Godfall review - De divino tem pouco

Counterplay Games prometeu muito, mas entrega pouco.

Um RPG de acção de caça ao loot com ideias ambiciosas, mas com uma execução básica. Aproveitam-se os gráficos e as bonitas armaduras.

Godfall foi o primeiro jogo anunciado oficialmente para a PlayStation 5 (juntamente com uma versão para PC) e desfrutou de todas as vantagens que isso trouxe: um valioso destaque no período de pré-lançamento da consola da Sony, ideal para dar a conhecer uma nova propriedade como esta sem um enorme orçamento de marketing, e expectativas positivas por parte dos jogadores. A combinação entre um RPG de acção focado no combate e a caça ao loot mostrada nos materiais promocionais era promissora, cruzando elementos de jogos como Dark Souls e Destiny. Numa actualidade em que há cada vez mais jogos híbridos, esta podia muito bem tornar-se numa combinação de sucesso.

Produzido pela Counterplay Games, um estúdio inexperiente que até agora só tinha lançado Duelyst, Godfall é um jogo que, infelizmente, prometia bastante mas ultimamente entrega pouco. Acima de tudo, e apesar do potencial inerente às ideias apresentadas, nota-se a falta de experiência da Counterplay Games um pouco por todos os elementos do jogo, desde o design, estrutura das missões, jogabilidade, e narrativa. Pelo lado positivo, o jogo encontra-se melhor do que estava no lançamento. As actualizações constantes conseguiram estabilizar o desempenho e os muitos erros que deitavam o jogo repentinamente abaixo, um dos motivos pelos quais esta review chega tão tarde.

Um mundo sem sustento

No mundo de fantasia de Godfall existem três reinos - Terra, Água e Ar - que vais explorar como parte da tua missão para impedir Macros de provocar um evento cataclísmico. Macros pertence à mesma ordem de cavaleiros da tua personagem, mas traiu-te com a ambição de se tornar num deus. A narrativa e as poucas personagens que dela fazem parte não podiam ser mais básicas e desprovidas de interesse. Embora existam pedaços de lore que podes apanhar a explorar os diferentes reinos, existe a sensação de que a história é um apêndice e algo secundário. Exceptuando o design vanguardista das armaduras, as personagens são completamente desinteressantes e ficas com pior impressão sempre que abrem a boca.

"Existe a sensação de que a história é um apêndice e algo secundário"

A mesma mediocridade verifica-se na construção dos reinos. Um conjunto de corredores que ligam a pequenas áreas abertas onde encontras inimigos, recursos, cofres com loot e pouco mais. Existe um modo de exploração livre, mas rapidamente ficas farto devido à repetitividade. Apesar de existirem três mundos, em pouco diferem a não ser na camada visual que está por cima. Uma diferença está nos recursos que podes apanhar: existem recursos comuns a todos os mundos, mas pelo menos um é único em cada. É com estes recursos que vais desbloquear as Valorplates, as diferentes armaduras que podes equipar e que oferecem efeitos diferentes em combate.

As missões, sejam principais ou secundárias, são tão básicas como o resto que acabei de descrever. Vai aqui, derrota estes inimigos, pega neste item, e agora vai para outra zona para enfrentares o boss. Em todas as missões, depois de completares o objectivo, podes completar objectivos adicionais para receberes loot adicional. Apesar de ser aliciante, o problema é que os objectivos adicionais são sempre iguais e não são minimamente divertidos. Além disso, podes perder imenso tempo a tentar completar estes objectivos porque podem estar em sítios afastados do mapa.

Mas pelo menos o combate é bom, certo?

Mais ou menos. O combate de Godfall tem potencialidade e funciona num esquema semelhante aos jogos Souls. Tens um ataque leve, pesado, um escudo para te defenderes e a opção de esquivar. O jogo da Counterplay Games vai um pouco mais longe e, através da evolução da personagem, podes desbloquear ataques especiais para as armas e vários ataques com o escudo. Está mais próximo do God of War da PlayStation 4 do que de um Dark Souls devido à espetacularidade dos combates, cheios de efeitos visuais, e às opções expandidas de ataque.

"O combate não é tão responsivo como poderia ser devido à decisão bizarra dos produtores de te bloquear nas animações"

Apesar de correr a 60 FPS no modo de desempenho (também existe um modo de resolução a 4K, mas com apenas 30 FPS), o combate não é tão responsivo como poderia ser devido à decisão bizarra dos produtores de te bloquear nas animações de combate. Por outras palavras, sempre que inicias uma animação, não podes fazer mais nada enquanto essa animação não terminar. Isso significa que se estiveres a meio de um ataque e quiseres levantar o escudo ou esquivar-te, não podes. A justificação dos produtores é que querem criar um compromisso no jogador e evitar que metralhem nos botões, contudo, enquanto jogas ocorre sempre a sensação de que algo não está bem.

Em defesa da Counterplay Games, os jogos da From Software (com a excepção de Sekiro) também não têm cancelamento de animações, mas no geral, todas as animações são muito rápidas. No caso de Godfall, existem animações - principalmente em alguns combos - que são demasiado lentas para o ritmo dos combates e para a quantidade de inimigos que tens de enfrentar. Mesmo que jogues à defesa e sem metralhar nos botões, sentes falta da possibilidade de bloquear ou esquivar imediatamente em reacção a um ataque. Piorando as coisas, a câmera do jogo é terrível e não te deixa ter um bom ângulo do que está atrás e dos lados. É uma combinação desastrosa que arruína completamente o que poderia ser um sistema de combate sólido e responsivo.

"No caso de Godfall, existem animações - principalmente em alguns combos - que são demasiado lentas para o ritmo dos combates"

Os produtores da Godfall pegaram numa mecânica que simplesmente não combina com o estilo de jogabilidade que criaram. O jogo grita por uma jogabilidade furiosa, mas o facto de não poderes cancelar as animações é como se fosse um pneu furado que te limita a velocidade máxima. Pelo menos, numa actualização pós-lançamento foi adicionado "input queue" (uma fila de comandos executados pelo jogador). Isto não elimina o problema, mas pelo menos já não acontecem situações em que carregavas num botão e nada acontece depois porque estavas a meio de uma animação. Era especialmente frustrante quando carregavas no quadrado para recuperar vida e o comando não era registado porque a animação ainda não tinha terminado.

Apesar disto, é inegável que o sistema de combate tem várias camadas de profundidade. Existem cinco tipos de armas que podes equipar - Longswords, Dual Blades, Polearms, Warhammers e Greatswords - todas com um estilo de combate diferente. Cada arma tem uma raridade associada, sendo que quanto mais rara, melhores são as estatísticas e efeitos associados. Para além da barra de vida, todos os inimigos têm uma barra que indica o quão próximos estão de ficarem atordoados (os ataques no R2 são os melhores para isto). Podes também acertar num ponto fraco do inimigo para o deixares imediatamente atordoado, se bem que isto não é fácil porque só está disponível enquanto os adversários atacam.

Um caça loot especialmente repetitivo

Todos os jogos de caça ao loot seguem um ciclo repetitivo, mas o truque está em tornar esse ciclo tão divertido e aliciante que o jogador não se sente cançado de estar sempre a fazer a mesma coisa. A Counterplay Games não domina esta arte e chega ao cúmulo em que algumas missões da história requeiram que acumules recursos para as desbloquear. Claramente uma forma artificial e pouco engenhosa de aumentar um pouco a longevidade. Há que sublinhar que as armaduras que podes desbloquear têm designs muito elaborados, e que as habilidades de cada armadura podem ser combinadas com as armas e itens como anéis e amuletos para builds com sinergia.

godfall_ps5_review
Pelo menos, as armaduras têm um design incrível e podem ser combinadas com armas e outros itens para obter mais sinergia entre as habilidades.

Como primeira tentativa, e para um estúdio relativamente recente, Godfall não está terrível. Há muitas ideias que podem ser maturadas numa potencial sequela. Nunca sabemos todos os detalhes do que acontece nos bastidores do desenvolvimento de videojogos, mas no caso de Godfall, a ideia de ser um jogo de lançamento da PlayStation 5 pode ter levado os produtores a apressar as coisas para o jogo estar pronto a tempo. A falta de tempo pode ter resultado na mediocridade visível em vários elementos. Não sei se foi isto o que aconteceu, mas o que é certo é que Godfall está mais próximo de uma prova de conceito do que um jogo finalizado.

Prós: Contras:
  • Gráficos de próxima geração que permitem personagens altamente detalhadas
  • Opção de escolher entre um modo de desempenho (60 FPS) e modo de resolução (4K)
  • Diferentes armaduras e armas abrem a oportunidade para variadas builds
  • Podes jogar em modo cooperativo online com três amigos
  • O combate sofre por não poderes cancelar animações
  • A narrativa e as personagens são pobres e pouco fundamentadas
  • As missões são básicas e repetitivas
  • A exploração é aborrecida e desinteressante

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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