R-Type Final II - Review - Regresso feliz

Assaltados por um raio de luz.

Quando R-Type chegou às arcadas, em 1987, aconteceu aquilo que é bem patente na expressão "veni, vidi, vici". O jogo da Irem não só tomou de assalto as profundezas do universo na luta contra o império Bydo, como ainda elevou os padrões de qualidade no âmbito dos "shmups" em formato horizontal. Da banda sonora, à música, passando pelo excelente design e a terminar nas criaturas, evocando aqui Dobketratops, o icónico boss do primeiro nível, R-Type conjugou assertivamente muito daquilo que justifica o sucesso num género que tanta influência exerceu sobre criadores japoneses. Ao contrário dos "bullet hell", um subgénero dos "shmups", em R-Type as sucessivas mudanças e combinações de disparos proporcionadas pela mítica R-9 contribuem para uma luta muito mais tensa, tenebrosa e terrífica.

Não é de todo um jogo de terror, mas R-Type injectou e quase moldou uma dimensão de confronto com criaturas de um outro universo no quadro do terror e de uma espécie de luta derradeira, como uma nave em navegação solitária nos confins mais surpreendentes e tensos. É um confronto derradeiro, de gatilho junto ao dedo e constantes mudanças de "power ups", numa conjugação de ataques diversificados, num "continuum" de forças disponíveis ao ponto de sentirmos vergar a resistência desse império alienígena. É nesses momentos, quando nos sentimos libertos do tal colete de forças, que R-Type mais brilha, naquele momento em que continuamos agigantados, sentindo o poder do "power up", da mutação temporária, como a força do império que transita para o nosso lado.

A Irem deu continuidade à fórmula de sucesso através de mais dois episódios, antes de entrar no capítulo do 3D, à beira do novo milénio, com o magnífico R-Type Delta e do suposto final, arrancado em 2003, para a PlayStation 2 sob a forma de R-Type Final, com as mais de 100 naves para desbloquear. Curioso como R-Type acaba por nos mostrar através do seu desenvolvimento, muito da história dos videojogos nas suas diversas vertentes. Reconfigurada desde 2011, a trabalhar no negócio Pachinko, a Irem viu sair muitos dos seus produtores para a Granzella, o novo estúdio com a missão de dar continuidade às anteriores produções da Irem. É neste contexto que em 2019 é anunciado um "crowdfunding" para R-Type Final II, uma espécie de "encore" da última engrenagem da série R-Type. Será este Final II um ponto final ou o caminho para uma trilogia? Não sabemos. Temos porém a certeza de que esta é uma série viva e cujo trajecto está longe de ser encerrado, embora perdure uma sensação, por entre os mais de sete níveis que compõem esta jornada, de uma espécie de tributo ao anterior capítulo da série. Mas vamos por partes.

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As mecânicas de ataque e defesa continuam impecáveis

Reforço na luta contra o império Bydo

A variedade de naves e os diferentes set ups de cada uma constituíam em R-Type Final um contrato de longevidade, assegurado pelos fãs da série, aptos a tirar partido das múltiplas afinações dos aparelhos, em vantagens nalguns confrontos, embora amplamente desarmados noutros. Existiu sempre um equilíbrio entre as pequenas conquistas que nos abriam o hangar a armas diversificadas e os "bosses" intermédios e de fim de nível. Havia também a questão da ramificação dos níveis (aqui também acontece a partir do quinto nível) e das naves provenientes dos jogos clássicos e dos múltiplos "spin offs" da série.

É pena que desta vez não possamos, na mesma extensão, desbravar esta centena de aparelhos, já que a Granzella optou por privilegiar os fãs que apoiaram a produção através da sua carteira. Porém, é um desconsolo pouco relevante se considerarmos como ampla a quantidade de conteúdo a desbloquear e que nos é enviada para o museu sempre que penetramos mais um nível nas profundezas do universo. Reconfigurar os aparelhos e poder escolher um aparelho de entre dezenas é uma forma de nos ligar ao jogo por mais tempo

No entanto, isto em nada nos impede de recolher ao máximo o cabaz de mecânicas de combate e ligação ao universo do jogo. Não sendo um "remake", também não se desvia da matriz e identidade dos processos que sulcaram a base de R-Type Final. Não são apenas os produtores, ou boa parte deles, que continuam a trabalhar sobre a matéria pela qual se revêm mais de trinta anos depois. Embora o esqueleto de jogo seja um puro reencontro com Final, o modo de funcionamento retoma as bases da série.

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Há novamente uma centena de naves a desbloquear.

À procura do poder da força

R-Type sempre funcionou em torno de uma batalha estratégica e cirúrgica na eliminação dos inimigos. É um factor decisivo a prioridade dos alvos, abrindo caminho a "power ups" que apetrecham o nosso aparelho e melhoram o poder de fogo assim que acoplamos essa estranha Forza que serve também como escudo e ponto mais aguçado capaz de abrir brechas. Dado que os inimigos tendem a cercar a nave por qualquer ponto, este mecanismo reforça a defesa e contempla mais algumas opções de ataque.

Articulada com disparos que podem ser conjugados com mais efectivos disparos laser, resultantes de um tempo maior a premir o botão de disparo, são múltiplas as formas de ataque e de destruição, também mais poderosas. É neste "timming" que nos sentimos fortes e com um sentido de oportunidade que tão depressa desaparece por um descuido ou por um toque inesperado, operando um "reset" nos poderes adquiridos até esse momento. E subitamente voltamos a ser uma pequena máquina, tão vulnerável como enfraquecida.

R-Type Final II não é diferenciado. Continua a ser um desafio tremendo, mesmo na sua dificuldade "standard". Os créditos até ao Game Over esgotam-se em pouco tempo se não formos evasivos na defesa e cirúrgicos nos ataques. A dificuldade está em progredir o mais tempo possível com a maior amplitude da nave, tendo todos os recursos à mão. Mesmo no degrau de dificuldade imediatamente inferior, repetir os níveis não deixa de ser um problema. É uma forma de memorizar os golpes dos adversários e perceber por onde abrir mais facilmente caminho. Nisso, R-Type II Final ainda é exímio, projectando-se como uma das experiências mais seguras no género.

Contudo, há alguns reparos a corrigir em próximos updates. As quebras de performance são mais visíveis no sétimo nível. Com tanta produção e efeitos no ecrã, são notórias as quebras de fotogramas por segundo. Também não deixa de se constatar a palidez de alguns segmentos. Acredito que a construção de um universo alienígena não tenha que agradar ao palato dos jogadores. Universos vazios e despidos concretizam melhor por oposição ao que pode ser mais apetecível ou detalhado. O problema põe-se quando comparamos com os originais e vislumbramos ali uma direcção artística mais consentânea com o mistério de um mundo alienígena. Tantos anos depois, acreditamos que em arte e desempenho, R-Type Final II poderia estar melhor curado.

Porém, em termos de combate e cadência de acontecimentos, na abordagem aos níveis mais concisos e na navegação, R-Type Final II não só é refrescante como supera o predecessor. Há aqui capítulos que entram para o memorável e é pena que certas sequências não tenham beneficiado da mesma tensão e construção. A velocidade com que navegam e a dimensão da área horizontal disponível são cruciais na antecipação aos inimigos. Joga-se com ritmo e antecipação mas também há muita estratégia e a escolha da nave, nalguns níveis, reflecte o desfecho do combate.

R-Type Final II é um jogo de reencontros e de fórmulas testadas por conhecedores. Ainda é um dos bons "shmups" que podem encontrar, na certeza de um reencontro feliz com mecânicas sólidas e um nível de dificuldade que sem nos deixar exasperados também não é um passeio destituído de obstáculos. É por isso que os jogamos, para superar desafios tensos, de outra forma seria um carrossel em roda livre.

Prós: Contras:
  • Ambiente fiel à série
  • Manutenção das mecânicas
  • Melhora a experiência de R-Type Final
  • Conteúdo a desbloquear
  • Longevidade assegurada
  • Sensação solitária de combate
  • Alguns problemas de performance
  • Opacidade nalguns níveis
  • Não mexe na fórmula

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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