MotoGP 21 - Review - Abordagem realista

Milestone engrena mais uma velocidade.

Simulação e realismo reforçados numa edição que dá sinais de mudança de patamar qualitativo, embora afecta a modos de jogo reconfigurados.

Há dias joguei MotoGP 13, na PlayStation 3, um jogo com quase dez anos, muito diferente da edição que temos em mãos para as consolas da antiga e da nova geração. Numa apreciação global apercebemo-nos de que muito mudou. Nas séries anuais e numa franquia que a Milestone segura desde 2013, as diferenças são mais perceptíveis por ocasião das mudanças geracionais de plataformas. A chegada às consolas PS5 e Xbox Series X permite aos produtores trabalhar com mais recursos e isso reflecte-se numa melhoria substancial da experiência. No entanto, as séries anuais, capitalizando nos horizontes das temporadas oficiais, estão sujeitas a uma evolução menos perceptível quando avançam ao longo de uma geração de consolas. Como sucede com as franquias WRC e F1, ou mesmo FIFA e PES, a cada ano há melhorias, mas por vezes são tão imperceptíveis que é como se estivéssemos diante do mesmo jogo, apenas com alguns ajustes.

Tanto para o bem como para o mal, como em quase tudo, há coisas boas em MotoGP 21, entre as quais o renovado grafismo e uma experiência mais próxima da simulação do que do registo arcade das prévias iterações. Para o pior a manutenção a quase toda a largura dos modos de jogo e aquela sensação de revisão da matéria dada quando voltamos a um jogo experimentado há pouco mais de um ano. Para nós, portugas, há outros aspectos positivos nesta edição de 21, para lá da estreia nas consolas PS5 e Xbox Series X, desde logo a passagem de Miguel Oliveira para a moto KTM de fábrica e a introdução da pista de Portimão, no Algarve, que com a sua estrutura próxima ao de uma montanha russa oferece imensas curvas cegas e zonas de velocidade intermédia mais desafiantes.

Por ter experimentado o traçado construído na Mexilhoeira Grande em Project Cars 2, fico com a sensação de que um fórmula e mesmo um veículo de GT é capaz de maior tracção e passagem a velocidades desafiantes e mais rápidas, mas não é menos divertido com uma mota da categoria rainha do campeonato do mundo. A entrega a uma toada mais próxima da simulação incentiva à aprendizagem e a uma capacidade de controlo da mota e suas reacções acima da média. Em termos de condução sinto que estou a reaprender a conduzir uma mota, a calcular as abordagens à trajectória, a travar mais cedo para não acabar na gravilha e a negociar as curvas com firmeza e sem grande tempo para pensar. Em tudo, a margem de erro é uma fina linha que num descuido facilmente podemos galgar e deitar por perder todas as chances de conseguir um bom resultado em corrida, ou sair de um mau lugar na grelha. Aprendizagem e evolução de categorias nunca foram tão necessários como agora, um processo imprescindível que faz jus à ideia de aprender primeiro e depois obter bons resultados. Em suma, MotoGP 21 está a entrar no patamar de qualidade que muitos fãs queriam.

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Nada menos que entusiasmante, é o que se pode dizer do circuito de Portimão, depois de percorrido em duas rodas.

Na senda de Miguel Oliveira

Os fãs portugueses de motociclismo, na vertente de competição, encontraram em Miguel Oliveira o génio das motas que há muito procuravam. Depois de uma temporada de aclimatação, seguiram-se as vitórias em 2020 e este ano a passagem para a KTM de fábrica. Só os melhores resultados estão a tardar, mas sabemos que o talento está lá, e intacto, à espera da melhor configuração e da evolução da mota, que permitirá ao piloto luso suplantar os grandes rivais da Yamaha ou da Honda. Da mesma forma que Marquez é o astro dos espanhóis, a esperança em Miguel Oliveira, de uma luta pelo título, não arrefeceu só por um par de corridas. Mas, tal como ele teve de aprender a evoluir e a errar antes de vencer, também em MotoGP 21 a aprendizagem e preparação é vital.

O nível de dificuldade intermédio é exigente e entra a sério no quadro da simulação. A passagem por um extenso tutorial, repleto de diferentes desafios e bem adaptado a todo o tipo de acção de um grande prémio, funciona como carimbo de acesso a uma experiência mais refinada, que pode ser aliviada por um conjunto de assistências, ou mitigada pelo afastamento dessas ajudas. Neste caso, sem assistente de travagem ou direcção, a sensação de controlo da mota nunca foi tão realista e todo o trabalho de afinação e preparação da mota dá os seus frutos. No entanto, isto exige tempo e muitas voltas em pista até encontrarem a afinação ideal. Claro que depois de compreenderem os extensos parâmetros das afinações, bem elencados em quadros fáceis de assimilar, torna-se quase um preenchimento de rotina.

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Na condução há que contar com o desgaste dos pneus, gestão do combustível e estado dos travões.

No entanto, é um trabalho novo a cada pista. Tendo em conta as condições climatéricas, a escolha dos pneus e a afinação tornam-se essenciais e os melhores resultados só acontecem depois de esgotados os dados nos treinos. Ajuda a isto a boa sensação de velocidade e o melhor cuidado ao nível gráfico. Na primeira vez que subi à pista, gostei do contraste das cores e do detalhe e maior definição da mota e da pista. Claro, os "loadings" ainda se estendem por demasiado tempo, mas pelo menos temos essa sensação de um jogo que melhorou substancialmente, no quadro gráfico e na performance, face às edições anteriores. Contudo, ainda não se pode dizer que esteja perto da perfeição. Ainda muito pode ser feito nas animações e alguns bugs tendem a perturbar, aqui e acolá, o melhor desempenho da corrida. Interessante de resto, os efeitos de quebra de sinal da câmara, quando ao conduzirmos na perspectiva interior perdemos o controlo da mota, como se a câmara fosse afectada pela queda. A novidade é que desta vez vemos a animação do piloto a reagir ao acidente, levantando-se, e podendo de seguida controlar o piloto até à mota. Um esforço por vezes inglório, pelo tempo irrecuperável. No entanto, o "rewind" deixa-nos sempre apagar o erro e voltar a passar pela curva ou pelo adversário sem o incidente. Em suma, o realismo e a simulação são notas dominantes e essenciais da experiência em MotoGP 21.

Um modo carreira com toques de role play

Num jogo que dá tanta ênfase ao realismo e à simulação é normal que a opção pelo modo carreira seja a primeira escolha, se o objectivo passa por uma adaptação e aprendizagem ao mundial. De um modo geral, não há grandes novidades, nem se pode falar de um modo muito diferente do anterior. No entanto, tendo em conta que a sensação de controlo da moto se encontra reforçada, nada como começar por baixo, e assim que definimos o nome do nosso piloto, todo um mundo de gestão se abre. A começar pela escolha do nosso empresário, da equipa com a qual celebramos um contracto e da gestão do pessoal pelos diversos departamentos de evolução. Há uma grelha com todos os aperitivos da temporada (oficial ou a que é aplicada por força do contexto pandémico), o que nos leva a decidir por executar determinadas tarefas num dia ou passar imediatamente ao grande prémio.

O objectivo central é ser campeão na categoria MotoGP, o que envolve esforço para várias temporadas. Há objectivos enquadrados em cada GP, e os melhores resultados conferem pontos e uma evolução dos diversos departamentos da equipa. Cabe-nos afectar o pessoal existente a várias tarefas ou contratar novos elementos. A interface dos menus é simples, com regras bem ilustradas. A parte da afinação da mota é de maior complexidade, até porque tende a demorar o acerto para a afinação ideal, ainda que esta não sirva para tudo. Ajustada ao nosso estilo de condução, é essencial não cometer erros em corrida. O modo carreira é colossal, e de longe estão garantidas imensas horas, especialmente se optarem pelos fins de semana completos. É pena, no entanto, que não haja grandes novidades de monta e que os processos sejam, de um modo geral, próximos aos das temporadas passadas.

Já nas restantes opções, verifica-se uma transição, com excepção para o multiplayer online até 22 pilotos, o que é óptimo, havendo tanta gente solícita a uma corrida. No mais é o esperado a partir de uma licença oficial, com corridas rápidas, a temporada, um "time attack" e os pilotos e as motas clássicas, mais uma vez à disposição, com lendas como Norifumi Abe, Mick Doohan ou Wayne Rainey. A licença da Dorna está mais uma vez à disposição da Milestone, o que equivale às grelhas completas e actualizadas das diversas categorias do mundial, com todas as cores e motas oficiais. Pena, contudo, que a Milestone ainda mantenha o registo conservador dos modos e opções para lá da carreira, que também não é muito diferente do anterior. De resto, assiste-se já a uma significativa melhoria, não só na experiência, mais realista e próxima da simulação, como à beira de uma melhor performance. Com as novas consolas e um assomo de novas ideias, MotoGP tem tudo para subir mais um degrau na escadaria de qualidade. Já esteve mais longe e é interessante constatar como a sua progressão é satisfatória.

Prós: Contras:
  • Realismo da condução
  • O loop de Portimão
  • Extensão do modo carreira
  • Desempenho gráfico
  • Transição dos modos de jogo anteriores
  • Desaproveitamento dos pilotos e motas clássicos
  • Necessidade de afinação dos comandos para uma experiência mais cómoda
  • Não deixa jogar com um segundo jogador em ecrã dividido

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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