Art of Rally - Review - Derrapagens com estilo

O bailado da condução tem a sua arte

Uma conjugação feliz de arte com história dos ralis e condução desafiante, mas que peca pelas significativas limitações nesta versão Switch.

Não sei se Dune Casu, fundador da Funselektor e criador de Absolute Drift, se inspirou em jogos de corridas de automóveis como Neo Drift Out, Thrash Rally e Micro Machines, na criação de Art Rally. Se não se inspirou parece mesmo tê-lo feito. A unir estes títulos está aquela perspectiva "top down", descaída em Art of Rally e muito mais dinâmica, mas altamente evocatória de alguns desses saudosos jogos de corridas dos anos noventa, como se fosse um tributo. E no entanto, Art of Rally distingue-se sobretudo pela sua arte, ao ponto de figurar não só no título, como transmite uma arte forte pelo seu aspecto retro minimal, de cores contrastantes e arestas vincadas, capaz de evocar os primeiros jogos em 3D. Arte que pode ainda ser vista num segundo prisma, como arte de condução, que levou muitos escandinavos (uma escola que ainda hoje fornece bons valores ao WRC) ao topo do campeonato do mundo, graças às contrabercagens e derrapagens controladas a boa velocidade. Tudo isto faz parte de Art of Rally e aí reside grande parte do seu encanto.

Art of Rally é um jogo que sob imensos pontos de vista nos dá uma ponte do passado com o presente. É um jogo de 2020, originalmente publicado no PC, em inúmeras plataformas, agora com direito a uma versão para a Nintendo Switch, que nos traz até esta análise. Mas como dizia, são várias as pontes a unir passado e presente. Se quisermos, vemos a ponte com a história dos ralis, com os primeiros grandes carros do mundial, com algumas provas emblemáticas, nomeadamente o rali do Quénia e da Finlândia, onde, dizem os especialistas, começaram os ralis.

Não é um jogo faustoso em grafismo, embora sobressaia positivamente pela dimensão artística e pela jogabilidade. É que debaixo daquele capôt aparentemente retro, reina uma experiência de condução bastante equilibrada, num misto apelativo e desafiante de condimentos arcade e simulação, a evocar as físicas de um Colin Mc Rae Rally ou de Richard Burns Rally (nos picos de dificuldade mais frustrantes). Art of Rally organiza um compêndio da história dos ralis, vais às origens do campeonato do mundo, mas não é um jogo completo. Há a registar a omissão dos veículos WRC e sobretudo a falta de licenciamento, o que origina nomes com gralhas para os pilotos, marcas de carros adulteradas, algumas pinceladas evocativas das pinturas originais. Só as silhuetas dos carros permanecem próximas, no resto há até alguma piada na forma como estão elaboradas as gralhas dos nomes de pilotos, como acontece com o sueco Gardewald.

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Os efeitos de luminosidade são bem evidentes à noite ou ao pôr-do-sol.

Uma breve lição de história dos ralis

O modo carreira é a opção mais adequada para começar a jogar Art of Rally. Muitos veículos encontram-se bloqueados de início e só com o avanço nas sucessivas temporadas é que passamos a ter acesso a mais bólides, muitos dos quais desejamos pilotar. O modo carreira encontra-se organizado por diferentes gerações de carros, presentes ao longo de vários anos. Dos anos sessenta, com os carros do Grupo 2, até aos anos oitenta, com os perigosos mas apaixonantes veículos do Grupo B. A evolução prossegue com os magníficos Grupo S (muitos deles difíceis de controlar), finalizando com os carros do Grupo A. É pena que os carros da primeira geração do WRC tenham ficado de fora, mas só por questões de licenciamento é que podemos pensar no seu afastamento.

Este sistema de progressão, de um rali por ano e de vários anos por temporada, é interessante. Começamos com ralis curtos, normalmente compostos por duas ou três classificativas, de distância variável. O ritmo de corrida depende da capacidade da máquina. Mas a vantagem dos primeiros carros é a sua condução mais segura, com mais tracção. Quando entramos nos Grupo B e S, acedemos a carros incrivelmente rápidos, embora com maior dificuldade de controlo em curva. A colocação da potência nas rodas é tão intensa que as derrapagens mesmo a acelerar são inevitáveis.

O modo carreira é realmente uma lição de história dos ralis. É certo que posteriormente cada ano conta não só várias etapas, com direito a reparação dos danos no carro pelo meio, através de um sistema de slots, como passa a ser disputado mais do que um rali. Nesse caso passamos a disputar um mini-campeonato, aos pontos. O objectivo passa por ser campeão, ainda que não seja crucial alcançar esse patamar. Findo o ano de rali avança-se para o seguinte e mais um carro é desbloqueado. Esta evolução é óptima sob o ponto de vista da aprendizagem. Quando chegamos aos veículos mais rápidos e perigosos, detemos já um bom conhecimento sobre a física e comportamento dos carros em curva. A condução em Art of Rally é manifestamente arcade, mas a física é muito convincente na forma como os carros deslizam consoante o tipo de piso.

Há no que respeita aos pisos, desde o gelo da Noruega, passando pelo asfalto do Japão e Alemanha, à terra da Sardenha, aos pisos mistos de lama e terra batida, no Quénia. Em todos há necessidade de ajustar a condução. Não são admissíveis, no entanto, configurações na preparação dos carros, o que para os puristas dos ralis pode ser visto como uma entrave ou limitação para um jogo que não deixa de enveredar por uma componente realista. Em todo o caso, a condução é altamente desafiante, com segmentos bem desenhados, muitas curvas rápidas e médias, saltos e cotovelos que tendem a tornar desafiante a manutenção do carro em pista. Alguns troços são realmente longos, revelando-se como um verdadeiro teste à perícia. Uma falha numa curva, um deslize ou um salto mal calculado, resultam quase sempre numa saída de estrada, o que obriga ao reposicionamento do veículo e à penalização de 5 segundos.

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Ainda que sem licenças, os carros são facilmente identificáveis pelos conhecedores.

Nem tudo corre bem nesta versão Switch

Lançado em Setembro do ano passado para o PC, Art of Rally distinguiu-se rapidamente de outros jogos do mesmo género, sobretudo pela sua direcção artística. Ao abdicar de um realismo por uma arte do tipo minimalista, da qual sobressaem deliciosos detalhes como pessoas na estrada a observar o rali e que mais se assemelham a pequenos rectângulos, nem por isso abdicou de características elementares. A fluidez, detalhe e sensação de velocidade são características que marcam a versão de Art of Rally para o PC.

Infelizmente, na versão Switch, o cenário está longe do melhor. Enquanto que no original estão assegurados 60 fps, na consola da Nintendo esse valor cai para metade, com óbvia afectação da sensação de velocidade. Além do mais, certos detalhes foram suprimidos. Nos ralis de terra batida verificamos que os carros levantam apenas pequenas partículas, sem a tradicional nuvem de pó. O pop up constante das sombras das árvores é por demais evidente, assim como a luminosidade nos ralis à noite e ao pôr do sol não atinge a virtude da versão para o PC. É certo que o jogo corre e mesmo assim ostenta grande parte do seu valor, mas é de lamentar que num port mais descuidado se tenham perdido os 60 fps, que claramente proporcionam uma sensação maior de velocidade. Por fim, os loadings muito demorados também aborrecem.

Com um bom âmbito de personalização mas cujo maior interesse dos vários modos disponíveis é o modo carreira, Art of Rally é uma óptima experiência ao conciliar a história dos ralis com uma visão artística 3D primitiva e minimal. Ainda que sem as licenças, consegue triunfar na quantidade de veículos e traçados, graças a uma condução desafiante, capaz de testar a melhor perícia do jogador. É pena que nesta versão Nintendo Switch, algumas limitações impeçam o jogo de ser usufruído na sua plenitude. O divertimento está lá, mas a sensação de que poderia estar melhor e fiel ao original, invade-nos com uma desilusão difícil de apagar.

Prós: Contras:
  • Arte pelo 3D primitivo e minimal
  • Funde-se com a história dos ralis
  • Quantidade de veículos e traçados
  • Físicas bem implementadas
  • Jogabilidade desafiante
  • Banda sonora
  • Versão Switch limitada a 30 fps
  • Ausência de rastos de pó nos ralis de terra batida
  • Pop up constante nas sombras
  • Loadings muito demorados

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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