Como The Last of Us: Part 2 muda a imagem das personagens femininas nos videojogos

Mulheres fortes e corajosas.

Não sei se percebeste, mas a indústria dos videojogos passou por mudanças radicais nos últimos dez anos. O entretenimento acaba sempre por ser um espelho da realidade e as constantes discussões que ocorreram, e continuam a decorrer, sobre uma melhor e mais justa representação das mulheres, transitaram para o mundo dos videojogos. Há agora mais jogos com mulheres no papel de protagonista, ou pelo menos, mais jogos que nos deixam escolher o sexo da nossa personagem e outras características importantes que ajudam o jogador sentir-se mais próximo da sua representação virtual.

Haver mais personagens do sexo feminino é obviamente importante, mas não me parece que a quantidade fosse o tema de discussão principal. A discussão pendia para uma representação livre de estereótipos e preconceitos, colocando as mulheres em pé de igualdade com os homens com os quais contracenam. Trata-se de mostrar que as mulheres também podem ser fortes, corajosas e aventureiras. Um dos estúdios que mais esforços tem feito neste sentido é a Naughty Dog e basta olhar para o historial dos seus jogos.

Em Uncharted 4 foi introduzida Nadine que, a dado momento no jogo, obriga Nathan Drake a fugir com o "rabinho entre as pernas". Mais tarde, lança Uncharted: O Legado Perdido, uma expansão Standalone que coloca Chloe, que até aquele momento tinha sido sempre uma personagem secundária, e Nadine como protagonistas. O que há de especial no trabalho da Naughty Dog é que esta transição, colocando o foco em Chloe e Nadine, não parece forçada, pelo contrário. O estúdio tem uma capacidade extraordinária para criar personagens orgânicas, credíveis, com qualidades e falhas humanas.

A representação de Ellie em The Last of Us: Part 2

O mais recente trabalho da Naughty Dog é também o melhor nesta representação igualitária das mulheres nos videojogos. A transição de Ellie para o papel de protagonista é natural. Com 19 anos, uma jovem adulta, Ellie cresceu e tornou-se numa das melhores batedoras de Jackson, com uma pontaria reconhecida entre os seus companheiros e amigos. Aqui não há lugar para estereótipos nem hiper-sexualização. As mulheres patrulham juntamente com os homens, sabem manejar as armas e, quando chega a hora de lutar, não fogem. Ellie não deixa de ser uma mulher por causa disto, e podemos dizer o mesmo acerca de Dina - com quem inicia um relação romântica - e das restantes personagens femininas que são introduzidas ao longo da narrativa.

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Ellie em The Last of Us: Part 2.

Durante muito tempo os videojogos foram um hobby sobretudo masculino, um resultado directo de uma indústria também constituída por homens. Criou-se um ciclo vicioso, de homens a fazer jogos para homens. Actualmente, a balança está mais equilibrada, seja nos produtores de videojogos - existem mais mulheres a integrar na indústria e mais iniciativas para alcançar a igualdade - e o interesse em videojogos abrange cada vez mais de forma igual ambos os sexos . Mas sempre houve excepções à regra. Em 1996 a Core Design e Eidos surpreenderam com Tomb Raider e Lara Croft, um dos primeiros grandes exemplos de uma personagem feminina nos videojogos a emanar o espírito aventureiro e a fugir aos valores tradicionais do que se espera de uma mulher. Apesar de ser um progresso para aquela época, Lara Croft não se livrou de uma sexualização exagerada, algo que só viria a ser limado com o reboot de 2013.

"Aqui não há lugar para estereótipos nem hiper-sexualização. As mulheres patrulham juntamente com os homens"

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Antes de chegarmos a The Last of Us: Part 2, houve outros jogos com contribuições importantes.

Antes de chegarmos a este ponto, houve vários outros jogos que serviram de pedras basilares para a progressão das personagens do sexo feminino. É impossível não mencionar Joanna Dark de Perfect Dark, Jill Valentine de Resident Evil, Samus Aran de Metroid, as diversas mulheres de Mass Effect - Liara T'Soni, Miranda Lawson, Jack e Tali'Zorah - e muitas outras personagens que contribuírem para esta "normalização" das personagens femininas. Não são princesas, nem indefesas, são verdadeiras lutadoras, com personalidades fortes, únicas, e que conquistaram os fãs de videojogos. Isto é uma vitória para todos nós, que resulta numa indústria dos videojogos mais variada, abrangente, acolhedora, e robusta.

O progresso que tem vindo a ser feito, pouco-a-pouco, atinge um ponto alto com The Last of Us: Part 2. Isto não tem nada a ver com mulheres que fazem o papel de homens ou vice-versa, mas com uma igual representação dos sexos, não impondo limitações ao que cada pode ou não fazer. Como já vinha a explicar no início deste artigo, é também um reflexo da sociedade. A imagem tradicional da mulher que é dona de casa, que cuida dos filhos, que é dócil e delicada, é cada vez menos apropriada. Não quer dizer que as mulheres deixaram de ser ou fazer estas coisas, quer dizer que as mulheres são capazes de muito mais e que podem assumir funções e características tradicionalmente associadas ao sexo masculino. The Last of Us: Part 2 é um excelente espelho desta nova realidade, desta luta para livrar as mulheres dos estereótipos que predominaram a sociedade durante séculos.

Portanto, se sempre sentiste que as mulheres estavam a ser incorrectamente representadas nos videojogos, ou que os videojogos apelavam apenas as homens pelos constantes protagonistas masculinos, The Last of Us: Part 2 é definitivamente um jogo que traz uma mudança positiva.

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Sobre o Autor

Jorge Loureiro

Jorge Loureiro

Editor

É o editor do Eurogamer Portugal e supervisiona todos os conteúdos publicados diariamente, mas faz um pouco de tudo, desde notícias, análises a vídeos para o nosso canal do Youtube. Gosta de experimentar todo o tipo de jogos, mas prefere acção, mundos abertos e jogos online com longa longevidade.

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