Watch Dogs Legion - Um jogo com protagonistas infinitos

Somos todos hackers.

Os videojogos são muitas vezes caracterizados pelo seu protagonista, tornando-se numa peça fundamental para a estrutura do jogo inteiro: define a narrativa, as mecânicas da jogabilidade e até a empatia que o jogador vai sentir diante das coisas que estão a acontecer no ecrã - quanto mais gostarmos da personagem, mais envolvidos vamos estar com o jogo. Mas o que acontece quando um jogo não tem protagonista? Ou colocando as coisas de outra forma, o que aconteceu quando qualquer personagem de que te aparece no meio da rua pode tornar-se num protagonista? Este é conceito que a Ubisoft apresenta com Watch Dogs Legion e a principal razão para ter despertado o meu interesse desde que o vi da primeira vez. É um conceito novo, altamente ambicioso e que nos coloca a coçar a cabeça quando pensamos de que forma é que a Ubisoft conseguiu meter tal coisa a funcionar.

Apesar deste novo conceito, este terceiro capítulo de Watch Dogs continua fiel às origens da saga. É um jogo em mundo aberto de hackers em que podes interferir e manipular com as coisas à tua volta: sistemas eléctricos, câmaras de vigilância, veículos, barreiras, smartphones, portas e agora - isto é uma novidade - os vários drones que sobrevoam a cidade de Londres. Com os outros dois jogos a decorrerem em Chicago e São Francisco, este é o primeiro jogo da série a saltar para fora dos Estados Unidos. Londres é uma das cidades mais vigiadas do globo (aparentemente, tem mais de 600 mil câmeras CCTV), o que a torna no palco perfeito para um Watch Dogs - uma série que tem no seu ADN a luta dos hackers contra governos que querem vigiar e controlar cada vez mais a liberdade dos cidadãos.

Recruta qualquer pessoa

Parece mentira, mas é mesmo assim que funciona. Em Watch Dogs Legion podes recrutar qualquer pessoa para se juntar ao DedSec. Vês uma pessoa a passar na rua, dás uma vista de olhos nas suas informações - como o seu emprego e habilidades - e podes adicioná-la como uma potencial recruta. Depois, podes analisar o seu deep profile para perceber de que forma podes recrutar aquela pessoa, o que geralmente envolve algum tipo de missão para ajudar essa personagem. No nosso período de hands-on com o jogo - cerca de 3 horas - vimos todo o tipo diferentes de pessoas com ocupações menos habituais como terapeutas sexuais e dominatrix. Ninguém está impedido de ser recrutado, nem mesmo funcionários da Albion - a força de lei inimiga do DedSec. Podes inclusive contratar agentes do Mi5 e ter na tua equipa uma espécie de James Bond.

"Em Watch Dogs Legion podes recrutar qualquer pessoa para se juntar ao DedSec."

A ideia de recrutar qualquer pessoa é que cada uma traz habilidades diferentes para a equipa e que podem vir a dar jeito no presente ou futuro. Pelo que pude compreender, não existem habilidades infinitas, sendo que cada personagem acaba por encaixar num arquétipo mais ou menos pré-definido. Ou seja, por mais diferente que seja a personagem por fora, as suas habilidades podem ser repetidas. Não obstante, parece haver uma grande variedade de habilidades e tipos de personagens, com diferenças aplicadas ao combate. Nesta sessão de experimentação acabei por adorar o construtor civil porque que tem uma habilidade de chamar um drone de transporte a qualquer momento. Os dones de transporte são grandes o suficiente para transportar uma pessoa e, se subires para cima dele e tratares de o hackear, ficas efectivamente com um veículo voador.

Devido ao tempo limitado para a demo - podíamos explorar livremente o mundo, mas também havia missões de história para fazer e foi aí que investi a maior parte do tempo - não consegui conhecer todas as habilidades diferentes que existem, mas simplesmente ao vaguear pelo mundo e a ver as informações das pessoas, percebi que há muitas. As personagens mais valiosas, isto é, que são especialistas em alguma coisa, aparecem normalmente destacadas no mapa, por isso quando vires um pontinho verde perto, sabes que existe ali alguém com potencial para integrar na tua equipa de hackers. Para além das habilidades especiais das personagens, cada uma ainda tem as habilidades normais de hacking que são transversais à jogabilidade.

Londres, uma recriação muito perto do real

Fora de Portugal, Londres é a cidade que conheço melhor. Já perdi a conta ao número de vezes que visitei a cidade - sempre por motivos de trabalho - por isso posso dizer que conheço minimamente as suas ruas. A versão de Londres que Watch Dogs Legion apresenta está muito perto da realidade, mesmo em termos de dimensões. A recriação está tão boa que a certo momento sabia que, depois de reconhecer o local onde estava, onde ia ter se seguisse por um determinado sítio. Esta versão da cidade aqui apresentada é um pouco mais futurista, com mais tecnologia implementada nas ruas do que há na realidade, e também com muito mais controlo de segurança - existem vários checkpoints de segurança espalhados pelas ruas, bem como constantes drones de vigilância. O futurismo também se verifica nos veículos que encontramos nas estradas, com impressionantes táxis com enormes vidros panorâmicos.

"Esta versão da cidade aqui apresentada é um pouco mais futurista, com mais tecnologia implementada nas ruas do que há na realidade"

Uma vantagem do futurismo é a comodidade. Fiquei surpreso por descobrir que os carros têm piloto automático e que levam-te sozinhos ao sítio marcado no mapa - dá jeito se te sentires especialmente preguiçoso. Apesar da comodidade, o piloto automático é lento, respeitando as regras do trânsito, por isso vais demorar mais tempo a chegar ao destino do que se fosses tu a guiar. Uma forma ainda mais rápida de navegar pela cidade é recorrer ao velho mas fiável London Tube. Ao explorares a cidade vais encontrar cada vez mais estações para futuramente poderes fazer viagens rápidas. A condução dos veículos, sejam carros ou motas, não está má, mas precisa de uma ligeira afinação. O jogo tem várias imperfeições que precisam de ser limadas, principalmente ao nível de física e lógica, mas não é justo referir estas coisas ser ter noção de que ainda faltam meses para o lançamento e que a versão a que tivemos acesso é um trabalho em progresso.

Uma atmosfera mais sombria

O tom da narrativa de Watch Dogs tem variado desde o início. O primeiro jogo era definitivamente mais sombrio e sério, mas com Watch Dogs 2 houve uma mudança radical para uma história claramente mais focada na diversão e brincadeira. Em Watch Dogs Legion a atmosfera volta a cair para tons mais negros. A trama do jogo começa com um ataque bombista em Londres, explodindo com vários sítios de cidade e tirando muitas vidas. O grupo DedSec é injustamente acusado de estar por detrás do ataque e acaba por ser quase erradicado. O ataque acaba por levar a cidade a implementar medidas de segurança extremistas e opressoras para os cidadãos. O grupo DedSec está agora a reerguer-se das cinzas, estando a recrutar novas pessoas para descobrir quem é que afinal esteve por detrás do ataque à cidade de Londres.

As missões da história consistem sobretudo em, pelo menos aquelas que experimentei, em conseguir infiltrar-nos em sítios restritos. A forma como consegues atingir este objectivo é deixada ao teu critério. Podes usar força bruta, podes tentar entrar pelo telhado, ou recorrer a engenhocas como uma aranha-robô que consegue passar por espaços apertados. Das missões que joguei, não parece haver qualquer tipo de consequência punitiva por sermos detectados - mesmo com vários inimigos a atacarem-nos, o jogo é bastante fácil. O que menos gostei, e que até quebra a imersão, são erros de lógica como, por exemplo, sairmos de um sítio restrito onde estamos a ser perseguidos, completamos a missão com sucesso e toda a gente retoma as suas vidas com a maior normalidade. Também podemos tirar vidas, seja às forças policiais como a meros cidadãos, sem qualquer tipo de consequência visível.

Um dos jogos mais ambiciosos de 2020

Portanto, ainda há coisas para limar na experiência antes do lançamento do jogo, mas ainda assim, Watch Dogs Legion permanece um título com muito potencial graças à possibilidade de jogarmos com qualquer personagem recrutada para a DeadSec (depois de recrutadas, só tens que visitar o menu e escolher a personagem com quem queres jogar; a troca é quase imediata, existindo um pequeno loading). Para os fãs dos jogos em mundo aberto, este novo capítulo traz novidades importantes. Para além da já referida mecânica de recrutamento, há muitas habilidades para brincar e uma grande cidade para conhecer. É um jogo para manter debaixo de olho até ao lançamento. Esta experiência abriu-nos o apetite para mais.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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