Guilty Gear Strive review - Porrada complicada

Arc System Works tenta criar fórmula mágica para casuais e hardcore.

Os fãs de jogos de luta sabem bem o quão frustrante podem ser as partidas online, ao ponto de arruinar por completo a experiência e de te deixar com vontade de nunca mais tocar naquilo. Como são jogos que dependem de reacções extremamente rápidas do jogador, mais do que qualquer outro género, são arruinados pela presença de latência e engasgos provocados por uma combinação fatal entre ligações instáveis dos jogadores e um netcode que poderia ser melhor optimizado. Guilty Gear Strive não goza da mesma popularidade que outras sagas de jogos de luta como Street Fighter, Tekken ou Mortal Kombat, mas a sua chegada é para os acérrimos fãs de jogos de luta uma espécie de Santo Graal. Os experientes produtores da Arc System Works - uma casa japonesa altamente experiente em jogos de luta - conseguiram chegar a uma nova fórmula de netcode com melhores resultados do que qualquer outro jogo. Não é a cura para a latência, mas neste jogo os seus efeitos são amplamente reduzidos juntamente com a tua frustração.

Esta fórmula dourada de netcode vem agarrada ao novo capítulo de uma série que tem fama de ser um pouco difícil, até para quem está habituado a jogos de luta. Por aqui, considero-me um fã casual de jogos de luta. Gosto do género e tenho familiaridade com todas as principais séries, mas raramente dedico tempo suficiente a cada título para lhe conhecer bem as estranhas (o que é essencial para dominar por completo um jogo de luta). Este é o meu primeiro Guilty Gear e confesso que estava um pouco receoso. Experimentei a beta em Fevereiro e gostei bastante, apesar da curva de aprendizagem um pouco ingrime. Com a versão final nas mãos, posso dizer alegremente que, apesar de ser um jogo que requer dedicação para aprenderes a jogar bem, tem o tutorial mais completo de sempre num jogo de luta. Não vais apenas aprender técnicas transversais a jogos de luta, vais aprender todos os pormenores inerentes a Guilty Gear Strive.

O Guilty Gear mais amigo dos casuais

O Mission Mode, embora não tenha tutorial no nome, vai-te ensinar tudo aquilo que precisas de saber para melhorar a tua técnica em Guilty Gear Strive. É um modo muito extenso, com missões divididas em diferentes categorias de dificuldade - vão desde uma a cinco estrelas no nível de dificuldade - que é basicamente uma escola de jogos de luta e de Guilty Gear Strive. Para concluíres cada missão, tens que repetir cinco vezes a instrução que o jogo de dá. Faz-me lembrar os tempos de escola em que quando escrevíamos uma palavra mal tínhamos de repeti-la múltiplas vezes. Nem sempre é divertido, mas sentes que o teu entendimento e técnica vão realmente melhorando à medida que completas mais missões.

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Uma imagem do Modo Mission e uma amostra do quão estonteante é visualmente. Inicialmente provavelmente vais ficar confuso com tantos efeitos no ecrã.

Apesar deste Mission Mode completíssimo, senti falta de um modo à parte com desafios de combos para cada uma das personagens. Dito isto, há que referir que o sistema de combos de Guilty Gear Strive está mais simples e acessível, pelo menos comparativamente ao que era possível em Guilty Gear Xrd. Anteriormente, havia uma liberdade muito maior para encadear os diferentes golpes das personagens, agora isso está mais restrito. Existe actualmente um debate na comunidade dos jogos de luta - se a acessibilidade é positiva - e há mesmo quem critique a Arc System Works por tentar agradar a jogadores casuais. Não é mentira que houve uma simplificação do sistema de combos (também conhecido por Gatling System) em nome da acessibilidade para novos jogadores, mas o tecto de skill continua a ser muito elevado.

Aprender a usar os Roman Cancels é difícil

Uma amostra da complexidade de Guilty Gear - e provando que Strive tem uma profundidade enorme - está na existência de quatro tipos de Roman Cancel. Todos são activados nas mesmas teclas (carregando simultaneamente três botões de ataque), mas o efeito depende da situação em que estás. Com excepção do Roman Cancel amarelo, todos gastam 50% da barra de tensão (que vai enchendo com os teus ataques). O Roman Cancel vermelho é activado imediatamente após acertares um golpe, permitindo-te prolongar um combo além do que seria normal. O Roman Cancel lilás deixa que canceles a animação de um ataque, útil caso o teu oponente bloqueie um ataque com uma recuperação longa. O Roman Cancel amarelo serve para anular a ofensiva do teu adversário. Por último, o Roman Cancel azul é activado quando a tua personagem está em estado neutro e abranda o lutador rival (se estiver no alcance) - isto desbloqueia novas possibilidades de combos, mas também pode ser usado defensivamente.

Assimilar tudo isto não é nada fácil. Mesmo depois de aprenderes o efeito de cada Roman Cancel, fazer o devido uso de cada tipo em combate é algo que vai demorar muito tempo e requer uma grande quantidade de experiência. Por isso, apesar da barra de entrada para a série estar mais baixa, qualquer veterano de Guilty Gear continuará a ter uma vantagem abismal perante novos jogadores que terão de assimilar toda a esta informação e aprender a aplicá-la em combates que, francamente, são frenéticos e com pouco tempo para pensar. Atenção, não me estou a queixar que o jogo é demasiado difícil, apenas a explicar porque razão este é um jogo de porrada complicada. Os combos de cada personagem até podem estar mais simples, mas o sistema de Roman Cancels permite coisas incríveis para aqueles que o aprendam a usar devidamente. E se já estás com receio de ser completamente aniquilado por jogadores mais experientes no modo online, relaxa. A Arc System Works arranjou um sistema que "protege" os jogadores menos experimentes.

A Torre do modo online com vários pisos

O modo online de Guilty Gear Strive é fantástico pela experiência em que problemas de latência são extremamente raros. Mediante o teu desempenho no combate contra a IA, o jogo atribui-te um andar numa torre que tem 10 andares (cada um com nomes diferentes; e adoro o facto do primeiro chamar-se System of a Down). A ideia aqui é óbvia: quanto mais alto for o teu andar, maior o teu nível de habilidade. Depois de te ser atribuído um andar, não podes visitar os andares mais baixos, mas podes descer de andar se acumulares uma certa quantidade de derrotas. De igual forma, é possível subir de andar acumulando vitórias. Por exemplo, comecei no sexto andar, levei uma coça várias vezes, desci para o quarto andar, troquei de personagem, acumulei vitórias, e agora voltei a subir para o sexto andar. A experiência foi uma maravilha. Nunca vais sentir que estás a jogar contra alguém demasiado habilidoso ou que a culpa para a tua derrota foi a qualidade de ligação.

A movimentação nos pisos da torre é feita com um avatar personalizável. Podes iniciar um combate interagindo com o avatar de outro jogador que está em posição de combate, ou simplesmente deixar a tua personagem à espera num dos postos de combate e visitar o modo de treino entretanto - quando outro jogador quiser combater, vais receber uma notificação e podes sair do modo de treino directamente para o combate online. Um pequeno detalhe que não gostei é que tens de escolher previamente uma personagem fixa para o modo online. Podes trocar a personagem pré-definida entre combates, mas tens sempre que visitar o menu de opções, ou seja, não podes escolher outra personagem depois de ter sido feita correspondência para combate com outro jogador. Não é um problema grave até porque os jogadores normalmente especializam-se numa só personagem, mas eventualmente podes querer usar outra personagem e esqueces-te que tens que visitar o menu de definições para o fazer.

Um leque variado de personagens

Guilty Gear Strive tem 15 personagens jogáveis, duas delas completamente novas: Nagoriyuki, um samurai com habilidades vampíricas, e Giovanna, uma agente de operações especiais que recorre a um espírito fantasma de um lobo para combater. As restantes personagens devem ser caras familiares para quem já jogou algum dos Guilty Gears anteriores. Como novato, tenho que dizer que adoro a diversidade das personagens. Há jogos de luta que têm leques bastante mais extensos de personagens, mas em Guilty Gear Strive cada lutador é realmente único não apenas no design mas no estilo de combate. Já não tinha memória de me envolver tanto num jogo de luta e de ter uma grande vontade para aprender. Quer parecer-me que o gatilho para este desejo é a acessibilidade maior. Como à barreira de entrada é mais baixa para cada lutador, também te sentes mais à vontade para sair da área de conforto e experimentares outros lutadores.

Se fores como eu, à medida que vais jogando com uma personagem, vais querer saber mais sobre ela, como as suas origens e o o seu papel em jogos anteriores. Guilty Gear Strive tem um modo história sem qualquer gameplay associada, isto é, é como se fosse um filme animado recorrendo ao motor gráfico do jogo. O modo história está dividido em vários capítulos, pelo que não precisas de assistir tudo de uma vez. Dito isto, é uma enorme salgalhada para iniciantes e as animações nem sempre são as melhores. O motor do jogo funciona às mil maravilhas para os combates com ocasionais transições para o plano 3D - visualmente é um luxo, repleto de efeitos e de cenários que transbordam de detalhes - mas não é a melhor solução para contar sequências de história tão longas. Falta dizer que podes aumentar o teu conhecimento do jogo e respectivo lore através de uma enciclopédia dentro do jogo que tem a ordem cronológica de eventos anteriores e uma explicação dos muitos termos estranhos, desde que estejas preparado para ler bastante!

Um jogo de luta que merece a tua atenção

Guilty Gear sempre foi conhecido por ser o jogo de luta menos popular que os restantes, conseguindo manter um núcleo de jogadores fieis, mas longe de ser suficiente para ser economicamente viável. Guilty Gear Strive é um tentativa de expandir a série para uma audiência maior sem alienar os fãs de longa data que gostam da série pela sua faceta hardcore. A simplificação do Gatling System é um passo nesse sentido e resulta. Este novo capítulo é mais acessível, mas não descarta a enorme profundidade associada à série graças à permanência do sistema de Roman Cancels (que até foi expandido em Strive, com a adição do Roman Cancel azul) e outras técnicas avançadas que tornam este jogo de luta em algo fascinante e entusiasmante.

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Com um um tutorial extremamente completo, um modo online robusto - francamente, a melhor experiência que já tivemos num jogo de luta, e um sistema de combate acessível mas desafiante, com muito, muito para aprender, este é definitivamente um jogo de luta que os fãs do género têm que experimentar. A parte menos boa é que no toca a offline, não há muito conteúdo. Existe o já referido modo história (em que não jogas, apenas assistes). Fora isso, tens o modo arcade - em que as personagens não tiveram direito à habitual cinemática no final do modo - e um modo de sobrevivência. O grande foco está no online, mas reconhecemos que nem todos os jogadores podem estar tão interessados nessa faceta, por melhor que seja.

Prós: Contras:
  • O melhor online num jogo de luta
  • Tutorial extremamente completo
  • Visualmente estonteante
  • Leque diverso de personagens
  • Novo sistema de combos acessível, mas muito profundo
  • Banda sonora energética
  • Falta de conteúdos offline
  • Algumas animações do modo história

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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