No More Heroes 3 - Review - Batalha galática

O último take de Travis Touchdown

Derradeira entrega e a menos memorável. É Suda no seu estilo, num jogo endereçado a fãs mas também estes podem sentir desapontamento.

Foi na E3 2019 que se ficou a saber que haveria um terceiro No More Heroes, novamente com o protagonista punk, Travis Touchdown, em cena. Anunciado como exclusivo da Nintendo Switch, produzido pela Grasshopper Manufacture e dirigido por Goichi Suda, é estelar em créditos. Chega quase 10 anos depois de No More Heroes 2. Para os fãs das obras deste peculiar produtor japonês, que transpira manga, retro e anime pelos poros, para além de uma devoção pelo wrestling, é um momento revestido de particular acompanhamento. Travis Touchdown regressa de uma aparente reforma para salvar o planeta Terra de uma ameaça alienígena. Mas será este aquele jogo que os fãs esperam receber tanto tempo depois, ou não será mais um "encore", uma espécie de revisão da matéria dada, um regresso a Santa Destroy mais nostálgico e evocativo do que propriamente uma batalha melhorada e reformulada quando comparada com os originais?

Desde há várias gerações que os jogos com a assinatura e intervenção de Goichi Suda e do seu estúdio Grasshopper Manufacture, se distinguem pela forma e pelo estilo. Muitas vezes mais do que o conteúdo, ao ponto de este ser quase secundário, ou acessório. É verdade que No More Heroes começou de forma sólida e ainda é um dos melhores cartões de visita do japonês. Limitado no mundo aberto mas interessante do ponto de vista como forja um conjunto de batalhas em catadupa, glorificando o gore ao ponto de servir lançamento para o que que há de mais visceral no ser humano quando confrontado com a execução dos condenados, neste título são os assassinos condenados à morte e o carrasco é nada mais nada menos que Travis, erguido a estatuto de anti-herói.

Quebrando convenções e apostando em apoteóticas cinematográficas de duelos à luz do sabre, Suda é desmesurado, terrível e fantástico no piscar de olho aos comics, arrastando por vocação uma mescla de estilos, combinando retro com o moderno. No More Heroes nunca foi um portento de produção. Os jogos de Suda veiculam o grotesco. O japonês sempre apostou no exagero, nas cut-scenes de longa duração marcadas por actos e golpes violentos, na língua que saboreia o metal afiado das espadas e no cheiro de pólvora quente saída pelo cano do revólver. O que leva o jogador a aderir à narrativa é a próxima batalha, o alvo seguinte, com coleccionáveis e minijogos de cariz retro de embalo. Mas se uma fórmula estilizada serviu os dois primeiros No More Heroes, à terceira a experiência não foge à celebração nostálgica, um estilo e forma reaproveitados, nem sempre com mestria, por vezes até com falta de consistência, mas muito mais evocativos de um tempo ao qual Travis parece refém. Há na realidade um lapso de tempo grande desde No More Heroes 2, mas esta conclusão parece não ter mais do que um par de anos de distância desde o jogo para a Wii.

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Os poderes especiais proporcionados pela Death Glove resultam de uma importação de TSA.

Na luta pelo ranking dos assassinos

Os fãs dos trabalhos de Suda e da sua violência desmesurada provavelmente encontram conforto ao longo das sequências de abertura, através de segmentos que combinam anime com cinematográficas em tempo real, o que leva a um articulado de diferentes estilos na exposição da narrativa. Num momento vemos uma pequena criatura alienígena, felpuda e amorosa, chamada FU, nos braços de um miúdo, a tentar o regresso ao seu planeta, para depois voltar como um príncipe perfeito de nome Jess Baptiste VI, disposto a acabar com a raça humana e por arrasto com o adulto que o ajudou enquanto passava por um estado alternativo da sua evolução.

Até entrarmos em Santa Destroy, as primeiras horas parecem decorrer sob o efeito de uma linha para comboio em alta velocidade, passando por eventos de forma tão lesta, em rodopio. É um tipo de narrativa que parece soltar-se aos jorros, tocando o exagero e muitas vezes a paciência do mais incauto jogador nos cotovelos de difícil negociação. Às vezes, a melhor forma de tragar e assimilar a narrativa é fazê-lo sem mexer uma agulha, seguros ao volante. No meio desta nebulosa, o acontecimento central é a invasão dos alienígenas, um bestiário sequioso de sangue, desmembramentos e corpos mutilados, num surreal movimento de violência por um lugar no ranking. Travis reencontra o sabre luminoso e parece despertar num recinto familiar, mais uma vez competindo pelo ranking cimeiro dos assassinos. São óbvias as referências aos jogos anteriores, ainda que se possa dispensar o seu conhecimento.

Em resumo, Travis volta a Santa Destroy para salvar a terra e garantir o lugar nº 1 entre os assassinos galáticos, lutando por uma posição que é sua. O confronto derradeiro é com FU, o tal Jess Baptiste VI. Mas há condições de elegibilidade para estes confrontos, muitos deles a justificarem a melhor perícia dos comandos, com ou sem movimento. Todo o jogo é um trabalho altamente nostálgico, evocativo e glorioso, com algumas nuances para melhor e outras para pior. No regresso a Santa Destroy, o mundo aberto é meramente um conceito de qualificação, já que é nele que nos oferecemos a combates específicos em pontos da cidade, contra os alienígenas mais vulgares. É pena que esta cidade não sirva para mais do que uma reunião de condições de admissão aos combates decisivos. É certo que quebra os segmentos lineares do passado, oferecendo mais liberdade, que no entanto se mostra a troco de pouco. Os trabalhos que possibilitam a aquisição de somas monetárias são algo repetitivos, assim como são os combates mais baixos. É o custo a pagar, limpar a sujidade da latrina antes de subir aos confrontos com os assassinos, nos quais No More Heroes é pródigo em alta intensidade e momentos de maior admiração e perícia na arte do combate.

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Nalguns momentos da batalha, Travis adquire a armadura, similar a um mecha, num estilo de combate a lembrar Zone of the Enders

O poder letal de uma katana a laser

Nos momentos de confronto e combate entramos no melhor de No More Heroes 3. Os produtores apostaram no desenvolvimento da jogabilidade clássica, articulando uma grande variedade de golpes. Não é um sistema tão profundo e perfeito como o de Bayonetta, nem sequer chega ao mesmo grau de refinamento aplicado pela Platinum Games, no entanto, a execução tempestiva e o feeling em tempo real proporcionam momentos de grande intensidade, num equilíbrio de ataque e defesa, para além dos golpes especiais e de ulteriores transformações. De um modo geral os golpes são rápidos e poderosos, usando o X e Y como estocadas. Martelar nos botões não surte grande efeito, até porque entre os golpes evasivos e os suplex (deriva do wrestling), há um momento de entrada nas animações ao qual não é possível escapar. É um tempo de abertura do golpe que torna a jogabilidade mais cerebral e menos célere, o que não quer dizer combate lento.

Por outro lado verifica-se a inclusão de golpes oriundos de Travis Strikes Again: No More Heroes (2019). As quatro habilidades Death Glove não são mais do que uma adaptação de técnicas de combate aplicadas no wrestling, aqui com o acréscimo dos efeitos visuais e do factor "fun", como o pontapé vertical, o lançamento de um inimigo e a activação de uma câmara lenta. Várias formas para neutralizar os poderes rivais, com um custo: é que estes poderes só podem ser reutilizados depois de estarem arrefecidos, o que implica um pequeno compasso de espera.

Como referi atrás, a aplicação decisiva destes golpes, pela intensidade, equilíbrio e perícia, ocorre quando defrontamos os assassinos. A passagem por estas batalhas traz-nos à memória as batalhas épicas de Metal Gear Solid. Suda serve-se igualmente das cinematográficas e de trechos anime para pontuar e conferir dimensão fulcral aos combates. Por outro lado, estes confrontos distinguem-se na construção e nas mecânicas, com alguns momentos de tirar a respiração. Há o habitual exagero, a devoção por indústrias satélite dos videojogos, mas a arte capital aqui parece ser o bailado com a katana a laser e os recortes do espaço, assim como os poderes do assassino. Cada batalha por um lugar no ranking é como abrir uma caixa de pandora, uma tempestade libertada.

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Travis Touchdown está de volta, com alguns golpes de assinatura entre novas habilidades.

Pena que nos momentos passados antes e após estas marcantes batalhas, seja difícil encontrar consistência. A linearidade das missões dos anteriores jogos desapareceu, mas os trabalhos, e recolha de fundos e os coleccionáveis penetram em ciclos que se repetem até ao próximo assassino. Há múltiplas áreas em Santa Destroy, mas nem é preciso chegar a todas até se completar o jogo. A mota de Travis não é propriamente a peça de engenharia mais interessante de conduzir, a que acresce uma cidade desolada, vazia e inerte. Só em espaços indicados no mapa é que encontramos pequenos ninhos de interacção. A qualidade dos visuais fica bastante aquém, é muito similar aos primeiros jogos, com algumas quebras quando conduzimos o veículo, assim como edifícios e objectos no horizonte que surgem de repente. O mundo 3D é talvez o elemento mais realista com que Suda tem dificuldade em erguer patamares de qualidade. No desenho das personagens e nos assassinos é inexcedível. Num mundo realista e aberto, em pormenores mundanos, não consegue a mesma qualidade. A maior inconsistência de No More Heroes 3 está no seu mundo aberto, onde são mais evidentes as limitações ao nível do tratamento 3D, para lá de um problema de fundo, uma cidade que raramente nos leva à perdição e ao divertimento.

Ainda assim, No More Heroes 3 cumpre o seu propósito, faculta a Travis Touchdown um último périplo à escala galáctica pela liderança do ranking dos assassinos. É dos três, e globalmente considerado, o menos conseguido, tendo em conta a expectativa para um jogo que chega quase 10 anos depois de No More Heroes 2. A arte e a mestria de Suda reflecte-se especialmente no confronto das criaturas alienígenas com Travis, nas reviravoltas do ranking, no tal sabor do metal da lâmina que é dado a provar ao jogador. Aqui o combate é mais refinado, saltam à vista as qualidades e a paciência em erguer um sistema melhorado mas aquém da perfeição. Já na construção do mundo e projecção narrativa, o desfecho não é tão operante, é mais inconsistente, superficial em momentos de maior repetição, mesmo que subsista aquele traço e estilo bem próprios. Fica a sensação de que Suda já fez a maior proeza com o original No More Heroes. Agora revisita a experiência com um misto de nostalgia, evocando os melhores momentos. O combate derradeiro de Travis é galáctico.

Prós: Contras:
  • Sistema de combate
  • Batalhas a contar para o ranking dos assassinos
  • Alguns mini jogos
  • Influência dos comics e anime
  • Mundo aberto pouco dinâmico
  • Narrativa menos consistente
  • Falhas a nível técnico
  • Repetição de missões na luta pelo ranking

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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