The Pathless review - Breath of the Colossus

Minimalismo.

Quatro anos depois do arrebatador ABZÛ, a Giant Squid Studios está de volta com uma experiência de grande qualidade e com uma elevada capacidade para encher de entusiasmo os que sonham com propostas diferentes. Depois das paisagens subaquáticas de ABZÛ, a equipa liderada por Matt Nava decidiu explorar florestas corrompidas e espíritos de animais que se tornam ameaçadores por força da corrupção que os aflige. Misturando novamente com belo efeito som e imagem, a Giant Squid mostra uma experiência de tom muito mais épico, de maior interatividade e que acima de tudo revela um espírito introspetivo que é verdadeiramente merecedor de elogios, especialmente porque é entusiasmante, divertido e praticamente desprovido de violência.

No seu segundo projeto, a Giant Squid volta a apostar em algo que se assemelha a outros jogos como Journey ou ABZÛ, mas ao contrário destes, que navegaram de forma engenhosa e memorável por uma linha fina entre videojogo e experiência interativa, The Pathless é indiscutivelmente um videojogo, uma forma incrivelmente interativa de arte que consegue na mesma partilhar a atmosfera e envolvimento de uma experiência espiritual através das suas mensagens, veia artística e método. Foi precisamente isto que mais me surpreendeu, a sensação que podia estar muito bem a jogar uma sequela espiritual para The Journey, com um pouco de abstrato e muito de artístico, mas num mundo aberto totalmente interativo e livre de explorar. Em alguns momentos, The Pathless é um hino a quem se apaixonou por esses arrojados indies.

The Pathless é um filho desse mesmo berço de artística ambição de explorar temáticas relevantes com poucas palavras, apelando aos teus sentidos sem tornar tudo tão óbvio. É um jogo altamente acessível e que podes terminar rapidamente, mas cujo valor estará na jornada e nos diversos momentos que vais experienciar. Seja através do sistema de movimento incrivelmente dinâmico, na beleza dos locais desolados que florescem com vida quando os purificas ou nas melodias que transformam este mundo aberto num local de introspeção íntima, The Pathless é mais um atestado da qualidade indie que de forma alguma deve ser menosprezado.

Narrativa

The Pathless mostra-te uma Caçadora que entra nas florestas de uma montanha (separada em 4 partes abertas que se conectam quando purificas cada uma delas) para descobrir uma criatura espiritual prestes a perecer. A sua missão, com a ajuda de uma águia que a acompanha e até ajuda a planar, transportar itens para solucionar puzzles ou a chegar a locais mais elevados, a Caçadora terá de purificar os filhos dessa criatura espiritual e libertar os locais da montanha dos planos de um ser que pretende destruir o mundo. A narrativa é explorada através de brilhantes cutscenes que tornam a narrativa menos abstrata do que ABZÛ e mais fácil de interpretar, mas ainda vibra com minimalismo e comunicação sem palavras ao longo do gameplay.

Existe uma grande dedicação às suas ambições minimalistas e à forma como The Pathless comunica contigo, algo que poderá exigir mais de alguns jogadores. Apesar das cutscenes com diálogos mostrarem as intenções e dramas de cada criatura ou local, o minimalismo significa que em grande parte os acontecimentos são feitos sem palavras ou indicadores. É mais um filho da era pós-Breath of the Wild e que, à semelhança de Ghost of Tushima, arriscou em acreditar que tens capacidade de atenção suficiente para colocar os olhos no mundo em si e não no HUD.

Desta forma, sinto que existem duas formas de comunicar em The Pathless, as cutscenes e o design visual altamente colorido e envolvente, com uma sensação de magia e espiritualidade, que te dá esperança e vontade de libertar estes locais da corrupção. Apesar de sentir ocasionalmente que estava perante um Journey 2, não existem dúvidas que The Pathless não caminha nessa delicada linha entre experiência interativa e jogo. A abordagem à narrativa mostra que a Giant Squid conseguiu um engenhoso equilíbrio, mantendo-se fiel à sua forma de comunicar sem palavras quando precisa, algo engrandecido com o HUD minimalista, mas com cutscenes para tornar tudo mais entusiasmante. Isto sem esquecer que trabalhou para criar uma sensação de progressão mais tradicional.

Gameplay

Na busca por um design minimalista que rompe com o que se tornou convencional nos jogos de mundo aberto, a Giant Squid não te apresenta mini mapa ou lista de objetivos. A comunicação sem palavras, feita através do design visual altamente artístico, é simples e feita através da "Spirit Vision", uma visão de cores alternativas que realçam a vermelho os pontos de interesse. Em cada um destes 4 locais existem 3 torres, nas quais deves colocar 1 ou 2 peças douradas para as ativar e prender o animal espiritual atormentado nessa zona, o que iniciará uma boss fight de diversas fases (a parte mais fantástica deste The Pathless). Para encontrar essas peças douradas, terás de explorar os locais assinalados a vermelho na "Spirit Vision" e solucionar alguns simples, mas engenhosos e eficazes puzzles para obter as peças.

Geralmente, esses puzzles envolvem encontrar peças para a águia transportar e colocar em pontos específicos e encontrar novas rotas para disparar uma seta com a Caçadora. Outros tantos baseiam-se em posicioná-la no ângulo certo para disparar uma seta por chamas e levar o fogo até pontos específicos. Tudo muito simples, mas com aquele efeito que te faz sentir bem por teres pensado na solução. Essa é a magia deste The Pathless e depois de ABZÛ, um atestado da metodologia destes criativos independentes, a simplicidade não é um defeito, é uma arma que acompanhada por qualidade se torna numa ferramenta de interação irresistível.

Tudo isto é feito nesta montanha dividida em diversas partes (quando libertas uma podes despois transitar entre as novas e as anteriores à vontade), num mundo aberto sem fast travel e cujo design minimalista foi glorificado com um sistema de movimento de tal forma fluído que nem sentirás a necessidade de ter uma forma de viagem imediata. Os locais de The Pathless são de tamanho médio e o dinâmico sistema de disparar setas para talismãs espalhados pelos cenários e carregar a barra de stamina para continuar a correr e a saltar é incrivelmente acrobático, frenético de com uma fluidez impressionante.

Estarás constantemente a desejar manter um ritmo imparável e a disparar setas para talismãs e poder correr sem parar. Também podes usar a águia para planar de locais altos e como abordagem às mecânicas de "duplo salto" ou até "triplo salto. É louvável a forma como The Pathless não prescinde da sua postura minimalista até para o sistema de movimento e triunfa com algo tão satisfatório e fluído.

Outro destaque são as boss fights contra os animais espirituais corrompidos. Existem diversas fases em cada uma e a primeira é uma corrida frenética para disparar setas para pontos fracos, enquanto te desvias dos seus disparos. Depois entras num confronto direto, dividido por diversas partes, nos quais tens de dominar os padrões e manter bons reflexos para contra atacar no momento certo. São dos melhores momentos em The Pathless.

Visuais e Som

O versátil Unreal Engine foi usado para dar vida à montanha de The Pathless, repleta de áreas imersas na corrupção causada por animais espirituais conturbados e violentos que terás de pacificar. O uso deste motor permite à Giant Squid apresentar 3 versões de cada área (a inicial debaixo da corrupção, a infernal durante a boss fight de tom quase exclusivamente vermelho e finalmente a versão mais colorida livre de corrupção. O design visual minimalista alcança um efeito similar ao de Ghost of Tsushima, estás totalmente imerso na ação e apenas terás de te preocupar com a barra de stamina para ininterrupto movimento acrobático.

Tal como ABZÛ, The Pathless é poesia visual interativa, repleta de momentos que te vão deixar parado a apreciar o cenário para tirar uma foto e mais tarde recordar. Tal como no anterior jogo, existem diversas paisagens arrebatadoras e que oscilam entre a curiosidade, entusiasmo e melancolia. Uma doce minimalista introspeção que suscita em ti um encanto pelos visuais que vão surgindo. Nem todos os locais serão arrebatadores, mas no seu melhor, The Pathless é um jogo capaz de te deixar boas memórias.

Não posso deixar de mencionar novamente o trabalho de Austin Wintory, que volta a introduzir tensão, esperança, dor, cansaço, entusiasmo, alegria e até terror nos momentos adequados. Se numa boss fight Wintory trabalha para te deixar mais tenso, na exploração eleva a sensação de liberdade. Existem diversas referências na banda sonora de The Pathless e Wintory merece novamente elogios.

Longevidade

The Pathless é um jogo relativamente curto, vibra com o entusiasmo e impacto da primeira experiência, contando uma narrativa sem palavras que procura despertar em ti a vontade de explorar novos locais. Terminar a narrativa demora pouco mais de 5 horas e apesar de ser fácil procurar pelos pontos vermelhos e chegará lá e não descobrir uma peça dourada, o que prolonga a longevidade através da necessidade de explorar os locais, não precisarás de muito mais para chegar ao final da jornada da Caçadora. No entanto, se quiseres adquirir todos os Troféus e solucionar todos os puzzles, precisarás de muito mais para isso. No entanto, The Pathless não te dá praticamente nenhum motivo para voltar a jogar, a não ser que queiras desfrutar um pouco mais do gameplay acrobático de renovação de stamina.

Minimalismo introspetivo

Esta montanha é apresentada por fases, mas na verdade é um mundo aberto que terás de explorar num design minimalista sem pistas para o que fazer e com total liberdade de exploração. A estética visual também segue um tom minimalista e combinada com os sons de Austin Wintory, The Pathless torna-se em algo especial. A sensação de liberdade na abordagem faz lembrar o que foi feito em Zelda: Breath of the Wild, enquanto a caça a criaturas que não são bestas violentas, mas sim seres espirituais atormentados que terás de libertar faz toda a diferente. The Pathless é para os que almejam desfrutar de poesia em forma interativa, do abstrato minimalista e da consciência que por vezes temos de nos deixar levar por mensagens contadas sem palavras.

Prós: Contras:
  • Interface minimalista que te incentiva a explorar os cenários
  • Puzzles simples mas eficazes
  • Estilo visual altamente apelativo com cutscenes entusiasmantes
  • Boss fights de grande qualidade
  • Uma espécie de Shadow of the Colossus com um toque de Breath of the Wild
  • Mecânica de movimento fluída e que se torna intuitiva
  • O design minimalista poderá deixar-te ocasionalmente perdido
  • Raros bugs que te forçam a reiniciar o jogo

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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