Deadly Premonition 2 - Review - Eu queria ser um filme série B

Mas tornei-me num série Z.

Não consegue o efeito desejado e os problemas técnicos são gravíssimos, ao ponto de cortar toda a eficácia da proposta sui generis.

Se à semelhança do cinema a indústria dos videojogos tivesse uma segunda linha, a série B, Hidetaka Suehiro seria um dos mais famosos realizadores e criadores de experiências bizarras. Aquelas experiências sui generis que te tentam conquistar com um inesperado charme e sensação que se levam demasiado a sério, quando na verdade passam o tempo todo numa espécie de auto-sátira. Depois do estatuto como clássico de culto alcançado pelo primeiro, o excêntrico criador japonês volta com Deadly Premonition 2: A Blessing in Disguise e até o próprio nome é uma espécie de trocadilho com a intenção do criador. Suehiro esperava recriar o efeito do primeiro e apresentar-te um daqueles jogos "tão maus que se tornam bons" e que após suportares o mau, serias surpreendido ao desfrutar do bom, sendo literalmente uma "Blessing in Disguise".

No entanto, Deadly Premonition 2 não consegue o mesmo efeito do primeiro, no qual aceitas com alguma resistência a qualidade gráfica extremamente fraca, a gameplay clunky, os diálogos cheesy e a má performance porque descobres um conceito de mistério que se torna apelativo e te agarra. Desta vez, a nova investigação do cativante Francis York Morgan, que decorre em Le Carré, Louisiana, Estados Unidos (uma espécie de pequena aldeia nos arredores de Nova Orleães) não consegue esse triunfo pois é demasiado mau em elementos nos quais era vital não ser tão mau.

Com isto, quero dizer que este jogo de terror e sobrevivência em mundo aberto não parece propositadamente mau e gerido para se assemelhar ao original, é mau quase por descuido, para não dizer algo mais grave. Esta tentativa de recriar o efeito Twin Peaks num videojogo, com um agente especial de investigação que vai da grande cidade para um local rural dos Estados Unidos para descobrir que nem tudo é tão simples ou harmonioso quanto parece, com constante sensação de mistério e perigo no ar, poderia ser triunfal, mas não é. Senti vontade de me forçar a continuar a jogar para desfrutar do bom, mas o mau é muito forte e precisa de séries melhorias.

O agente York é o grande pilar deste jogo, que destila excentricidade e humor próprio em todos os seus poros. O protagonista do jogo é uma das peças centrais para te fazer continuar a jogar e alguns diálogos tornam-se tão maus que darás por ti a sorrir, enquanto pensas 'como é que algo tão mau se torna tão bom?' Para teres uma ideia do quão surreal Deadly Premonition 2 é, York deambula pela pequena localidade de skate e recebe uma arma tranquilizante para disparar sobre animais que podem ser violentos, entre eles esquilos. Deadly Premonition 2 é descabido, não se leva a sério, está repleto de momentos cringe e constantes referências ao cinema de Hollywood, o que acaba por te desarmar e conquistar aos poucos.

Grande parte desse efeito é alcançado através do tom de mistério que te deixa constantemente à procura de pistas para desenrolar a narrativa. Tonto e parvo quanto baste, o argumento desenrola-se de formas incrédulas e com personagens que cumprem com todos os clichés esperados dos filmes ou séries de baixo orçamento de Hollywood. Parece ser uma paixão com a qual Suehiro facilmente se identifica. No entanto, como referido, o que terás de suportar para desfrutar dos elementos que te conquistam, é demasiado severo para ser tolerado.

Suehiro tinha todo o direito a criar mais um candidato a jogo de culto, de baixo orçamento e com severas limitações que ficas a pensar se foram propositadas ou se são uma espécie de 'ou é isto ou nada'. No entanto, não tinha o direito de permitir que Deadly Premonition 2 fosse um jogo tão fraco a nível técnico, ao ponto de comprometer o teu desfrutar do jogo.

Animações parvas e mal feitas, controlos em estilo tanque, diálogos desnecessariamente loucos e sem ponta por onde pegar e tarefas estúpidas acabam por se tornar parte do seu apelo, especialmente porque é através disto que vemos o charme de York a conquistar-nos. No entanto, o rácio de fotogramas extremamente fraco, os loadings demasiado longos e a má comunicação de alguns objectivos deixam-no fora do alcance de um estatuto de clássico na gama 'tão mau que tens de o jogar".

"Deadly Premonition 2 foi pensado propositadamente como um jogo 'mau', em estilo filme série B, mas cujo charme, personagens e estilo narrativo te conseguem surpreender e agarrar.

Os visuais extremamente fracos, desprovidos de texturas, sem anti-aliasing, com gravíssimo pop-in e que lhe dão um aspecto de anterior geração, também é algo que encarei como parte do seu apelo surreal e nem incomodaram. O mesmo para os controlos tanque, mas quando temos momentos em que o jogo corre no que parecem ser 5fps e até parar durante alguns segundos, isto já não é tolerável. De igual forma, percorrer este pequeno mundo aberto e ver partes do cenário a surgir do nada, apesar de extremamente básico, ou sofrer com os longos loadings quando entras ou sais de um edifício, é algo que desgastará rapidamente a tua paciência.

O enredo, as excentricidades, as patetices, os clichés, o tom filme série B, e claro, o bizarro agente York, deixaram-me rendido a Deadly Premonition 2 e quase a implorar que os problemas sejam resolvidos, mas ainda não o sabemos se serão. Estão prometidas melhorias e a primeira actualização melhorou imenso a performance nos interiores, mas os longos loadings e a horrível performance no exterior ainda persiste. Deadly Premonition 2 tinha todo o direito a conquistar esse estatuto que deseja, se pelo menos a performance fosse estável e boa, se os visuais fracos não tivessem pop-in e te desse toda a certeza que o aspecto e maus controlos eram propositados.

Actualmente, Deadly Premonition 2 não é um jogo que consiga recomendar, mesmo para os que adoram jogos bizarros e fora da caixa. Infelizmente, não consegue esse efeito de 'tão mau que se torna bom' devido às falhas apontadas e bastava melhorar algumas delas para ficar muito melhor. Dei por mim a forçar-me a jogar um jogo que dá verdadeiro significado à expressão sui generis, para seguir o eficaz enredo parvo de mistério, apenas para começar a sentir dor de cabeça devido à má performance. Sessões acima de uma hora foram coisa impensável e dei por mim a insistir em Deadly Premonition 2 quando não deveria ser assim. Esperamos que os problemas sejam resolvidos.

Prós: Contras:
  • Bizarro e surreal, sem preconceitos em tornar-se numa espécie de filme série B
  • Narrativa e protagonista interessantes
  • Argumento de mistério
  • A performance é horrível
  • Qualidade visual extremamente fraca
  • Diversos problemas como pop-in
  • Loadings demasiado longos
  • Controlos pesados estilo tanque

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Sobre o Autor

Bruno Galvão

Bruno Galvão

Redator

O Bruno tem um gosto requintado. Para ele os videojogos são mais que um entretenimento e gosta de discutir sobre formas e arte. Para além disso consome tudo que seja Japonês, principalmente JRPG. Nós só agradecemos.

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