FIFA 21 - Review - Volta o futebol compassado

Mas ainda não introduz a revolução que os fãs esperam.

FIFA 21 recebe os mesmos modos de jogo do passado, adicionando amplas melhorias a alguns deles, mas o gameplay não é alvo de rupturas.

Há sensivelmente dez anos a franquia FIFA entrava finalmente nos eixos após algumas épocas marcadas por sucessivos desencontros. Havia muito de interessante para lá das licenças e dimensão oficial do produto, mas de algum modo o futebol praticado era então demasiado automático. A jogabilidade (e com ela a física da bola) tardou a chegar ao ponto e foi só depois de alguns anos em afinação que finalmente FIFA passou a proporcionar aquilo que os fãs da simulação mais desejavam; uma jogabilidade limpa e eficaz, capaz de proporcionar grandes desafios. Assim aconteceu e nesta última década a EA Sports conduziu FIFA ao sucesso, não só através da jogabilidade e do sempre fundamental apartado de licenças, mas também por via de um robusto conteúdo apetrechado por diferentes modos de jogo, do qual sobressai naturalmente o modo FUT no qual os fãs e entusiastas mais tempo gastam.

Porém e como acontece com qualquer franquia à beira de uma mudança geracional de consolas, as evoluções tendem a ser comedidas e se os fãs esperam por grandes alterações ao modelo de jogo, assente na jogabilidade, o melhor é esperarem pela próxima geração. Na verdade, FIFA 21 é um produto espectacular se andaram arredados do futebol virtual nas últimas temporadas, mas ainda é um jogo muito próximo daquele que vimos na temporada passada, em FIFA 20. Na realidade, não há grandes rupturas, não há novos modos de jogo (dentro dos segmentos principais) e a jogabilidade tende a derivar maioritariamente da que vimos no jogo anterior.

Mas não desesperem. Há conteúdos de sobra, as sempre indispensáveis actualizações e licenças mais uma vez proporcionam uma vertiginosa aproximação à realidade do mundo do futebol, amplificada por esse conteúdo suplementar chamado Volta que encontra raízes em FIFA Street. E, mais uma vez, o modo FUT é um tremendo e robusto conteúdo capaz de nos fazer perder horas, dias e meses, para não dizer toda uma temporada, em busca da equipa perfeita. Verdade que muitos dos conteúdos são os mesmos da temporada passada e claramente percebemos que este é o apogeu no desenvolvimento para as actuais plataformas.

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A jogabilidade não sofre alterações de fundo e recebe até algumas melhorias que podem afectar o balanço num plano elevado de jogo.

A chegada da PS5 e das Xbox Series ditará novos desenvolvimentos e coordenadas do futebol virtual. Sabemos que é assim com as séries anuais e que entre um sentido de repetição e herança do passado, não deixam de se registar apreciáveis alterações e aditamentos em FIFA 21. Talvez não sejam suficientes para surpreender o jogador veterano que comprou a edição do ano passado. Isso poderá suceder na próxima edição já para as novas consolas, mas por enquanto FIFA 21 ainda é um bom espectáculo de futebol virtual, mesmo que não nos dê grandes surpresas nem revoluções.

Sem grandes revoluções no gameplay

Não vai ser nenhuma surpresa verificarem que o grosso da jogabilidade de FIFA permanece o mesmo do ano passado. O ritmo permanece fundamental, os defesas fecham bastando assumir a posse de um jogador com os laterais em cima para quase de certeza se anular a investida adversária. Eu gosto bastante da jogabilidade de FIFA por nos deixar assumir a posse de bola até ao meio campo e a partir daí entrar num sentido de ataque e descoberta de possibilidades criativas dos jogadores com melhor técnica para abrir oportunidades de ataque. Mas as defesas fecham bem e em FIFA 21 não há grandes excepções.

No fundamental parece que para esta edição as alterações não modificam o estilo de jogo da edição passada. Mais uma vez a EA Sports apostou numa afinação da inteligência artificial na forma de comandar o jogador com a bola ao mesmo tempo que os colegas controlados pelo computador, nas imediações e adaptados para uma corrida, procuram espaços. As tentativas de desmarcação são mais evidentes quando nos adiantamos e ganhamos espaço à entrada da área, podendo oferecer um passe de ruptura ou um cruzamento. Agora é possível sugerir a um jogador da equipa que avance para um espaço específico, o que evita vê-lo escapar-se para a baliza ou para o logro montado pelos adversários. Isto tanto vale para as desmarcações como para os passes, especialmente quando há defesas bem colocados para cortar a linha de um passe mais óbvio.

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Influência de Football Manager na opção de gestão, disponível no renovado modo carreira.

A um nível de controlo e execução acima da média este avanço projecta significativas alterações, afectando mesmo a cadência de jogo, a fluidez e até o balanço. Jogadores veteranos tenderão a aproveitar esta funcionalidade de ruptura ao máximo. Em alternativa à autonomia dada neste tipo de lances, poderão aproveitar para deixar a bola num jogador controlado pela IA e avançar até ao ponto de desmarcação, solicitando nesse momento a devolução da bola. O drible ágil, assim chama a EA, é outra técnica ao serviço dos perfeccionistas, podendo usar o manípulo esquerdo para uma série de toques subtis com a bola entre os pés, provocando dores de cabeça no adversário. Nada como treinar as diferentes habilidades e técnicas para maior aproveitamento.

Outra opção é a faculdade de efectuar "rewind", algo que sucede nos jogos de automóveis e permite corrigir alguns erros, recuando no tempo de modo a evitar um golo ou um lance que correu mal. Referir que esta "ferramenta" só está disponível no modo jogo rápido, porquanto no modo Carreira não poderão tirar proveito desta "borracha".

De um modo geral os guarda-redes defendem melhor, os defesas continuam a efectuar desarmes no último instante e no meio campo há um pouco mais de espaço onde podemos fazer circular melhor a bola sem o sufoco de um ensaio de ataque perdido. Mas o meu obstáculo com FIFA, nesta edição, ainda se prende com determinados automatismos e recepções, em contemporizações que por vezes anulam possíveis momentos de brilhantismo.

A jogabilidade é toda bastante trabalhada, contemplando todo o tipo de situações, até para emular os melhores craques de sempre na categoria de dificuldade máxima, mas por vezes é também um jogo a pender para o monótono tal a implacabilidade das defesas, as sucessivas entradas e cortes e marcações quase homem a homem, que cerceiam o desfrutar da partida e o divertimento. Como se cada partida oscilasse entre potenciais momentos de brilhantismo e os outros minutos condenados a roer o tédio. Talvez seja esse condicionamento uma imposição da inteligência artificial à qual nos devemos acomodar a fim de abrir passes de ruptura, mas tal como na realidade, o futebol espectacular e mais vistoso é sempre o preferido pelos adeptos.

Os extensos e melhorados, embora repetentes, modos de jogo

Para lá das licenças, quantidade abissal de estádios, provas oficiais, campeonatos e torneios, é nos amplos e bastante competentes modos de jogo, alguns capazes de proporcionarem divertimento para toda a temporada, que mora grande parte do sucesso da série FIFA. E embora todos eles transitem de FIFA 20, ainda são suficientes para proporcionar uma ligação ao jogo ao longo de meses. Por outro lado, mesmo sem receberem mudanças de fundo, todos acabaram por ver melhorado o seu funcionamento através de algumas funcionalidades que tornam o desempenho mais satisfatório. Não equivale a encontrar algo de novo e no seu funcionamento geral ainda recebem grande parte da estrutura transacta, mas há novidades que merecem ser referidas.

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Novas localizações para jogar em Volta Football

A começar pelo modo Carreira, que no seguimento da vontade de muitos fãs, foi alvo de alterações particularmente sonantes. Há quem veja uma aproximação demasiado evidente à estrutura de um Football Manager na forma de jogo simulador interactivo, uma opção que confere poderes de táctica e gestão do jogo, deixando o controlo dos jogadores para o computador. É uma nova forma de jogar a temporada e ainda permite uma transição suave e imediata do relvado para a perspectiva de gestão. O desenvolvimento dos jogadores foi aprimorado através da colocação de atletas oriundos de outras áreas no relvado para posições específicas. Os treinos foram melhorados, com mais opções para os treinadores, assim como uma agenda onde podem marcar os dias de descanso, os treinos e a preparação para os jogos. O mercado de transferências também foi alvo de alterações, através de empréstimos e aquisições envolvidos em maior realismo de operações. Em novidades o modo Carreira é o que vai mais longe, respondendo a uma solicitação há muito requisitada pelos fãs.

Os restantes modos, também não foram ignorados e acabaram por receber vários melhoramentos. A jogabilidade arcade e rápida de Volta, a lembrar FIFA Street, permanece como um capítulo diverso da cena FIFA 21 e penetra numa onda marcada pelo samba e pelos toques artísticos dos atletas em campos de reduzida dimensão. Instalados em ambientes inusuais ou conhecidos do grande público, oferecem localizações onde o futebol de rua, como origem do futebol de campo, é praticado com sucesso. Os jogadores voltam a experimentar uma campanha onde podem encontrar Káká e Lisa Zimouche, em The Debut, onde escolhem o vosso jogador.

Com novas localizações, uma direcção artística irrepreensível, muitas habilidades novas e um âmbito de personalização alargado, Volta Football é como um novo filão dentro de FIFA, embora com as melhorias introduzidas tudo acabe por soar mais a expansão, sobretudo por aqueles que o jogaram o ano passado. Porém, é uma alternativa muito mais sólida e eficaz face à narrativa proporcionada em anos anteriores ao Volta. Pessoalmente, vejo esta opção como uma forma de lograr uma experiência que prima pela acessibilidade e por um divertimento imediato, partilhável aliás com vários jogadores em simultâneo ou ligados em rede em jogos contra a comunidade.

Os modos Carreira e Volta Football sobressaem significativamente no capítulo das melhorias, mas não podemos ignorar a renovação da construção da equipa de sonho no modo FUT, que ainda permanece como aquele com o qual os fãs de FIFA permanecem mais tempo ligados. A EA Sports pensou em novas formas de partilhar a experiência, sobretudo na partilha de pontos e experiência num cooperativo online. Os eventos FUT foram ampliados, contemplando várias opções em torno da partilha de pontos, através de divisões ou simplesmente via amigáveis. Mas há mais, como o FUT Stadium, uma opção que permite a personalização do estádio e do ambiente em dias de jogo, com reflexo em diferentes competições, algo a pensar na Champions, com direito a hino e uma moldura humana pintada com as cores do clube.

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Ferenc Puskás, antiga glória do Real Madrid integra os FUT 100 Icons, os maiores futebolistas da história.

Em termos de tempo gasto na gestão da equipa e dos atributos dos jogadores, a produtora pensou em deslocar o tempo útil para o relvado, a acção em campo que é onde se materializa boa parte do divertimento, ainda que a aquisição e abertura das carteirinhas seja um procedimento incontornável desta experiência. Com menos paragens, pausas e repetições, a cadência do modo FUT está melhorada, simplificada e sobretudo conta com menus de fácil leitura e compreensão.

Se do ponto de vista dos menus, apresentação e fluidez na deambulação pelos quadros de opções há uma melhoria, já o grafismo e os efeitos de luz quase que é o mesmo da temporada passada. Há rostos dos atletas mais fidedignos dos clubes europeus de segunda linha, um problema que se agravava desde há uns tempos, mas agora até os atletas de um Porto, Benfica e Sporting estão devidamente fidedignos. Só não esperem o mesmo para os jogadores do Marítimo ou Santa Clara. As animações estão globalmente melhores, com comportamentos realistas e movimentos adequados para a disputa da bola, mas neste quadro de realismo ainda muito pode ser feito. Contamos ver apreciáveis melhorias na próxima geração de consolas.

Em resumo, FIFA 21 assemelha-se a um porta-aviões do futebol. Ao longo de anos e de experiência acumulada a EA Sports foi capaz de desenvolver uma experiência de futebol que prima pelo realismo e simulação, ao mesmo tempo que desenvolveu vários modos de jogo e lhes atribuiu profundidade. Juntar a tudo isto um extenso acervo de licenças, campeonatos e competições oficiais é mais do que suficiente para gerar uma comunidade em expansão. Mas vivemos tempos desafiantes, em que urge introduzir mais do que melhorias e desenvolvimentos. Este ano o modo Carreira e o Volta Football foram particularmente apetrechados, mas no restante deste grande jogo estamos perante o que se pode catalogar de uma espécie de transição em bloco. FIFA é hoje imenso, mas esta estrutura abundante há muito tempo renasce ao apito inicial de cada nova temporada. Nalguns modos o entusiasmo talvez não seja o mesmo e até a jogabilidade careça de mais alterações, porque apesar de optimizada ainda é no relvado e na forma como o jogador trata a bola que se operam as engrenagens do futebol.

Prós: Contras:
  • Renovado modo carreira
  • Volta Football como uma opção alternativa arcade consolidada
  • Quantidade de licenças e actualizações dos plantéis praticamente em tempo real.
  • Imensos conteúdos e opções voltam a assegurar tremenda longevidade
  • FUT 100 Icons
  • Gameplay em grande parte semelhante ao de FIFA 20
  • São muitos e profundos os modos de jogo mas são os mesmos de FIFA 20
  • Algumas animações carecem de ajustes
  • Imperceptível evolução gráfica

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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