na nossa direcção. Como acontece em Super Mario Bros, um salto sobre os inimigos também os anula, do mesmo modo que um salto de baixo para cima rebenta ou incha alguns balões. O rebentamento destes balões incrementa a pontuação e permite o ganho até de vidas e recuperares de energia. Outras vezes terão que derrotar um inimigo a fim de obter uma chave que abrirá caminho.

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Este robô adquire alguma supremacia aérea.

A meio de cada nível ocorre uma batalha contra um "boss" de calibre intermédio. Geralmente um oponente de maiores dimensões mas ultrapassável sem grande esforço. Já os rivais de fim de nível requerem a melhor técnica e esforço suplementar. Possuem um indicador de saúde muito resistente e as suas manobras requerem evasão e técnica adicional. Alguns destes monstros são colossais, sendo a batalha final, após os cinco níveis, um bom exemplo disso. Das três personagens, uma pode adquirir alguma superioridade tendo em conta o seu tamanho. O robô Gush parece capaz de romper por entre as barreiras de adversários com mais facilidade e quando entra no modo invencível ganha mais velocidade. Existe uma forma de vencer mais facilmente esta aventura em moldes 2D de scroll horizontal, que é através do modo cooperativo, permitindo que dois jogadores cheguem a pontos mais altos e ataquem os rivais em pontos distintos para uma rápida inversão na trajectória das batalhas.

Curto mas intenso

Pese embora toda a arte magnífica, os excelentes sprites e os fundos coloridos, assim como as animações e o aspecto "cute" dos heróis e também dos inimigos, os cinco níveis são realmente curtos. A menos que auto imponham um limite de 2 ou 3 créditos por sessão no modo arcade ou normal, se jogarem sem paragens do princípio ao fim acabam o jogo entre 15 a 20 minutos, o que é pouco, mesmo para uma experiência "old school" 2D. Mesmo se desfrutarem dos outros modos de jogo, com dificuldades variáveis, em cooperativo e nos mini-jogos, a longevidade é escassa. Claro que é um desafio procurar terminar o jogo com um ou dois créditos (vulgo moedas numa máquina de salão). Para muitos puristas do mundo retro, um jogo arcade só é realmente terminado quando se assiste à passagem dos créditos após a inserção de uma única moeda. E fazê-lo aqui é uma tarefa que não é para qualquer um. Na realidade era esse o apelo dos jogos arcade, funcionavam por levarem os jogadores a investirem recursos para continuar a jogar. Fazê-lo numa consola tende a perder-se esse sentido derradeiro dos salões e o que sobra é um jogo mais curto.

Felizmente, há uma compensação em termos de banda sonora remisturada, várias opções de scanlines, capazes de emularem um CRT das arcadas e um conjunto de arte que integra os primeiros esboços desenhados à mão, assim como a arte final da capa do jogo. São algumas opções habituais nestes esforços de recuperação retro, que para além de bem-vindos, reforçam o conteúdo e permitem maior exploração do jogo com recurso a afinações para o gosto pessoal. A exploração da banda sonora original, criada por Shinishi Sakamoto, merece igualmente atenção.

Resumindo, Clockwork Aquario é um jogo indicado para os fãs do universo retro. É um jogo novo, do tipo arcade 32 bit, que vê a luz de um televisor ou de um ecrã Switch quase três décadas depois da sua concepção. Talvez não seja o jogo mais robusto em conteúdo, e é pena que a escassa longevidade não permita um aproveitamento mais marcante, porque aqueles minutos em acção são realmente uma pérola e do melhor que já vimos no género. Mundos em 2D a transbordar de cores, animações e uma arte própria que deixou o fundador da Westone e criador do jogo, Ryuichi Nishizawa, extremamente satisfeito. É caso para dizer que nesta indústria também há finais felizes.

Prós: Contras:
  • Estética arcade 32 bit
  • Belíssimos sprites e animações
  • Interacção no modo cooperativo
  • Banda sonora original e remisturada
  • Opções nas scanlines
  • Jogo retro novo
  • Acaba em 15 ou 20 minutos
  • Menor diversidade de movimentos
  • Ausência de habilidades especiais

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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