171 será o mundo aberto criminal baseado no Brasil

O jogo tem fortes inspirações em Grand Theft Auto.

O mercado brasileiro de jogos tem crescido consideravelmente, movimentando cerca de $1,5 bilhão. Títulos como Horizon Chase, Blazing Chrome e Celeste mostram que as mentes criativas “tupiniquins” não perdem em nada para projetos ao redor do mundo. Um destes casos é o jogo 171. Mas antes de falarmos sobre ele, temos que considerar a existência de um grande e consolidado triple A - que é Grand Theft Auto.

San Andreas e sua intimidade com os brasileiros

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Que GTA é um fenômeno no mundo inteiro, disso todos sabem. A quinta sequência é considerada o maior produto da história do entretenimento, mantendo-se líder de mercado até os dias de hoje, mesmo após quase 7 anos de lançamento. No Brasil, não poderia ser diferente. Desde sua primeira versão, Grand Theft Auto sempre atraiu os olhos dos brasileiros pela sua liberdade. San Andreas, por sua vez, foi e ainda é um fenômeno considerável no país. Em centros comerciais populares encontramos cópias alternativas de versões modificadas do jogo à venda até hoje. O fato é que, no Brasil, muitos ainda possuem o console PlayStation 2, sem deixar de mencionar a incessante busca por uma experiência um tanto mais intimista. De todos elas, San Andreas é certamente o que mais se aproxima.

"O nome 171 vem do código penal brasileiro, que configura punições rigorosas a quem tira vantagem ilícita de terceiros."

Em meio às adversidades econômicas, a desigualdade social é um dos maiores debates do Brasil, criando conflitos intensos sobre aqueles que vêm de classes sociais mais baixas. A criminalidade, crescente em praticamente todas as regiões metropolitanas, também precisa ser mencionada para melhor entendimento do retrato atual. As favelas, vistas hoje também como cartão postal das regiões da América do Sul, apresentam a triste realidade entre as diferenças classes. Como em GTA: San Andreas, encontramos reflexões e mensagens do mesmo nível, até mesmo quando se trata de questões raciais - uma temática recorrente do título. A obra da Rockstar de 2004 encantou os brasileiros pela forma “acalentadora” e imersiva, o que certamente influenciou na futura produção de Max Payne 3, que se passa na cidade fictícia de Nova Esperança, em São Paulo.

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No entanto, mesmo que bem representados por ele, a comunidade gamer do Brasil sempre alimentou a esperança de que, um dia, um jogo completo da série Grand Theft Auto fosse moldado inteiramente em território brasileiro, denominando seus ícones os grandes sucessos do cinema, como por exemplo o clássico cult Cidade de Deus (City of God, em inglês). Até hoje esse sonho percorre e, como dito acima, fomentou uma comunidade de modders nacionais que reacendem esse desejo; Dois dos mais populares mods é Grand Theft Auto: Rio de Janeiro e Grand Theft Auto: São Paulo, encontrados facilmente em mercados cinzas das cidades. Em um dos seus vídeos, o canal Cloth Map explorou este curioso mercado informal de games do Brasil. Sabendo dessas circunstâncias, a Betagames Group, equipe de 7 desenvolvedores brasileiros independentes que não só conhecem como vivem as experiências do país, decidiu atuar.

Crimes como o estelionato inspiraram a produção de 171

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A ideia inicial de 171 surgiu em 2011, mas em 2015 ela foi reformulada. Depois de uma campanha bem sucedida no Catarse, site nacional com funcionamento semelhante ao Kickstarter, o pequeno estúdio conquistou verba suficiente para acelerar o projeto e lançar uma versão mais consistente. O nome 171 vem do código penal brasileiro, que configura punições rigorosas a quem tira vantagem ilícita de terceiros. É nesta premissa que o jogo é baseado. São Paulo mais uma vez se torna o palco principal, mas diferente da região ficcional de Max Payne 3, uma versão reduzida do estado foi escolhida como background, isso inclui metrópoles, áreas litorâneas e até mesmo zonas com atividade aérea.

A história passa a visão do protagonista Nicolau, morador de boa índole que passa por situações financeiras complexas numa comunidade humilde. Durante os acontecimentos do game, o personagem principal encontra seu irmão, desempregado e ex-viciado em narcóticos, muito ferido no chão de casa. Após duvidar de suas atitudes devido ao conhecido histórico conturbado, ele percebe que não havia motivos para esta barbárie. Tentando entender o motivo da agressão, ele parte em busca de repostas, mas começa a perceber que as coisas não são tão simples como imaginou. Lidando com esse cenário, Nicolau é confrontado com situações turbulentas, muito próximas do real cotidiano brasileiro.

No Brasil, a lei de posse e porte de armas é muito mais rígida do que no continente norte americano, onde comumente é passado a série de jogos Grand Theft Auto. Por isso, andar armado não somente irá chamar atenção da população, que irá enxergar a ti como uma ameaça iminente, mas também das gangues locais e dos policiais à paisana. O conflito entre a Groove Street e os Ballas são substituídos pelas gangues inspiradas em facções criminosas e grupos paramilitares existentes. Além disso, a política de segurança pública e a instituição policial também podem mostrar lados corruptos durante a jornada do protagonista. Para o melhor entendimento de toda esta configuração, sugerimos que assista o filme brasileiro Tropa de Elite (Elite Squad, em inglês), e sua sequência direta Tropa de Elite 2; dos quais se tornaram sucessos internacionais.

Em 171 o jogador encontrará um modo história não linear que formula a experiência de vida dos brasileiros. Como destaque desta trama podemos enfatizar a arquitetura irregular das casas sem qualquer planejamento urbano, carros populares de fabricação local, ruas sem recapeamento, armas rústicas em péssimas condições, circunstâncias sociais delicadas e a cultura oral do povo local, pontos que diferenciam 171 do que há hoje no mercado. Logicamente, a obra se trata de uma ficção, não de uma simulação. Tudo é “baseado em”, visando à busca da imersão e o “score artístico”, ou seja, as cenas não replicam a verdade absoluta. Os interessados podem aguardar fugas policiais, tune-up de veículos, trocas de tiros intensas e decisões complexas que irão afetar positiva ou negativamente.

Um parente distante mas importante de Grand Theft Auto

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Mesmo que a equipe não esteja trabalhando em tempo integral com o projeto, sem comentar da verba limitadíssima, as primeiras imagens do jogo impressionam não só os brasileiros, que tanto o aguardam, como também os estrangeiros. O visual conta com iluminação dinâmica, carros que reagem diferentemente aos tiros que recebem, fluidez no combate armado com tremulação de câmera e desfoque na mira, sistema de colisão realista, NPCs com inteligência artificial, um mapa com dezenas de quilômetros de distância e muito mais. Outro ponto que mostra a preocupação da Betagames Group com a recepção do seu produto é que ela está engajada com a comunidade, respondendo aos feedbacks dia após dia. O canal mais utilizado da desenvolvedora é o grupo do Facebook, que conta com mais de 10 mil participantes.

É válido lembrar que, mesmo tendo como inspiração de Grand Theft Auto e seus respectivos mods, a BetaGames Group não quer assimilar 171 à franquia da Rockstar. O motivo disto são as diferenças de ambos os títulos, em exemplo a forma de contar de histórias e o orçamento entre eles. Em 2019 uma versão pré alfa foi entregue aos apoiadores do projeto durante o evento Brasil Game Show, mas não há um lançamento definitivo vigente. Uma data estipulada, analisando a situação atual, é que em 2021 os testes beta cheguem ao Steam. Na conversa com nossa equipe, os desenvolvedores reforçaram que estão trabalhando arduamente para oferecer o segundo teste alfa no Steam em março para seus apoiadores. Mesmo antes de ser comercializado, 171 foi destaque em programas da TV brasileira, ganhou prêmios e menções honrosas em seu percurso.

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Sobre o Autor

Jack Smith

Jack Smith

Freelance Writer

Jack Smith é o correspondente brasileiro do EuroGamer / BrasilGamer, Morador do Rio de Janeiro, ele é responsável por trazer artigos, entrevistas, análises, cobertura de eventos e novidades do Brasil. Adora jogos de RPG, storytelling e experiências cooperativas.

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