WRC 8 - Análise - do Monte Carlo à Austrália

No banco dos carros mais rápidos de rali.

Após pausa em 2018 na série WRC, abrindo alas à recuperação de um outrora prestigiante jogo arcade de corridas de rali - V-Rally 4 -, este ano a Kylotonn regressa com a oitava temporada do circuito WRC, o seu quarto jogo consecutivo sob a licença da FIA. Equivale por isso à montra completa do mundial de ralis: carros, equipas, pilotos, circuitos e categorias. Pouco escapa a um jogo desta monta. Dir-se-á que tudo o que há de essencial nos ralis e que enche de entusiasmo os fãs, está presente no jogo, deixando-os bem satisfeitos com uma produção que mais uma vez proporciona assinaláveis melhorias, embora a margem para evolução ainda seja grande.

No entanto, WRC 8 reflecte uma óptima progressão. É um jogo com imensas virtudes, especialmente na relação carro tipo de piso, o que proporciona uma condução entusiasmante. Não necessariamente um simulador, mas um jogo num ponto interessante entre o arcade e a tendência para o realismo demonstrada noutros títulos. Não são muitos jogos concorrentes na mesma área de serviço - os ralis -, mas pode-se dizer que WRC 8 não fica muito aquém das experiências mais consagradas no género. Percebe-se que é um jogo a beneficiar de um orçamento modesto por comparação com o apoio de outras editoras, mas nem por isso deixa de surpreender nos resultados.

Périplo mundial - do Monte Carlo à Austrália

Um dos trunfos de WRC 8 face à concorrência é a quantidade de circuitos. Ao integrar os 14 ralis que constituem o calendário do mundial de ralis, desde a prova de abertura no Monte Carlo, ainda em Janeiro, até à Austrália em pleno mês de Novembro, abre-se uma oferta de especiais de classificação que não existe noutro jogo. É sem dúvida uma grande quantidade de especiais, ainda que muitas delas sejam disputadas no formato inverso. No entanto, é justo assinalar os nomes verdadeiros das especiais, uma aproximação em termos de ambiente e notas geográficas, assim como a presença das emblemáticas super-especiais, não faltando a nossa super-especial de Lousada, que normalmente é disputada no primeiro dia do rali de Portugal.

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WRC8 introduz algumas melhorias ao nível da física e contacto do carro com diversas superfícies.

Porém, quase todas as especiais presentes em WRC 8 são as mesmas do jogo anterior, sem que sejam percebidas grandes mudanças. Há retoques na luminosidade, na borracha que pinta o asfalto, mas o sentido das especiais é o mesmo. O desencanto continua quando percorremos a famosa especial de Fafe e verificamos que só o salto que precede a passagem pela meta tem alguma correspondência com o espaço real. De resto, nem a famosa descida para o gancho do Confurco está presente, o que nos leva a pressupor que noutros ralis suceda o mesmo. Há alguma aproximação em termos de ambiente, mas na realidade as especiais virtuais não reflectem o congénere percurso real. É algo que gostaríamos de ver melhorado no futuro.

"Um dos trunfos de WRC 8 face à concorrência é a quantidade de circuitos"

Em sentido positivo temos as condições atmosféricas dinâmicas, que podem provocar alterações a qualquer altura, especialmente nas etapas mais compridas e nas passagens de classificação, quando não podemos recorrer à assistência para mudar os pneus. É um factor que faz diferença em qualquer rali, mas é especialmente sentido nas provas de asfalto, especialmente na imprevisibilidade da chuva e neve no rali de Monte Carlo.

Condução de faca nos dentes

A variedade de pisos é assinalável, por força dos 14 ralis, embora no geral tenhamos corridas em asfalto ou terra e dentro desta a gravilha, a terra compacta, a neve sobre terra. A passagem dos carros por estes diferentes pisos é especialmente sentida. Um rali sobre o asfalto requer sempre uma afinação baixa para uma rápida aceleração e aderência, enquanto que nos ralis de terra batida ou gravilha uma afinação mais elevada é imprescindível.

Pode-se dizer que a física melhorou. Os carros reagem com algum realismo às agruras e composições dos troços. Pessoalmente preferia uma condução um pouco mais pesada como ponto de partida. A sensação de deslocação muito fácil da frente, quase sem peso, e de correcções no último instante, parecem entrar em contradição com os comportamentos mais realistas dos carros. No geral a condução parece algo gelatinosa e escorregadia, bastando um pouco mais de velocidade no gatilho ou nervo no pedal para facilmente resvalarmos ou chocarmos com um obstáculo.

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Todas as equipas, carros, pilotos, provas e categorias do WRC estão presentes.

Claro que há parâmetros susceptíveis de afinação que vos permitem obter uma condução mais ao vosso agrado, tornando os carros mais duros e pesados, mas isso acaba por se reflectir ao nível dos tempos obtidos. Não é que a condução seja difícil, mas na realidade as condições de aderência de um carro de rali tipo WRC são abissais, especialmente no asfalto. Por vezes fica a sensação de uma estrema leveza do veículo, mas também não entendam mal, os WRC de 2019 são os carros de ralis mais rápidos de sempre e por isso disparam assim que apertam o acelerador.

Em ralis onde as especiais são mais estreitas, como o rali da Alemanha, na região do Mosel, manter o carro em estrada sem sair ou bater de pista é uma proeza digna de registo. Todavia, é uma condução que funciona melhor quando usamos uma perspectiva interior (ou sob o capôt). A perspectiva de perseguição não é a melhor já que o carro parece flutuar sobre a especial, e não conseguimos uma perspectiva mais próxima do espaço mesmo à frente, assim como a largura da pista. No ideal, justifica-se a utilização de um volante. O comando nem sempre permite uma correcção segura e por isso é mais consequente com os erros.

A pensar no modo carreira e nas opções online

No que toca a modos de jogo, WRC 8 tem na renovação do modo carreira a maior atracção. Está diferente das edições anteriores, desde logo ao permitir uma aproximação mais acessível, onde podemos falhar alguns objectivos e repeti-los vezes sem conta, ou seguir uma abordagem mais realista, que nos levará à exclusão da equipa caso não seja atingido um tempo limite em três tentativas. O objectivo passa depois por efectuar uma actividade diária para a equipa, contratando engenheiros e mecânicos, enquanto treinamos e realizamos ralis. Há uma base de gestão significativa, com verbas envolvidas, indispensáveis ao desenvolvimento da equipa.

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As condições dinâmicas atmosféricas introduzem um factor surpresa na gestão dos pneus e afinações das etapas.

Começando pelas categorias inferiores, o WRC 2 e o Junior WRC, a passagem até às máquinas mais potentes do WRC não se atinge sem cumprir um patamar mínimo, um grau de exigência variável consoante a dificuldade estabelecida logo ao começo. Jogar com menos assistências torna a condução mais periclitante, especialmente nos troços mais compridos, nos quais é mais fácil errar. As saídas de pista podem acarretar penalização, especialmente se o carro ficar preso, para além dos danos causarem mais atraso na classificação.

"Jogar com menos assistências torna a condução mais periclitante, especialmente nos troços mais compridos"

A apresentação dos menus é muito agradável e limpa, com o "lettering" oficial da prova. Entre outras opções, destaque para os troços de adaptação e treino, pistas óptimas para afinar um carro e prepará-lo para uma prova com um tipo de dificuldade. O modo online contempla até oito jogadores e ainda existem desafios especiais de base semanal, um verdadeiro "time attack".

Em termos gráficos WRC 8 revela algumas melhorias mas ainda é algo inconsistente na reprodução dos ambientes. À luz do dia os efeitos da luminosidade são interessantes mas ainda predominam alguns efeitos tipo sépia ou demasiada claridade nalguns sectores. Os carros, apesar de devidamente modelados, ainda podem receber mais texturas e algum tratamento. Mas isto é um processo gradual, revelador de melhorias significativas face às primeiras produções do WRC desta produtora parisiense.

WRC 8 é um jogo mais sólido e melhor conseguido que qualquer outro da série, mas ainda existem títulos concorrentes que se posicionam num patamar acima. Só que a distância é já bem menor e numa série anual é provável que as diferenças se tornem mínimas, que a Kylotonn lance novo jogo ainda melhor.

Prós: Contras:
  • Dimensão oficial do WRC
  • Modo carreira renovado e dotado de opções de gestão
  • Física dos carros melhorada
  • Pistas de treino
  • Etapas são quase as mesmas da edição WRC7
  • A manutenção do carro em pista é por vezes "gelatinosa"
  • Falta alguma produção nas especiais
  • Carros podem receber mais detalhe

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Sobre o Autor

Vítor Alexandre

Vítor Alexandre

Redator

Adepto de automóveis é assim por direito o nosso piloto de serviço. Mas o Vítor é outro que não falha um bom old school e é adepto ferrenho das novas produções criativas. Para além de que é corredor de Maratona. Mas não esquece os pastéis de Fão.

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